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dossiê
BIOPOLÍTICA

O "quilombo" argentino e o trabalho da multidão
Por Antonio Negri e Giuseppe Cocco

Quanto mais nos adentramos nessa primeira década do século XXI, mais firme é a sensação de que o projeto neoliberal esgotou seu fôlego. O próprio processo de globalização passa por uma fase de transição particularmente conturbada. A crescente volatilidade dos mercados financeiros e a velocidade de propagação mundial de seus impactos, que já caracterizou a segunda metade dos anos 90, encontram hoje as ameaças de uma recessão mundial.

O unilateralismo da administração norte-americana parece sancionar, junto com a volta de preocupações protecionistas das indústrias domésticas, a reafirmação da soberania nacional como marco necessário de uma nova geração de políticas industriais e econômicas. Corolário quase automático dessa guinada das correlações de forças que atravessam a economia no mundo, antigas clivagens parecem renovar-se, voltando a opor o "centro" hegemônico americano às periferias.

Depois do 11 de setembro de 2001, a guerra global permanente confirma o retorno de nítidos projetos de tipo imperialista por parte da administração Bush. Novos e velhos fundamentalismos alimentam-se reciprocamente, como sinistras máquinas mortíferas, para afirmar que a única saída do neoliberalismo apenas pode acontecer de maneira reacionária e conservadora: seja por meio de um renovado populismo nacionalista e imperialista ou de um reanimado populismo do fundamentalismo religioso.

Nos dois casos, a reação aos mercados e à globalização nos faz pensar na Europa dos anos 30, quando o fascismo e o nazismo, com o apoio das elites industrial-militares nacionais, realizaram essas mesmas trágicas operações e combateram o internacionalismo do movimento operário com a demagogia xenófoba e anti-semita da luta contra o "capital cosmopolita". A guerra global permanente reproduz a transcendência dos mercados e da soberania, mas desta vez na maneira regressiva de um poder definitivamente insensato e paranóico que encara a própria globalização como um problema.

Agora, ao passo que o unilateralismo de Bush pode ser interpretado como sendo uma reação (da "velha economia" do petróleo!) em face do fato de que também os Estados Unidos são sugados em um processo de globalização que não conseguem dominar, uma nova geração de movimentos e conflitos sociais de bases globais conseguiu afirmar as dimensões constituintes do Império. Desde Seattle até Gênova, a globalização apareceu definitivamente como um espaço aberto a um novo tipo de lutas.

Em Gênova, nas formas originais de organização em rede de redes do Genoa Social Forum, o chamado "povo de Seattle" anunciou a transformação das manifestações de Praga, Gothemburg e Quebec contra as cúpulas do FMI, da OMC e do BM em um verdadeiro ciclo de lutas, cujo ator é um movimento múltiplo (feito de muitos movimentos), globalizado (feito de fluxos de movimento globalizados) e constituinte (embrião de novos modos de mobilização social, de um novo modo de produção e subjetivação).

A "fenomenologia" do "movimento dos movimentos" é capaz de colocar, na sistemática deslegitimação de uma soberania imperial fundada em sua efetividade, ou seja, na lei da força, a questão da determinação ontológica dos processos contemporâneos de ruptura com a ordem capitalista do mundo.

Nesse novo cenário, o Fórum Social Mundial de 2002, em Porto Alegre, deu um grande passo à frente, para além do mero contraponto "social" aos "donos" da economia (o Fórum de Davos), abrindo brechas significativas para além do discurso neo-soberanista (e antiglobalização) que tanto marcou sua primeira edição (em 2000) e continuou marcando sua representação "formal" nas mídias nacionais e internacionais. E isso, graças ao fato de que o FSM de 2002 tinha duas novas pernas.

Uma delas estava em Gênova, a outra estava com certeza logo do outro lado da fronteira gaúcha, em Buenos Aires. Em dezembro de 2001, a longa agonia da nação argentina acabou explodindo quando as multidões arrastaram a pávida política de De La Rua (sob os auspícios do FMI e do Banco Mundial) e ao mesmo tempo negaram qualquer legitimidade ao nacionalismo peronista: “Que se vayan todos, que no quede ni uno solo”!. É exatamente na tragédia argentina que encontramos, de maneira ainda mais potente, as tramas do trabalho e de uma possível política da multidão.

Na Argentina, a multidão apareceu como sendo o "conteúdo do qual o Império é o contendor". As manifestações insurreicionais de 19 e 20 de dezembro de 2001 não derrubaram apenas o governo, mas sobretudo abriram um formidável período de experimentação e inovação social, econômica e política. As interrupções de estradas pelos “piqueteros”, os “cacerolazos” das chamadas classes médias urbanas, o assédio sistemático aos bancos pelos “ahorristas”, as assembléias “barriales y interbarriales”, a autogestão de fábricas falidas pelos trabalhadores demitidos e as redes de economia solidária (“red global del trueque”) constituíram uma nova configuração do "movimento dos movimentos".

No "quilombo" argentino, o êxodo das políticas neoliberais aparece como êxodo constitutivo de uma possível política da multidão. Uma análise tradicional de sua composição social esbarraria imediatamente em suas dimensões fragmentárias e, por isso, inconciliáveis: classes médias urbanas, por um lado, e proletários desempregados da periferia, pelo outro.

Como explicar a junção de figuras sociais tão diferentes no plano da composição de interesses e sobretudo pelo tipo de inserção e posicionamento que elas tinham no próprio período neoliberal? Como explicar a completa derrocada de qualquer forma de representação e a deslegitimação de toda instância de poder constituído?

Para além das dificuldades que o movimento argentino pode estar enfrentando e enfrentará, seus elementos constituintes permanecem e permanecerão como um patamar essencial para o "movimento dos movimentos", para se pensar o próprio conceito de multidão e as possibilidades de juntar o desenvolvimento da riqueza ontológica da multidão cooperante (o trabalho da multidão) com a capacidade de opor-se de maneira eficaz ao poder capitalista (a política da multidão). O movimento argentino constituiu-se num evento sem finalidade definida, numa ruptura, numa mudança da percepção coletiva. Ou seja, com o movimento argentino podemos pensar materialmente uma multidão capaz de decidir e, pois, as possibilidades de realização da democracia.

Quais são os elementos constituintes do "quilombo" argentino?

O primeiro tem a ver com a desmentida cabal de que haja qualquer determinismo entre a dissolução da relação salarial canónica e o inevitável enfraquecimento dos movimentos sociais. Pelo contrário, o quase desaparecimento do operariado sentado num contrato de trabalho a tempo indeterminado e garantido pela dupla representação do sindicalismo peronista e do Estado, por um lado, não impediu as recentes, maciças e radicais mobilizações sociais.

Por outro, constituiu-se numa de suas condições necessárias. Aliás, uma das operações mais aventurosas, do próprio ponto de vista do poder, do neoliberalismo à la Menem foi justamente a de ter destruído parte expressiva da força de "los gordos", ou seja, da burocracia sindical peronista e, com ela, parte da espessa malha corporativa de privilégios e redes clientelistas e mafiosas que constituía o verdadeiro lastro de cumplicidades sociais nas quais navegava o navio pirata da ditadura e do justicialismo#NOTA.

Da mesma maneira como aconteceu nos países socialistas, a crise do desenvolvimentismo na América Latina em geral e na Argentina em particular é fortemente determinada pela falta daquelas características de liberdade que são necessárias para ter acesso à pós-modernidade, ao pós-fordismo. Os regimes de controle estatal do nacional-desenvolvimentismo eram incapazes de introduzir aqueles elementos de liberdade e de inovação/invenção por parte do trabalho vivo que são necessários para ser uma sociedade civil.

É claro, os neoliberais fizeram pagar o altíssimo preço dessa passagem (baseado no desmonte do pacto corporativo-estatal) aos próprios operários e à sociedade argentina como um todo. Ao mesmo tempo, não devemos esquecer que o neoliberalismo, na América Latina da mesma maneira que nos Estados Unidos e na Europa ocidental e, como dissemos, nos países do "socialismo real", afirmou sua hegemonia também porque soube captar e instrumentalizar uma vasta demanda popular de ruptura do emaranhado de privilégios privados e corporativos incrustados na hegemonia, real ou tendencial, da relação salarial.

O desmonte de parte desses privilégios produziu privilégios e tragédias ainda piores, mas acabou também deixando um espaço aberto para formas de participação popular antes impensáveis. A potência do movimento argentino, apesar da inexistência das tradicionais relações sociais baseadas no emprego formal e sindicalizado, mostra quanta liberdade pode gerar a crise da relação de servidão que é o trabalho assalariado. A multidão acabou se afirmando como o conteúdo da globalização, ou seja, afirmando sua força produtiva enquanto potência de ser comum, produção enquanto força habitada por uma teleologia imanente à sua essência afirmativa. Esses agenciamentos produtivos são a realidade do Império: são as lutas da multidão que produziram o Império enquanto inversão e sua própria imagem.

O segundo elemento nos introduz diretamente no cerne da composição técnica das camadas sociais que constituíram o "quilombo de los pampas". Como foi possível a recomposição política entre, por um lado, os “piqueteros” desempregados excluídos pela reestruturação produtiva e as políticas neoliberais de corte da despesa pública e, por outro lado, os incluídos, os "ahorristas", com suas contas em dólares e os trabalhadores urbanos dos serviços (privatizados) que desfrutaram por anos do poder de compra artificial proporcionado pela irresponsável política monetária do “currency board”?

Isso foi possível porque essas duas figuras sociais tinham e têm muito mais coisas em comum do que a tradicional teoria das classes pretende e o comando tenta esconder. O neoliberalismo, ainda mais na América Latina do que na Europa e nos Estados Unidos, representou também uma tentativa de implementar novas condições de valorização procurando a nova potência ontológica do trabalho. Diante disso, o que sobrava do movimento operário, traindo sua tradicional vocação de antecipação do capital na dinâmica do desenvolvimento, retirava-se, cada vez mais, dentro de fronteiras conservadoras e corporativas.

Para além das ilusórias metas de estabilização macroeconômica por meio das manipulações das taxas de câmbio e juros, as políticas neoliberais visavam propor, pelas privatizações e a lógica do mercado, um espaço público de cooperação social sem o qual o novo regime de acumulação baseado no trabalho imaterial não é minimamente viável. Mas esse espaço de mercado apenas é um sucedâneo do espaço público incapaz de mobilizar os territórios produtivos das redes.

Numa primeira fase, isso parecia até funcionar: não é por acaso nem por mera manipulação da opinião pública que Menem conseguiu se confirmar facilmente no segundo pleito eleitoral. Naquele primeiro momento, embora de modo completamente superficial e instável, a dinâmica de mercado conseguiu dissipar os efeitos de distorção óptica da hiperinflação e tornar mais transparentes o sistema dos preços relativos (e, pois, as condições reais de distribuição da renda). Alcançaram-se também aumentos significativos de produtividade e sobretudo níveis bem mais dinâmicos de universalização dos serviços do que conseguia fazer o Estado autoritário e corporativo do nacional-desenvolvimentismo.

Nesse deslocamento e num primeiro momento, as políticas neoliberais conseguiram ler e interpretar a potência de um novo tipo de trabalho, fundamentalmente baseado em suas dimensões imateriais, ou seja afetivas, intelectuais, comunicacionais, lingüísticas. Um trabalho cuja socialização tendencialmente independe da relação salarial e cuja produtividade está atrelada, ao mesmo tempo, aos níveis de sua socialização e aos de sua cidadania material, ou seja, à universalização dos serviços básicos e avançados.

É claro, como dissemos, esse deslocamento foi superficial e parcial. Os neoliberais não se apoiaram em nenhum pacto social, nem na única genealogia possível desse deslocamento, aquela das lutas contra a sociedade disciplinar do trabalho. O único recurso que podiam mobilizar era constituído apenas pelas técnicas monetárias preconizadas pelo "Consenso de Washington".

1 - Para uma apresentação mais aprofundada do movimento de Gênova, antes e depois do 11 de setembro, vide G. Cocco e G. Hopstein (orgs.), "As Multidões e o Império". Ed. DPA. Rio de Janeiro 2002. Vide também vários artigos em "Lugar Comum" n. 13-14 de janeiro-agosto de 2001 e 15-16 de setembro 2001 – abril de 2002. Nepcom/UFRJ. Rio de Janeiro.


2 - Para uma reflexão critica sobre o FSM de POA, vide o documento coletivo, "Porto Alegre 2002: O Trabalho das Multidões". In "Lugar Comum", n. 17 Ed. E-Paper/LABTeC. Maio-Outubro de 2002.


3 - Jacques Rancière, "Peuple ou Multitudes?". Entrevista com Eric Alliez. "Multitudes", n. 9. Paris Exils. pág. 98.


4 - Para uma problematização do movimento argentino nessa perspectiva, vide Gerardo Silva, "O Quilombo Argentino", In "Lugar Comum", n. 17, Ed. E-Paper/LABTeC. Maio-outubro de 2002.


5 - "Los gordos"; é assim que são chamados os membros da cúpula dos sindicatos peronistas. Vide Federico Schustter e alli, "La Trama de la Crisis - Modos y Formas de Protesta Social a Partir de los Acontecimientos de Diciembre de 2001". Instituto Gino Germani. Universidad de Buenos Aires. Junho de 2002, pág. 37.


6 - A "liturgia peronista (tinha) desaparecido desde a campanha eleitoral que levou Menem ao poder em 1989". Federico Schuster e alii. Ibid., pág. 37.


7 - J. Rancière, Ibid.

 
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