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dossiê
ROBERTO VENTURA

A introdução de "Folha Explica Os Sertões": "Um Sucesso Imprevisto"
Por Roberto Ventura

Leia o início do último livro escrito pelo ensaísta, que sairá em outubro na coleção da Publifolha

Procurar-se a verdade neste torvelinho é impor-se a tarefa estéril e fatigante de Sísifo.
Bahia, 16 de agosto de 1897

Escrevo, como fumo, por vício.
Manaus, 1905



Os Sertões (Campanha de Canudos) chegou às livrarias em 2 de dezembro de 1902, no dia seguinte ao desembarque, na capital da República, de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o barão do Rio Branco, vindo de Berlim para assumir o Ministério das Relações Exteriores do governo Rodrigues Alves (1902-6). De seu autor, Euclides da Cunha, já se disse que dormiu obscuro e acordou célebre, conforme a pitoresca expressão do crítico Sílvio Romero.

O fulminante êxito da obra surpreendeu o escritor e o próprio editor Gustavo Massow, da Laemmert, que temia que o grosso volume repetisse o fracasso de outra obra histórica, A Marinha de Outrora, do visconde de Ouro Preto. Afinal, já perdera a atualidade o tema do livro, que resultou da cobertura jornalística da guerra de Canudos, no nordeste da Bahia, feita para O Estado de S. Paulo de agosto a outubro de 1897.

Cinco anos tinham se passado desde que as forças da 4ª expedição, comandadas pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães, tomaram o povoado em 5 de outubro de 1897, trucidando os prisioneiros e queimando seus casebres e igrejas com tochas de querosene e bombas de dinamite. Tanto que O Estado, dirigido por Júlio Mesquita, que o convidara para cobrir o conflito, não mostrou interesse em editar a obra, e o Jornal do Commercio, do Rio, pertencente a José Carlos Rodrigues, também recusou sua publicação.

Tampouco era novidade a denúncia da chacina cometida pelas forças armadas em Canudos, segundo um dos objetivos propostos por Euclides logo na “Nota Preliminar” de Os Sertões: “Aquela campanha (…) foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”. O massacre fora criticado com veemência, logo após o término do conflito, pelo monarquista Afonso Arinos, no jornal O Comércio de São Paulo, que divulgou também um relatório sobre os abusos cometidos contra mulheres e crianças, redigido pelo estudante de medicina Lélis Piedade, do Comitê Patriótico da Bahia, criado para dar assistência às vítimas da guerra.

Três livros de 1899 também acusaram o Exército pela degola dos prisioneiros: Descrição de uma Viagem a Canudos, de Alvim Martins Horcades, outro estudante de medicina que participara da guerra como voluntário; Libelo Republicano, lançado, sob o pseudônimo de Wolsey, pelo deputado baiano César Zama; e o romance-reportagem O Rei dos Jagunços, de Manuel Benício, que cobrira a guerra como correspondente do Jornal do Commercio, do Rio.

No final do ano de 1902, a opinião pública parecia já ter esquecido Canudos e seu líder, Antônio Conselheiro (1830-97), para se voltar para outro conselheiro, o político e fazendeiro paulista Francisco de Paula Rodrigues Alves, que acabara de assumir a Presidência da República no dia 15 de novembro, duas semanas antes do lançamento do livro de Euclides. Republicano de última hora, Rodrigues Alves logo nomeou prefeito da capital federal o engenheiro Francisco Pereira Passos, com a missão de remodelar e higienizar -junto com o médico sanitarista Oswaldo Cruz, diretor-geral da Saúde Pública- a cidade do Rio de Janeiro e convertê-la em vitrine da “Belle Époque tropical”, segundo a expressão do historiador norte-americano Jeffrey Needell.

Com 637 páginas em formato in-oitavo, Os Sertões trazia estampado na folha de rosto o emblema da Casa Laemmert, na rua do Ouvidor, no Rio. Nesse emblema, as iniciais CL servem de apoio a um livro aberto, sobre o qual se senta uma coruja, símbolo da sabedoria, circundada pela divisa em latim: Nulla dies sine linea, nenhum dia sem linha (escrita ou lida). A narrativa da guerra de Canudos, precedida de um estudo da natureza e do homem do sertão, vinha ilustrada por desenhos de paisagens e mapas geológicos, botânicos e geográficos, inspirados nas viagens de exploração científica, e por fotografias do conflito tiradas por Flávio de Barros.

Euclides pagara do próprio bolso metade dos custos da edição, tendo contribuído com a quantia de um conto e 500 mil-réis, quase o dobro de seu salário como engenheiro da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo. Isso depois de ter levado, em dezembro de 1901, ao jurista e escritor Lúcio de Mendonça a carta de um engenheiro da Escola Politécnica de São Paulo, Garcia Redondo, que recomendava o livro, e de ter sido apoiado pelo influente crítico José Veríssimo.

Mas, embora quase tudo conspirasse contra seu êxito, Os Sertões se tornou um dos maiores sucessos de público e de crítica do Brasil, com mais de 50 edições em língua portuguesa e traduções em pelo menos nove línguas. Em 1994, em pesquisa feita com 15 intelectuais pelo jornalista Rinaldo Gama, da revista Veja, o livro foi apontado como o mais importante da cultura brasileira. A obra de Euclides recebeu um total de 15 votos, seguida de Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre, com 14, e Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, com 11. Machado de Assis foi, porém, o escritor mais votado, e o único a figurar na lista com duas obras: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1899).

Os Sertões teve três edições em apenas três anos, de 1902 a 1905. A primeira se esgotou em pouco mais de dois meses e rendeu a Euclides um saldo de dois contos e 200 mil-réis, do qual resultou um lucro de 700 mil-réis, depois de descontado o seu aporte para a publicação. Mas, como escreveu ao pai em 25 de fevereiro de 1903, o que lhe importava era o “lucro de ordem moral”, resultante do reconhecimento que obtivera, pois todos o tinham elogiado, até o visconde de Ouro Preto, último chefe de gabinete da Monarquia.

A narrativa que Euclides faz da guerra de Canudos inspirou diversos romances europeus e latino-americanos, como Le Mage du Sertão (O Mago do Sertão, 1952), do francês Lucien Marchal; João Abade (1958), de João Felício dos Santos; Capitão Jagunço (1959), de Paulo Dantas; Veredicto em Canudos (1970), do húngaro Sándor Márai; La Guerra del Fin del Mundo (1981), do peruano Mario Vargas Llosa; A Casca da Serpente (1989), de José J. Veiga; As Meninas do Belo Monte (1993), de Júlio José Chiavenato; e Canudos (1997), de Ayrton Marcondes. Serviu ainda de base para um dos mais belos filmes de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), e para um sofrível longa-metragem histórico de Sérgio Rezende, A Guerra de Canudos (1997).

Como explicar tal sucesso de um livro de grandes proporções sobre um assunto macabro, cujos potenciais leitores se voltavam para a nova era de progresso, anunciada pelo quadriênio presidencial havia pouco inaugurado? Por que Os Sertões se tornou um êxito comercial e literário capaz de surpreender tanto seu autor, que gastara cinco anos de trabalho em sua redação e revisão e quase dois meses de salário em sua impressão, quanto o próprio editor, até então certo de que grossas obras históricas sempre davam prejuízo? E como entender a morte do escritor, crítico da violência da guerra de Canudos e dos instintos primitivos capazes de levar o homem à vingança, abatido em tiroteio com o amante de sua mulher? Este livro procura responder a tais perguntas.

Roberto Ventura

1 - O título de conselheiro era atribuído àqueles que guiavam os fiéis em orações e davam instruções religiosas. Tal epíteto se pregou ao nome de Antônio Vicente Mendes Maciel, o líder de Canudos, a ponto de ser confundido com seu sobrenome. Designava também o título honorífico concedido no Império aos políticos de maior renome, que costumavam usufruir de assento vitalício no Senado.


2 - Jeffrey Needell, A Tropical Belle Époque: Elite Culture and Society in Turn-of-the-Century Rio de Janeiro. Cambridge: Cambridge University Press, 1987. Ed. brasileira: Belle Époque Tropical: Sociedade e Cultura de Elite no Rio de Janeiro na Virada do Século. Trad. Celso Nogueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.


3 - Walnice Nogueira Galvão e Oswaldo Galotti (orgs.), Correspondência de Euclides da Cunha (1890-1909). São Paulo: Edusp, 1997; pág. 150. As referências às cartas de Euclides serão feitas com base nessa edição.

 
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