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novo mundo
11/09

Memória.net
Por Giselle Beiguelman



Detalhes de "Flight 175" e "Ground Zero Theme Park"/Reprodução

Webartistas desafiam a monotonia midiática
com trabalhos reflexivos sobre 11 de setembro

A comercialização da memória, ensinou o filósofo Cornelius Castoriadis, serve para empurrar para o passado as possibilidades do monstruoso e para fugir da monstruosidade com que nos confrontamos hoje em dia.

Racionalizações ocas, dizia, aliam-se a um estado de autocegueira voluntária, resultante da recusa de aceitar que a história pode produzir o absolutamente abominável, funcionando como um remédio digestivo que é eficiente porque evita o confronto direto com os fatos.

Revigorado pela efeméride do aniversário de 1 ano, o dia 11 de setembro transforma-se novamente em espetáculo midiático que disponibiliza subprodutos variados, de vídeos a sites, passando por souvenirs comemorativos, aos quais delegamos a função de documentos de um passado presente.

Documentos esses que são monumentos, verticalizados pela intenção edificante a que respondem em um jogo de forças e poderes, conforme já aprendemos com o medievalista Jacques Le Goff.

Não se trata, portanto, de falar nas celebrações em torno do “11 de setembro” como indícios de um processo de esvaziamento da memória. Pelo contrário, trata-se de perceber e interrogar um estranho mecanismo de intoxicação pelo consumo excessivo de informações repetidas e um pulular de imagens que, de diferentes ângulos, retratam uma mesma cena veiculada pela CNN: o ataque às torres gêmeas do World Trade Center.

Antológicas, do ponto de vista da história do jornalismo, são imagens literais. Elas não nos desorganizam, antes consolidam o acontecimento como épico. Drenando a catarse crítica, abolem a interrogação violenta, atributo essencial das “fotos-choque”, tal qual Barthes definiu em um pequeno ensaio de Mitologias.

Apresentando “o escândalo do horror, não o horror propriamente dito”, tornam-se inócuas quando contextualizadas na inumerável quantidade de registros produzidos, especialmente no formato digital e on line.

São memórias pessoais e de serviços noticiosos diversos acessíveis no “The September 11 Digital Archive” e em outros sites, como o desconcertante “Sonic Memorial Project”, que só trabalha com registros sonoros e o “The September 11 Web Archive”.

Sem dúvida que a institucionalização dessas memórias digitais traz consigo problemas complexos com relação à supressão de fontes e à parcialidade dos registros. Contudo, permitem visualizar os documentos como dados de um sistema de informações, conteúdos relacionáveis. Permitem, por isso, leituras múltiplas que não corroboram a história que se explica e se justifica em uma imagem e uma interpretação.

Nadando contra a monocordia midiática, dois webartistas produziram sites que atualizam essas discussões: “Flight 175”, de Eryk Salvaggio, e “Grounds Zero Theme Park”, de Todd Hullin.

Salvaggio, um rapaz de 23 anos que trabalha como vendedor em uma loja de televisões em Salem (New Hampshire), quis, segundo afirma no site de “Flight 175”, fazer uma coisa “muito simples e objetiva: conectar essas imagens de 11 de setembro de 2001 às vidas reais que foram perdidas.”

Talvez fosse necessário sublinhar, colocar em negrito, “dar bold” na palavra reais para lembrar que vídeo é vídeo e vida é vida, com toda banalidade e dor que o cotidiano concentra.

Imerso desde o começo de seu dia de trabalho, em imagens de TV que reproduziam a cena do voô 175 da United Airlines chocando-se com o World Trade Center, Salvaggio chegou a se sentir indiferente, no dia 12, diante do que via, apesar de estar ciente que isso não deveria ocorrer.

A partir de um site europeu, copiou uma cobertura jornalística feita em vídeo e guardou durante meses em sua máquina. Isolou uma seqüência de 20 quadros congelados e recompôs cada frame, reconstruindo os fotogramas com 2800 nomes de vítimas, dividindo os quadros em 55 linhas, preenchidas com 10 nomes cada.

O impacto é forte, mormente porque “Flight 175” não é navegável. Salvaggio optou por um espaço em que não se é convidado ao movimento. A fim de evitar o gesto de “clicar às cegas”, montou uma narrativa randômica que corre automaticamente, substituindo as mesmas imagens-textuais e atualizando, apenas, o nome dos mortos.

É desorientador não só porque a sutil diferença entre o ilegível e o visível perturba, mas porque encena o teatro da catástrofe, tão caro a Artaud, que nos põe nus diante da arte que se representa como representação e não como alegoria de um suposto “significado” da história.

Debochado, “Ground Zero Theme Park”, ironiza a apropriação da data como gadget. Anunciado como o “mais patriótico parque temático da América” que espera receber, na quinzena de lançamento, 100 mil pessoas, tem catálogo para encomendas de souvenirs, obras de arte carésimas e reproduções da cruz de ouro encontrada entre os escombros, com a insígnia “sagrada merda” inscrita.

Distribui fotos manjadas para você mostrar aos entes queridos e traz um kit de lançamento para lá de convincente, pois é ilustrado com a presença de gente como Abraham Lincoln, George W. Bush e Tony Blair, entre outros poderosos.

Montanha-russa, fogos de artifício e roda-gigante são outros atrativos oferecidos pelo parque temático do Ground Zero de Todd, paródia explícita dos planos de reurbanização da área das ruínas do World Trade Center.

Também ele se viu mergulhado na imanência do cotidiano daquele dia 11 de setembro. Morador das adjacências das torres, só conseguiu chegar em casa, duvidando no caminho se ainda a tinha, no dia 16.

Ficou revoltado ao encontrar inúmeros turistas fotografando ao lado das ruínas, entre os escombros e a poeira, só para poder dizer “Estive no Ground Zero”. Tinha vontade de lhes tomar as câmeras e jogá-las contra os prédios, conta no seu site, que dispõe, também, de um interessante fórum de discussão sobre o assunto.

Aos poucos, a raiva foi passando, mas a indústria de barraquinhas que brotou ao redor do Ground Zero, vendendo bandeiras, pins, brochuras e cruzes douradas, continua irritando Todd e acabaram por mobilizá-lo a construir o seu gadget de 11 de setembro: um parque temático fictício no seu espaço exemplar.

Quanto à morbidez dos turistas, ela parece ter ensinado a Todd uma lição não menos mórbida sobre a comercialização da história e suas reconstruções estéticas e midiáticas. Ao transformar tudo em imagens, cria “cartuns hiper-realistas dos quais se elidem todos os seus oohs e aahs.”

Com isso, subitamente, nos fazem perceber por que os efeitos especiais hollywoodianos, que simulavam efeitos semelhantes, nunca conseguiram a empatia provocada pelas imagens de 11 de setembro: faltava-lhes, pontua causticamente Todd, “o sentido da escala humana.”

link-se
The September 11 Digital Archive - http://911digitalarchive.org/
The September 11 Web Archive - http://september11.archive.org/
The Sonic Memorial Project - http://sonicmemorial.org/public/index.html
Flight 175 - http://anatomyofhope.net/wtc/2/
Twin Towers at Ground Zero - http://groundzerothemepark.com/

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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