1
dossiê
CIDADE DE DEUS

Braulio Mantovani, o roteirista: "Não quisemos fazer sociologia da violência"
Por Alessandro Giannini

Como foi o processo de adaptação do livro de Paulo Lins

Não há como fugir da discussão. Ame-o ou odeie-o, "Cidade de Deus" é um filme que deve ser visto e pensado no contexto que vivemos hoje. Fernando Meirelles propôs uma adaptação do livro homônimo que tenta se aproximar ao máximo da narrativa fragmentada, claustrofóbica e reiterativa de Paulo Lins. O trabalho ficou a cargo de Braulio Mantovani, roteirista profissional de cinema e televisão, que escreveu 15 versões do roteiro, entre 1998 e 2001. “Muitas coisas foram mudadas na ilha de montagem, a base de discussões com o Fernando”, conta ele.

Mantovani, que nasceu no bairro paulistano do Ipiranga, próximo à favela de Heliópolis, a maior e mais populosa de São Paulo, vem de origem humilde. “Meu pai era torneiro mecânico.” Entre os familiares, um primo distante o salvou de muitas confusões. “Era um pequeno traficante da região, que eu mal conhecia e nem dava muita bola para mim”, conta. “Mas quando a coisa apertava para o meu lado, eu dizia que era primo do Abraão.” Hoje, mora em Higienópolis, próximo à praça Villaboim.

Para escrever o roteiro, visitou Cidade de Deus acompanhado de Meirelles e Paulo Lins. Defende com afinco a opção pela narrativa fragmentada, pela pouca profundidade dos personagens e por tudo mais que emoldura aquela visão da realidade daquela parcela da população carioca. E não entende como se pode classificar o filme com o rótulo de entretenimento. “Para mim, um filme que tem a coragem de mostrar uma criança sendo baleada no pé não é exatamente entretenimento.”

Adaptar um livro como “Cidade de Deus” não é um trabalho simples. Quanto tempo durou?

Braulio Mantovani: A primeira versão do roteiro é de 1998. É muito antiga. A última foi escrita durante a montagem. Eu e o Fernando (Meirelles) íamos discutindo e decidindo as coisas na ilha de edição. Durou de 1998 a 2001. Foi um trabalho longo.

E como foi esse processo?

Mantovani: Primeiro, o Fernando me pediu para ler o livro. Eu li. Achei que era muito difícil. Achei, na verdade, que ele tinha enlouquecido. Nós tínhamos acabado de fazer um projeto para a Cultura. Eu era roteirista de uma série chamada “Oficinas Culturais na TV”, que tinha vários consultores. O Fernando era consultor de cinema e TV.

Ele escreveu conteúdo para seis programas. No programa de roteiro, deu muita ênfase para o modelo de roteiro americano. Mais ou menos o que está sistematizado no livro do Syd Field, que já virou um clássico dos manuais de roteiro. Ele foi tão enfático nesse conteúdo, que logo imaginei um filme nos modelos da narrativa clássica americana comercial.

Nas primeiras 200 páginas, achei que era impossível. Daria para fazer talvez cinco filmes americanos com esse livro. Não tinha como, está tudo muito imbricado. As pequenas histórias, que às vezes duram apenas algumas linhas, conversam com as grandes histórias, perpassando partes do livro.

Eu achei que, se a gente pegasse uma história só e contasse, não ia funcionar. Não ia ter a ver com o livro. Podia ser uma outra coisa. Achei que o Fernando tinha escolhido mal. Mas eu, evidentemente, estava muito interessado em fazer. Porque, até aquele momento, nenhum dos meus roteiros havia sido filmado. Eu tinha escrito alguns para o meu curso de roteiro na Espanha.

Onde você fez curso na Espanha?

Mantovani: Fiz um curso de pós graduação de roteiro na Espanha, em Madri. Na Universidade Autônoma. Tinha escrito antes, nos anos 80, um roteiro de média-metragem, que alguns cineastas paulistas gostaram. Cheguei a trabalhar em projetos com o Gal (Luís Alberto Pereira), com o Sérgio Bianchi. Nunca foi para frente.

Sempre trabalhei para televisão. Eu pago as minhas contas escrevendo roteiro. Evidentemente, aquela era uma oportunidade profissional imperdível. Ainda mais com o Fernando Meirelles, que tinha sido do Olhar Eletrônico, que nos anos 80 tinha influenciado a minha maneira de entender o audiovisual.

Não podia dizer “não” para aquilo. Pensei: “Vamos lá, vamos ver o que acontece”. A gente tem que correr riscos. E aquele era um risco grande. Quando ele disse que queria fazer um filme que não tinha nada a ver com o modelo Syd Field, que queria fazer um filme mais fragmentário, com várias pequenas histórias, eu achei muito melhor.

Então essa era a idéia desde o início. Fazer um painel juntando todas as pequenas histórias do livro?

Mantovani: Desde o início. Nesse sentido, a adaptação é fidelíssima ao livro. Claro, mudamos muitas coisas. Fundimos personagens, trocamos coisas de lugar, inventamos situações que não existem. Mas tudo isso para, eu acho, estar mais próximo do livro. Evidentemente que não é a mesma coisa. O livro é muito mais rico, tem 600 páginas. O filme nunca ambicionou ser tão poderoso quanto o livro.

A nossa ambição era um pouco mais modesta. Mas era recuperar esse ponto de vista privilegiado do Paulo Lins, que escreveu morando ali na Cidade de Deus. Ele cresceu ali e, por ser um grande artista, também conseguiu, com esse tratamento ficcional, dar uma grandeza para essa história. Ele conta a história de um lugar, mas a história que conta é maior que aquele lugar.

Eu vejo a Cidade de Deus como o sertão do Guimarães Rosa. É onde “manda o mais forte, com as astúcias; Deus mesmo quando vier, que venha armado”. Cidade de Deus é o Terceiro Mundo. Não é nem só o Brasil. É o painel de uma situação que é mundial. E o que a gente tentou é isso. Mantendo o ponto de vista do Paulo, a fragmentação de muitas histórias, muitos personagens, chegar próximo do efeito que o livro produziu na gente, uma porrada. Basicamente, é uma porrada.

Nas primeiras versões, ele tinha esse formato fragmentário?

Mantovani: Era até mais fragmentado. Tinha muito mais personagens. Foi encolhendo ao longo das versões. Era muito mais complexo. Por exemplo, uma das primeiras idéias que o Fernando teve foi o seguinte: micro-histórias ao longo do filme de pessoas que falam um pouco sobre elas e, depois, algumas cenas à frente, morrem. Isso é muito constante no livro.

Inventamos, então, as mini-biografias Isso foi filmado e esteve montado. O problema é que o filme ficou longo demais. Eu já queria ter cortado isso na décima versão do roteiro. Mas ele dizia que era a idéia do coração dele. Na montagem, acabou caindo. Infelizmente, porque era muito legal. Mas vamos retomar em algum outro projeto.

No DVD, por exemplo.

Mantovani: No DVD vai estar. Nas “cenas deletadas” (risos). Deu muito trabalho costurar essas mini-biografias no roteiro. Vou dar um exemplo logo do início do filme. O plano de Dadinho. Eles vão assaltar o motel. Antes de aparecerem, a recepcionista falava diretamente para a câmera. Ela recitava um texto tirado do livro, mas de outro personagem. Eu ia buscar textos de que gostava muito, achava bons demais e encaixava nesses personagens secundários. Evidentemente, tinha que adaptar um pouquinho.

Então, você tinha a recepcionista do motel falando para a câmera. A respeito dela. E era uma conversa que não tinha nada a ver. Era uma coisa sobre sexo. Depois, voltava para o motel, para a entrada. Eles faziam o assalto e aí você a via caída entre os mortos. Eles fogem depois do assalto ao motel, batem o carro na Cidade de Deus e correm para o mato. O Alicate e o Marreco sobem em cima de uma árvore. O Alicate tem uma espécie de devaneio. Ele não agüenta mais aquela situação, quer sair daquela vida e vai embora.

Milagrosamente, ele escapa da polícia, que mata por engano um rapazinho que estava vindo na direção contrária. Antes dessa cena, até uma das últimas montagens do filme, você tinha aquele garoto que morre falando para a câmera que ele era trabalhador, que tinha um problema com o irmão, que era bandido, tudo isso pinçado do livro. Tinha muito mais histórias. Mas ia ficar um filme longo demais. Se ficasse longo demais, não ia ser viável economicamente.

O filme tem um caráter de retrato impressionista. Até pela opção de retratar a história de forma fragmentada. Você acha que esse tema merece esse tratamento?

Mantovani: Pode-se tratar qualquer tema sob muitos pontos de vista. Não sei se concordo com você. Eu não acho distanciado, acho muito próximo. A secura que tem, a ausência de auto-indulgência. Tudo é muito cru, não tem piedade. O livro do Paulo Lins comunica muito o embrutecimento de quem vive aquela realidade. É preciso ter uma força de caráter fenomenal para não se embrutecer numa situação daquelas. E esse embrutecimento está muito colado ali no texto.

Quando mudaram para a Cidade de Deus, os caras tinham que acordar cedo e andar muito para pegar um ônibus e chegar no Rio de Janeiro para trabalhar. Eles viviam em favelas próximas do centro e foram deslocados para um lugar que está há 30 km de onde moravam. Isso na década de 60. Era no meio do mato. Você percebe?

Ali se criou uma comunidade à parte, que foi mais ou menos abandonada pelo Estado -não era uma ausência total, já que a polícia estava lá. A presença do Estado se traduzia pela presença da polícia, que era repressiva. Não existia uma organização.

Aquele policial, organizando de forma improvisada, numa situação em que quem manda é “o mais forte com as astúcias”, não dá proteção para o cidadão. Ele está à mercê do mais forte. impera a lei do mais forte. O livro traz isso muito destacadamente. Tentamos ser féis ao livro. Evidentemente, você pode tratar esse tema de muitos aspectos. O livro mesmo possibilitaria outras aproximações. Escolhemos essa abordagem, que foi a que sentimos mais próxima do livro.

Qual seja?

Mantovani: A de apresentar esses personagens, essas situações extremas, esse descontrole que vai se construindo. O descontrole está próximo à linguagem narrativa do livro. Começa tudo mais calmo e vai se complicando, passa por aquele momento anos 70 mais divertido, mais alegre. Quando parece que as coisas podem melhorar, vai para aquele novo embrutecimento, que degenera para uma guerra. Que realmente aconteceu. Durou muito tempo. A gente encolheu. Evidentemente, não daria para passar aquilo.

Qual o problema com a duração da guerra?

Mantovani: O filme não é feliz ao passar a sensação de como demorou aquilo. Que tortura que foi o tempo que aquela população viveu aquela guerra. Por outro lado, hoje, sabemos disso pelas notícias. Sabemos que é um terror constante. A separação. Você mora aqui e não pode ir para lá. O filme fala disso. A área do Pequeno, a área do Cenoura. Um não podia passar para o lado do outro. Quase uma Faixa de Gaza.

Hoje em dia, essa mesma situação se repete com os comandos, o Comando Vermelho, o Terceiro Comando. As facções dividem os territórios na favela. E corre-se riscos. Se você mora numa área do CV, pode ser o cara mais crítico ao movimento. Na hora em que você pisar no território dos outros, vai ser considerado do TC e corre risco de ser morto. É uma loucura.

Foi isso que tentamos passar. Esse descontrole. Não só o Fernando, eu também. Foi uma coisa que começou como uma encomenda e virou algo autoral para mim. Vim trabalhando esses anos todos no roteiro. É uma opção que defendo. Queríamos contar essa história que está aí. Essa história pode ser contada de várias maneiras? Inúmeras. Por favor, façam. É lógico que quanto mais essa tema for traduzido artisticamente, melhor.

A coisa fragmentada funciona no livro porque há espaço. As histórias se imbricam de uma maneira que vão e voltam, até de uma maneira reiterativa.

Mantovani: E tem um pouco disso no filme. Aliás, as brincadeiras narrativas do filme, o vai-e-volta, é para traduzir um aspecto formal. Não de realidade traduzida. Mas da própria maneira de narrar do Paulo Lins. É uma homenagem a ele. E ajuda a contar a história. Não é de graça aquilo.

Tem outro aspecto discutível do filme, que é não se aprofundar nos personagens. Com aquela gama enorme de tipos, eles acabam desumanizados. Tira um pouco individualidade de cada um deles.

Mantovani: Mas os personagens mais importantes da história estão bem diferenciados. Você consegue perceber que o Zé Pequeno e o Bené, amigos muito próximos, são pessoas completamente diferentes. Acho que fica muito claro. Você percebe que o Bucapé, o narrador, é um cara que não se ajusta nem ao mundo do crime, nem ao mundo do trabalho. E só lhe resta apostar num certo talento artístico, tirar fotografia. O Tiago é o menino branco, um personagem até mais episódico.

É o garoto classe média?

Mantovani: Ele é da favela. Mas tem uma condição um pouquinho melhor. É que a favela... O que a gente chama de favela é, na verdade, um conjunto habitacional. Tem uma certa hierarquia social. Enfim, acho que estão diferenciados.

 
1