1
dossiê
Roberto Ventura

Duas trincheiras e uma mesma batalha
Por Nelson Ascher

Alguns episódios redondos, completos, auto-suficientes, e outros tantos entremeados em episódios maiores, mais populosos. Isso é o que me vem à mente quando, diante da brutalidade metafísica (mas é ela que, por mais que batamos três vezes na madeira, sitia a condição humana) de um final imposto pelo acaso inexplicável (porque nenhuma explicação é / pode ser humanamente satisfatória), procuro extricar do emaranhado das lembranças algo que narre, conte, ou melhor, testemunhe uma vida, que era a de Roberto Ventura, mas era também parte, agora amputada, de muitas vidas, por exemplo, da minha.

Crianças de ambos os sexos não existem por si só, isoladamente: elas participam de um caldo de cultura, ou da mistura de vários: a família, a classe, a turma. Chega então um momento quando cada qual se descobre dotada não apenas de limites que a circunscrevem violentamente, como de singularidades tão aberrantes que a tornam escandalosamente distinta de todo o resto da humanidade.

Leva tempo até que descubra que todos ao seu redor, que pareciam pertencer a planetas distantes ou mesmo a universos paralelos, são pelo menos tão aberrantes quanto ela, ou seja, semelhantes.

No entretempo, pelo menos entre os rapazes (creio que seja de algum modo diferente entre as moças), uma força centrípeta (o espírito não da colméia, mas sim da matilha) leva-os a unirem forças contra um mundo aparentemente hostil.

É nessas circunstâncias que uma coleção de medos coagula-se numa ousadia não raro produtiva. Por razões que não vale a pena esmiuçar (algo que, aliás, já foi soberbamente feito seja pelo Joyce de “O Retrato do Artista Quando Jovem”, seja pelo Thomas Mann dos primeiros contos), esse processo acaba se mostrando particularmente intenso para aqueles que, enquanto vocação ou trabalho, escolhem a (ou são, mais propriamente, escolhidos pela) escrita.

Tão definidora pode ser essa fase da vida, que homens adultos, mesmo quando não tenham compartilhado adolescência e juventude, se passaram por tais experiências, reconhecem-se uns aos outros tão facilmente como, pelo menos nos romances e filmes, dois veteranos que, embora em regimentos diferentes ou, quem sabe, até em trincheiras opostas, participaram da mesma batalha.

Não é preciso, eu espero, adaptar as observações acima à primeira do singular para que se saiba a que me refiro. Basta dizer que, certa feita, quando, voltando de alguma fazenda onde havia cavalgado, Roberto Ventura mencionou-me de passagem a surpresa que causara aos outros o fato de que ele, um intelectual, sabia montar, eu entendi perfeitamente do que é que falava.

Tanto ele quanto eu (ou, em circunstâncias mais felizes, ambos) poderíamos ter sem dificuldade alguma escrito um conto ou ensaio sobre o tema. Só que não era necessário. A graça consistia justamente no fato de que o relato já existia, por um lado, nas páginas de Joyce e Mann, e, por outro, em nossas respectivas e convergentes, trajetórias individuais.

Esse reconhecimento mútuo, instantâneo de um passado semelhante e, de certa forma comum, torna-se tão mais significativo quando me ocorre que, do ponto de vista solitário em que, mais do que a idade adulta dos outros mortais, a atividade de escrever isola seus praticantes, nosso prazer coincidente era o de observar o filho dele e meu enteado (que, sem saber da amizade dos pais, haviam se tornado colegas de classe e, logo, amigos) chegando à idade em que teriam o privilégio talvez duvidoso de sentir na carne nossas próprias experiências.

Se há algo que lamento mais do que o amigo perdido e a obra interrompida é que não lhe tenha sido concedido o tempo de desfrutar desse prazer (conhecido, parece-me, somente pelos homens) que é, revivendo a própria adolescência e primeira juventude na de um filho, tentar corrigi-la com conselhos aos quais este não daria mesmo ouvidos mas que, num futuro alternativo, melhor, fariam todo sentido.

Nelson Ascher
É poeta e ensaísta, autor de "O Sonho da Razão", "Algo de Sol" e "Pomos da Discórdia" (Ed. 34).

 
1