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dossiê
ROBERTO VENTURA

Os olhos fechados do biógrafo
Por Rinaldo Gama

“Foi a melhor Semana da minha vida”, disse Roberto Ventura, professor de Teoria Literária da Universidade de São Paulo, ao se despedir, em São José do Rio Pardo, por volta das 18h do dia 13 de agosto, de Álvaro Ribeiro de Oliveira Netto, diretor da Casa de Cultura Euclides da Cunha. Referia-se à Semana Euclidiana, tradicional evento daquela cidade, da qual participara mais uma vez na condição de estudioso e biógrafo in progress do autor de Os Sertões.

2002, que marca o centenário da publicação da obra máxima de Euclides, poderia ter sido também o melhor ano de sua vida. Embora solicitado à exaustão -para escrever textos, proferir conferências, participar de debates-, Ventura estava empenhado em colocar, antes de dezembro, o ponto final em sua aguardada biografia de Euclides da Cunha. Isso seria não apenas uma vitória pessoal, mas da própria cultura brasileira. Explique-se. As mais ambiciosas tentativas no gênero, como as de Olímpio de Souza Andrade e Luiz Vianna Filho, ficaram pelo caminho com a morte de seus protagonistas.

Roberto Ventura, 45 anos, foi a São José do Rio Pardo naquela terça-feira levado pelo seu projeto maior -queria retirar documentos e fazer algumas reproduções fotográficas na Casa de Cultura. Na véspera, depois de dar sua primeira e -não poderia saber- última aula num curso na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tomou o rumo de São José.

Na tarde da terça esteve em debates da Semana; no início da noite, despediu-se do diretor da Casa, mas permaneceu ainda por cerca de cinco horas na cidade -só saiu de lá perto das 23h, após jantar com amigos, explicando que regressaria naquele avançado horário a São Paulo, onde morava, porque agendara compromisso para as 10 da manhã do dia seguinte.

Havia sido a melhor Semana de sua vida. Poderia ser o melhor ano de sua vida. Mas tinha uma carreta no meio do caminho.

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Uma das primeiras decisões tomadas em relação ao número dos Cadernos de Literatura Brasileira -publicação semestral do Instituto Moreira Salles- dedicado a Euclides da Cunha foi deixar a cargo de Ventura a seção "Memória Seletiva", que consiste numa cronologia do autor homenageado.

O biógrafo reagiu ao convite manifestando, antes de tudo, uma profunda alegria e um indisfarçável orgulho, que se traduzia no esforço em evidenciar que considerava a tarefa da maior responsabilidade. Isso porque desde o início lhe foi dito que sua liberdade seria completa -que escrevesse quanto e o que quisesse; que ilustrasse o texto com o que fosse preciso; que contasse com a estrutura do IMS para o que se fizesse necessário.

Corria fevereiro, o prazo de entrega era fins de abril, inícios de maio; no decorrer do processo, ficou para junho. Nos meses que separaram o convite até o fecho da versão da “Memória” que integrará a edição dos Cadernos, a ser lançada no final de novembro próximo, os contatos entre Roberto Ventura e o Instituto Moreira Salles se amiudaram de tal forma que, nos últimos tempos, nunca eram menos de três por semana.

Cronologia pronta, veio à tona uma das características mais acentuadas de Ventura, porque freqüente nas figuras de talento: o perfeccionismo. Talento pressupõe inquietação, insatisfação com aquilo que se produziu, na certeza de que sempre poderia ter saído melhor. Talento é trabalho. Assim, um dia após acatar mudanças sugeridas em seu texto ou defender passagens dele, o biógrafo já telefonava anunciando que mandaria, em seguida, uma nova versão, na qual alterava frases, acrescentava dados, eliminava vírgulas.

A certa altura, ele avisou que passaria uma semana fora, descansando com a mulher, a jornalista Marcia Zoladz, e o filho Tomas. Nesse período, alertava, permaneceria desconectado. Não resistiu muito. Logo as caixas de e-mail do IMS registravam a entrada de mensagens de seu colaborador, preocupado com um tempo verbal, uma incongruência, um erro de digitação que a todos poderia ter escapado.

Num dado momento, Roberto Ventura lembrou-se da MPB e, citando Gilberto Gil, justificou-se: “A perfeição é uma meta, defendida pelo goleiro que joga na seleção”.

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A perfeição como meta, aliada a um esforço incansável para que a vida profissional não sacrificasse a convivência familiar -traço tão bem sublinhado por Silviano Santiago (“Folha de S.Paulo”, “Ilustrada”, 17.08.02, pág. E-5), um dos intelectuais que melhor o conheceram- explicariam o fato de Ventura não ter conseguido terminar a biografia de Euclides? Quem sabe sua rara vocação de pesquisador, sempre pronto a descobrir mais um documento, uma informação, uma fotografia inédita?

Parece inútil buscar explicações quando se está diante da fatalidade, do retorno do homem à sua condição absurda, aquilo para o qual nem 100 anos de leituras, ciências ou orações preparam a contento qualquer um de nós. O biógrafo, estima-se, tinha prontas algo como 150 de planejadas 600 páginas. Esta seria a realidade.

Para que ela não se torne insuportável, todos os que eram próximos a Roberto Ventura precisariam agora tentar descobrir alguma forma de fechar o livro -seria isto possível?-, evitando que dez anos de dedicação do estudioso se destrocem na traseira de um caminhão -como ocorreu com o Passat que ele dirigia, por volta das 2h da quarta-feira, 14 de agosto, na altura do quilômetro 186 da Rodovia Adhemar de Barros.

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A morte de Ventura chegou ao Instituto Moreira Salles na manhã daquele mesmo dia, em curtas espirais metálicas. Do apartamento onde ele residia, no bairro de Perdizes, veio, às 10h, a ligação para a sede da diretoria da instituição, que fica na avenida Paulista.

A princípio, imaginou-se que era o retorno do telefonema feito na véspera, com o propósito de ouvir a opinião do biógrafo a respeito de uma encomenda de vinhetas para os Cadernos, a ser feita para um artista de cordel. (A colaboração de Roberto Ventura com a revista do IMS cedo revelou-se muito além do texto e da pesquisa de imagens para a “Memória Seletiva”; ele sentia-se inteiramente dentro do projeto, tanto quanto os próprios responsáveis pela publicação -que, do mesmo modo, assim passaram a considerá-lo.)

A ligação de terça-feira: Ventura não estava, claro, a Semana Euclidiana, ligará na volta, como sempre. Saber no dia seguinte que, não, ele não telefonaria na volta, nunca mais, obnubilou os olhos, destroçou a quarta-feira, espremeu o entusiasmo de todos os que lidavam com o biógrafo e haviam aprendido a admirá-lo.

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Como tem sido assinalado em diversos artigos, a morte de Roberto Ventura está cercada de coincidências. Não se trata de ser supersticioso -e sim de constatar fatos que se ligam a outros fatos.

Alguns, de certa maneira, já apareceram aqui. Como outros importantes intelectuais que se dedicaram à vida de Euclides, Ventura morreu sem conseguir terminar sua obra mais importante a respeito do escritor fluminense. Seu desaparecimento ocorreu durante a Semana Euclidiana, algo que se passou também com o médico paulista Oswaldo Galotti, justamente um dos mentores daquele evento e, talvez, seu maior entusiasta.

Galotti morreu a 13 de agosto de 2001, um ano e um dia antes do biógrafo. Este, por sua vez, encontrou a morte na véspera da data em que o próprio Euclides da Cunha tombou atravessado pelas balas do revólver de Dilermando de Assis, o amante, como se sabe, de sua mulher, Ana (a “Tragédia da Piedade”, como ficou conhecido o episódio, recorde-se, ocorreu a 15 de agosto de 1909).

Roberto Ventura não era alheio ao que se costuma chamar de “maldição euclidiana” -embora procurasse, muitas vezes, diluir os elementos supersticiosos que, freqüentemente, cercam a figura do autor de Os Sertões. Ao saber, por exemplo, que a edição dos Cadernos sobre Euclides teria numeração dupla -13 e 14-, comentou que isso evitaria marcá-la com o “número do azar”. Ele também não desprezava o fato de que o próprio escritor, ao constatar que era o 13º candidato de um concurso para a cadeira de lógica do Ginásio Nacional, antigo Colégio Pedro II, considerou isso "mau augúrio”. Tampouco que, designado para o posto -embora houvesse tirado o segundo lugar no tal concurso, vencido pelo filósofo cearense Farias Brito-, Euclides tenha dado sua última aula no dia 13 de agosto, uma sexta-feira. Ora, o biógrafo deu sua última aula no dia 12 de agosto e fez aquelas que seriam as derradeiras intervenções intelectuais de sua vida no dia 13.

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Sem qualquer traço da vaidade que tantas vezes acomete intelectuais de seu porte, Roberto Ventura havia conquistado uma unanimidade incomum, seja nos meios universitários, seja nos euclidianos. Sua concepção da atividade intelectual passava longe das disputas. Um de seus maiores prazeres nesse campo era poder discutir com os pares um trabalho que tivesse produzido -só para depois ter a felicidade de agradecer-lhes a colaboração.

O autor deste artigo não pôde atender ao pedido de Ventura para que comentasse Folha Explica Os sertões, o último livro que escreveu, a sair no início de novembro. Mal houve tempo para sugerir que ele citasse, nas indicações bibliográficas, seu próprio texto preparado para os Cadernos. Sim: sem qualquer traço da vaidade que tantas vezes acomete intelectuais de seu porte, o biógrafo ia deixando de fora de sua última obra aquele que fora seu derradeiro trabalho voltado para a vida de Euclides da Cunha.

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A que velocidade seguia o Passat de Roberto Ventura naquela madrugada? (Consta que ele era veloz ao dirigir.) Como estava a visibilidade naquele trecho que, conforme foi noticiado, provocou seis acidentes com vítimas fatais nos sete primeiros meses do ano? Ventura pensava em Euclides, na família, em chegar logo? Na última aula, na próxima, na Casa de Cultura? Nos debates da tarde de terça, na biografia por terminar, no jantar com os amigos? A velocidade, a estrada escura, o cansaço por tantas viagens feitas nos últimos três dias, os últimos dias, o último dia, será que dormiu ao volante? Fechou os olhos, o peso sobre o acelerador, ouviu um estrondo? No meio do caminho tinha uma carreta. O biógrafo fechou os olhos, terá adormecido? Ouviu um estrondo? Fechou os olhos? Abriu-os para a morte? Tinha uma carreta no meio do caminho, um compromisso no dia seguinte, Roberto Ventura fechou os olhos? Abriu-os dentro da morte? Lembrou de Euclides? A velocidade, no meio do caminho tinha uma carreta, era o ano de sua vida? Recitou Os Sertões? Temeu o mês de agosto? Pensou na Semana? “Foi a melhor Semana da minha vida”.

Para quem ficou, foi a pior semana.

Rinaldo Gama
É editor-executivo dos "Cadernos de Literatura Brasileira", publicação do Instituto Moreira Salles, onde exerce as funções de coordenador superintendente. É mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e autor de "O Guardador de Signos: Caeiro em Pessoa" (Perspectiva/IMS, ensaio).

 
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