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Concordo com você: não são personagens com uma profundidade psicológica grande. Por exemplo, o Mané Galinha. Acho que no roteiro ele tem um pouco mais de profundidade psicológica do que no filme. Já o Zé Pequeno, por exemplo, que no roteiro é simplesmente um monstro, ganhou uma dimensão um pouco mais humana no filme, quando ele toma aquele fora da menina no baile. Aquela cena não tem no roteiro, é um improviso.

Essa característica se deve a quê, mais especificamente?

Mantovani: Esse filme é um épico. E essa condição de épico inviabiliza o tratamento mais psicologizante. Não dá para contar essa história, com aprofundamentos psicológicos, nesse espaço de tempo.

O Fernando chegou a pensar em fazer uma série de TV. O longa seria uma versão compacta. A série contaria tudo. Numa série de TV, conseguiríamos resgatar uma profundidade psicológica maior para os personagens. Nesse espaço curto, é necessário fazer sacrifícios. Tem que se estabelecer um critério de composição para aquela obra específica e ajustar aquilo para que tenha uma coerência interna. Evidentemente, eu consegui fazer isso dentro das minhas limitações.

Para manter a coerência interna desse roteiro, eu precisei sacrificar a psicologia dos meus personagens. O Buscapé até melhorou, ganhou mais conflito. A história de ele poder virar profissional, isso tudo foi uma coisa que tentamos deixar melhor. Nem sei se gosto muito. Preferia, talvez, o Buscapé mais seco.

Nos primeiros roteiros, ele era menos importante. Eu gostaria de comparar os dois resultados. Evidentemente, é muito caro fazer isso (risos). Essa característica não me incomoda, essa pouca profundidade psicológica. Foi um sacrifício necessário para que o filme pudesse ter mais poder de comunicação.

Esse tema pede uma opção dessas?

Mantovani: Eu acho que o tema existe e você trata ele como artista. A nossa opção foi: sermos fiéis, no nosso entendimento, ao livro. Não foi fazer a sociologia da violência. Isso nunca passou pela nossa cabeça. Não estou dizendo que eu seja contra quem faz isso. Só que não é o caso desse filme. E não sei se o livro do Paulo Lins seria uma boa fonte para esse tipo de abordagem. Uma abordagem mais sociológica, talvez até mais totalizadora. Mas tentar entender as causas mais profundas e discutir... Seria um outro filme, e não sei se o livro do Paulo Lins poderia fornecer um bom material de pesquisa. Mas aí seria uma adaptação muito mais livre.

Se não é uma abordagem sociológica, o que é, então? Entretenimento?

Mantovani: Aí, eu deixo para os críticos. Eu não sei. Não sei classificar o meu trabalho dessa maneira. O que eu sei é que tentei ser fiel ao livro e reproduzir imagens com uma coerência interna narrativa, que é própria do drama audiovisual, o efeito que aquele livro me produziu. É uma transcriação do livro do Paulo Lins, bastante livre. É isso.

É uma ambição pequena. É que o livro é grande e o tema se transformou no tema do momento. Quando começamos o trabalho, em 1998, não se falava tanto assim. Falava-se mais no Rio. Em São Paulo, nem tanto. Esse tipo de violência não era uma coisa tão forte. Tanto que, quando comentávamos com as pessoas que íamos adaptar o livro do Paulo Lins, as pessoas diziam: “Ah, mas vocês vão falar desse tema, esse tema é desagradável. Para quê? Falar de favela?”. Eu ouvi isso várias vezes: “Tanto tema para fazer. Vão falar dessa coisa de violência, de tiro”.

Hoje em dia, eu acho, ninguém faria esse tipo de observação. O tema tá tão na nossa cara, que tem que fazer... O filme derivou do livro. O filme carrega algumas poucas qualidades do livro -não vou dizer que seja a melhor adaptação para o Lins, não. E também traz consigo alguns defeitos do livro, se é que a gente pode chamar de defeitos -vamos chamar de limitações, opções.

Quais as repercussões externas, fora da crítica?

Mantovani: Curioso. Eu tenho uma amiga que foi à pré-estréia. Não a via há anos. Ela foi vítima de um desses seqüestros relâmpagos e teve aquela crise, absolutamente normal, de ficar um pouco de direita. “Tem que ter mais cadeia, tem que prender esses bandidos!” Ficou um pouco malufista. Ela me mandou um e-mail, no dia seguinte à pré estréia, que dizia o seguinte: “O filme me deixou muito impressionada, eu saí abalada e já ouvi de várias pessoas que é entretenimento. Eu revi muito do que eu venho dizendo ultimamente. Não tem nada a ver essa história de mais prisão, mais polícia. A saída para esse país é a inclusão social”. Assim.

Parece que o filme tinha uma mensagem empacotadinha, que ela decodificou. Achei interessante isso. Porque a gente nunca pensou que o filme traria essa mensagem de maneira explícita. Acho que pode motivar uma discussão que leve a essa conclusão, mas em si não apresenta isso. Na verdade, o filme, como o livro, não dá nenhuma alternativa. Como o Paulo Lins. Ele é um cara muito niilista em relação a esse problema. Ele acha que o livro não muda nada, o filme não muda nada. Eu acho que ele está certo.

O que pode mudar alguma coisa é a política. O filme pode contribuir para a discussão. Evidentemente, não apresenta nenhuma solução. Ao contrário, dá até um certo desespero. Agora, uma das funções da arte é deixar a gente perturbado. O filme cumpre um pouco esse papel, de perturbar.

Entrevista publicada pela primeira vez em Trópico em 12/9/2002.link-se
Leia trechos do roteiro de "Cidade de Deus" - http://www.uol.com.br/tropico/dossie_5_417_1.shl

Alessandro Giannini
É jornalista e crítico de cinema.

 
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