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GUERRA SANTA

A jihad global da Al Qaeda virtual
Por Marcelo Starobinas

Para o professor Reuven Paz, grupo de Bin Laden está criando na internet uma "universidade aberta"

Perseguidos, extremistas islâmicos que se identificam com o projeto de "Jihad global" de Osama Bin Laden encontraram refúgio na internet, onde já criaram uma "Al Qaeda virtual". Essa é a constatação do professor israelense Reuven Paz, diretor do Projeto para a Pesquisa de Movimentos Extremistas Islâmicos e integrante do Instituto Internacional de Política de Contra-Terrorismo, com sede em Herzliya, ao norte de Tel Aviv.

"Com a internet, a Al Qaeda consegue penetrar na casa de seus seguidores, superam os limites da censura e a luta que governos árabes lançaram contra eles", afirma Paz.

Doutor em história do Oriente Médio pela Universidade de Haifa, ex-diretor de pesquisa do Serviço Geral de Segurança do governo israelense, ele tem dedicado seus esforços nos últimos anos a monitorar web sites desenvolvidos por militantes muçulmanos aliados a líderes como Bin Laden ou mesmo criados por simpatizantes independentes.

Por estarem em árabe -ou mesmo em pashtu ou urdu nos casos de grupos do sul da Ásia- essas homepages compõem um enorme canto escuro no interior da rede mundial de computadores. Nem mesmo serviços de inteligência como a CIA americana contam com especialistas capacitados em número suficiente para iluminar esse underground islâmico, que se apodera das novas tecnologias de comunicação criadas pelo inimigo ocidental como arma para enfrentá-lo.

Autor de livros sobre a política do Oriente Médio e movimentos islâmicos -o mais recente deles é "Tangled Web - International Networking of the Islamist Struggle" (The Washington Institute for Near East Policy, 2002)-, Reuven Paz concedeu a Trópico a seguinte entrevista.


De que forma operam hoje grupos terroristas, como a Al Qaeda? Até que ponto ainda são uma ameaça?

Reuven Paz: A ameaça continua a mesma. Mas, psicologicamente, devido ao fato de os principais líderes não terem sido presos, a ameaça é maior. A cada rumor e cada mensagem que eles mandam pela internet causam um eco maior que antes, mesmo que não estejam diretamente ligados a Bin Laden e à Al Qaeda, mas relacionados ao que chamamos de fenômeno da Jihad global.

Creio também que há um efeito psicológico mais intenso desde que começaram a informar -ou desinformar- o público sobre o risco de eles utilizaram armas biológicas e químicas de destruição em massa.

Aumentou o risco real de os terroristas usarem esse tipo de armas?

Paz: Leio diariamente todo o material no original em árabe que eles publicam em seus web sites. Eles preferem utilizar métodos de auto-sacríficio, de martírio, em vez de armas de destruição em massa.

Esse elemento -o martírio- é muito importante na visão de mundo e nas mensagens que mandam aos seus apoiadores em todo o mundo. Eles realizaram os ataques de 11 de setembro apenas com facas, sem recorrer a armas mais poderosas.

Se fizerem outro ataque -e suponho que o farão- será novamente colocando ênfase no elemento de que eles são corajosos e não têm medo de morrer. Isso é preferível para eles, diferentemente do outro lado, que, na sua visão, é covarde e busca uma vida materialista.

Há outros grupos islâmicos além da Al Qaeda que poderiam ser uma nova ameaça?

Paz: Esse grupo liderado por Bin Laden, Aiman al Zawahiri e outros sauditas e egípcios deseja fazer da Al Qaeda uma universidade aberta. Assim, estabeleceriam uma subcultura, ou universidade, que criaria uma dinâmica para o estabelecimento de grupos semelhantes por todo o globo -no mundo árabe e também entre as comunidade muçulmanas do Ocidente.

Tentam criar uma série de web sites que não necessariamente são controlados por Bin Laden ou pela Al Qaeda, mas que seguem a mesma linha ideológica.

Os grupos terroristas palestinos se enquadram nesse modelo?

Paz: Ideologicamente, eles se identificam com a luta global de Bin Laden. Mas o Hamas é um grupo que teve origem na Irmandade Muçulmana (do Egito), que não toma parte nessa cultura de Jihad global e se esforça para conquistar legitimidade como movimento político, não como terroristas.

O Hamas enfatiza que a sua luta é contra Israel, não contra os EUA nem contra alvos judaicos fora de Israel. A Jihad Islâmica palestina também é patrocinada pelo Irã, que não participa desse movimento de Jihad global.

A noção de antiocidentalismo e antiamericanismo e o sentimento de opressão são compartilhados pelos palestinos. Assim, há solidariedade com a luta na Tchetchênia, na Caxemira, no Afeganistão, com todo lugar no mundo onde há conflito entre muçulmanos e os outros.

Esse fenômeno de Jihad global pertence apenas a grupos minoritários extremistas? Ou está ligado a uma identidade cultural mais ampla no mundo islâmico?

Paz: O fenômeno da Jihad global é sobretudo um fenômeno do mundo árabe. A maioria dos presos desde 11 de setembro, que combatiam no Afeganistão, nos Bálcãs e na Tchetchênia são árabes. A maioria dos líderes militantes islâmicos em Londres e em outros pontos da Europa são sauditas, argelinos, egípcios, palestinos, jordanianos. É importante mencionar isso porque mostra que estão construindo essa solidariedade debaixo do mesmo "guarda-chuva" ideológico.

Eles têm a mesma cultura, a mesma língua. Quase todos os seus web sites estão em árabe. São baixos os riscos de eles conseguirem se espalhar para países com população muçulmana não-árabe como Indonésia, Filipinas ou Nigéria.

Pode-se dizer que a guerra contra o terrorismo lançada pelos EUA derrotou a Al Qaeda?

Paz: Não. Eles foram derrotados de certa forma ao perder o território afegão. Mas não sei quanto tempo vai durar a coalizão que governa o Afeganistão.

Assim, embora tenham perdido esse território, eles se tornaram um movimento mitológico que atrai o imaginário e apoio de muito mais muçulmanos que antes de 11 de setembro.

Parte desse apoio eles conquistam pela internet. Usam a rede de computadores para construir solidariedade global e para se comunicar. Criaram dezenas de sites com fóruns de debate e salas de bate-papo.

Não é possível dizer que muitos desses sites sejam iniciados por membros da Al Qaeda, mas eles se identificam ideologicamente e socialmente.

Então a Al Qaeda, pelo menos na internet, continua forte?

Paz: Eles se tornaram o que poderíamos chamar de Al Qaeda virtual. De tempos em tempos os EUA fecham alguns de seus web sites. Mas muitos deles operam a partir de servidores dentro dos próprios EUA.

Com a Internet, a Al Qaeda consegue penetrar na casa de seus seguidores, superam os limites da censura e a luta que governos árabes lançaram contra eles. Têm assim muita influência sobre jovens de comunidade muçulmanas no Ocidente.

A Al Qaeda é capaz de operar sem Bin Laden?

Paz: Creio que sim. Há outros movimentos afiliados à Al Qaeda mas não necessariamente parte dela. É o caso de grupos da Argélia, da Jordânia, palestinos no Líbano e pessoas na Europa. Não estou convencido de que as operações do 11 de setembro foram planejadas no Afeganistão. Poderiam ter sido feitas em Hamburgo ou outra cidade européia.

Dos cerca de 600 militantes presos pelos EUA na base de Guantánamo (Cuba), nenhum deles têm conexão com os ataques de 11 de setembro. O mesmo ocorre com os que foram detidos na Europa ou em outros lugares.

Todos eles possuem capacidade de agir e bons contatos, construídos em centros islâmicos e mesquitas. Esse é, aliás, o objetivo ideal da Al Qaeda: criar uma dinâmica que pode se alimentar sozinha mesmo se a Al Qaeda como um grupo desaparecer.

Qual a sua avaliação geral sobre a atuação do governo dos EUA no combate à Al Qaeda?

Paz: Por um lado, funcionou, ao eliminar o regime Taleban, que abrigava Bin Laden e a Al Qaeda. Para muitos muçulmanos, porém, o Taleban servia como modelo de um verdadeiro Estado islâmico com o qual eles sonham. Assim, ao eliminar o Taleban, ao fazer fortes ataques aéreos que mataram inocentes, eles perderam muito apoio, que passou para o lado dos militantes islâmicos.

Ao falar por tanto tempo sobre um futuro ataque ao Iraque, os EUA estão fazendo o mesmo. Alimentam o antiamericanismo. Embora Saddam Hussein seja visto pelos ativistas islâmicos como um herege, um ditador infiel, eles têm simpatia pelo povo iraquiano.

Os EUA e a Europa estão mais seguros hoje que antes do 11 de setembro?

Paz: Não, pelo menos esse não é o caso europeu. A luta contra o terrorismo é mais fraca na Europa que nos EUA. O envolvimento e a influência das comunidades muçulmanas no continente são muitos maiores que aquelas nos EUA.

Além disso, com o desemprego e o ódio dos europeus aos estrangeiros, eles tendem a criar vida autônoma em relação às suas sociedades. Em geral, não são violentos, mas são usados como portos seguros para os elementos mais extremistas.

O que precisa ser melhorado na guerra contra o terrorismo para fazer frente às ameaças?

Paz: Em primeiro lugar, é preciso mais cooperação internacional na área de inteligência. Além disso, seria importante encorajar a modernização no mundo árabe. Tentar evitar a adesão a esses grupos extremistas, o que não é fácil.

Por exemplo, se você olhar o país em que esse risco é o maior, o Egito, muitos elementos econômicos e sociais criam ressentimento e ódio contra o governo secular e levam muitos jovens a apoiar os extremistas. É preciso uma grande mudança na cultura política do Oriente Médio, mas isso é um processo muito longo.

Marcelo Starobinas
É jornalista e trabalha no caderno "Mundo", da "Folha de S. Paulo".

 
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