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entrevista
ÁFRICA

Mia Couto e o exercício da humildade
Por Marilene Felinto

O principal escritor moçambicano diz que
é mais velho do que o seu próprio país

Mia Couto, ou António Emílio Leite Couto, 47, uma das vozes mais originais da literatura de expressão portuguesa contemporânea, é também biólogo formado. Moçambicano de nascimento, filho de portugueses, vive em Maputo.

Militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) desde a sua fundação, com a qual lutou pela Independência contra Portugal e trabalhou durante o período da guerra civil, ele se diz hoje afastado da militância e saudoso da época em que a ex-marxista Frelimo, liderada por Samora Machel, "um homem a quem nós endeusávamos", cantava nas reuniões e congressos.

Em seu escritório de em Maputo, Mia falou sobre o exercício de humildade que é fazer literatura de ficção num país pobre como Moçambique e da influência da literatura brasileira sobre sua obra. "Aqui, o nascimento de uma literatura nacional é contemporâneo do nascimento da própria nacionalidade. Eu sou mais velho que o meu país. É uma circunstância histórica realmente singular."

Couto é autor de, entre outros, "Cada Homem é Uma Raça" (Ed. Nova Fronteira, 1990) e "A Varanda do Frangipani" (1996).

Por que você tem tantas profissões? Medicina, por exemplo, você estudou quantos anos?

Mia Couto: Medicina eu fiz até o segundo ano; estudei três anos, repeti o segundo ano e repetiria infinitamente o segundo ano. Eu tenho tantas profissões porque não quero ter nenhuma. É uma estratégia de não ser coisa nenhuma. Porque a partir do momento que eu me entendo a mim mesmo como sendo biólogo ou sendo escritor ou sendo jornalista ou sendo outra coisa qualquer, eu acho que fecho algumas janelas para o mundo e passo a ter uma relação que depois se encaminha sempre por aí, e eu não quero. Acho que é um empobrecimento.

É evidente que eu posso fazer isso por uma felicidade conjuntural. Não mereço isso, mas posso fazer isso. Estou vivendo a um certo tempo num certo lugar. Sobre a segunda pergunta, eu tinha uma grande paixão. Era escrever. Desde menino que eu tenho essa idéia que uma parte da minha alma só se revela na escrita. Então, eu tinha uma certa idéia de que poderia ser psiquiatra. Esse era o meu desejo.

Ia para a medicina para ser psiquiatra, mas depois apercebi-me de que a imagem que eu tinha de psiquiatria era muito romantizada. E aquilo que eu depois fui visitar era um mundo horrível, um mundo de prisão, e houve um grande desencantamento com isso. Segundo, eu era já membro da Frelimo, já era militante da causa da independência e isso para mim era muito mais empolgante.

Eu vivia isso muito mais do que qualquer outra coisa. Portanto, quando chegou o momento da pré-independência, 1974, um período de transição, a Frelimo pediu-me para que eu, como se dizia na altura, me infiltrasse. Havia uma campanha de infiltração nos órgãos de informação, que estavam nas mãos dos portugueses. E eu fui destacado para essa tarefa. Gostei muito de fazer isso, porque tinha idéia de que estava fazendo qualquer coisa ética, em nome do país.

Como acontecia essa infiltração?

Couto: Os quadros que a Frelimo pensava que podiam contrariar esse domínio que os portugueses ainda tinham, que era o período de transição, era importante, e eu acho que isso de fato, no conjunto, essa campanha de infiltração, como foi chamada, foi importante porque ajudou a criar consciência e a contrariar aquela visão que ainda era dominante de que Moçambique não só não tinha o direito como seria um grande desastre se este país chegasse à independência.

Mas o que você fez exatamente para se infiltrar?

Couto: Eu pedi um emprego. Estava no banco dos desempregados lá no jornal e fui escolhido entre vários candidatos. Pedi emprego para a direção de um jornal chamado “A Tribuna”. O termo “infiltrar” era usado naquela altura para significar algo como uma pequena formiga corroendo, subvertendo um edifício que estava completamente criado para fazer uma certa coisa. Então nós havíamos de contrariar esse domínio. Mas não foi uma coisa heróica porque a direção desse jornal era simpática à causa. Então eu não corri grandes riscos com isso.

Mesmo tão envolvido com uma causa política, você encontrou uma dicção muito original e não panfletária para sua literatura. Como conseguiu?

Couto: Acho que não separei as duas coisas. Não havia sequer essa preocupação em nós. O nascimento de uma literatura nacional é contemporâneo do nascimento da própria nacionalidade. A maior parte dos escritores moçambicanos foram em algum momento jornalistas na sua vida.

Eles são ou correspondem a um seguimento desse país que faz fronteira com a modernidade, eles são quem está abrindo portas para a modernidade, para o universo da escrita. E isso foi vivido na altura de uma maneira muito empolgante. Nós acreditávamos mesmo que fosse uma ilusão, acreditávamos que estávamos fazendo uma coisa ética, estávamos ajudando a criar uma nação. E isso tinha algum sentido.

Nós acreditávamos nisso porque eu sou mais velho que o meu país. É uma circunstância histórica realmente singular. Eu assisti o parto da própria nação a que pertenço e também fiz poesia panfletária. Confesso que fiz poesia panfletária, e fiz poesia a serviço do país, fiz a letra do hino deste país.

O hino nacional de vocês está mudando exatamente agora, não é?

Couto: É. Está mudando agora. Tem uma história até muito engraçada. Em 1981, 1982, o presidente Samora, que era vivo na altura, pensou que o hino nacional não funcionava. Era um hino muito partidário. Começava por “viva, viva a Frelimo”. E ele tinha já a apreciação de que nem todos os moçambicanos seriam da Frelimo. Então, era preciso um hino que cobrisse os moçambicanos todos.

Ele (Samora) colocou seis poetas e seis músicos numa casa, fechou-nos lá e disse “vocês têm que sair daqui com várias propostas de hinos feitas”. E fomos fechados numa casa aqui na Matola e aquilo era ótimo. Aquilo não era uma prisão, era ótimo porque nós tínhamos comida, numa altura em que não havia comida. E, portanto, guardávamos comida para a nossa família quando nos iam visitar; tínhamos uma piscina na casa, vivíamos ali bem. E quando vinham as sirenes, nós corríamos para trabalhar.

Eles (a Frelimo) vinham nos visitar para ver como era que estava sendo feito. E produzimos meia dúzia de hinos que ficaram ali e nunca mais foram aprovados. Agora, por causa do novo clima político que a partir de 1995 passou a existir, um clima de democracia aberta e multipartidarismo, passou a ser mesmo obrigatório que este país tivesse um outro hino. Pelo menos uma outra letra.

Depois fez-se um concurso aberto e eu fiz parte do júri que acolheu essas propostas, mas eram todas muito fracas. E então alguém se recordou de revisitar aquelas propostas (da época de Samora), e foi uma daquelas que foi escolhida. Então, há razões que ajudam a triar essa idéia de que não é separável a literatura e a militância.

De todo modo, sua prosa de ficção hoje não é literatura de militância.

Couto: Certo. Esse foi um processo de tomada de consciência, por exemplo, que nasceu sempre em rupturas, em pequenos conflitos. Porque hoje eu tenho uma relação com essa militância já afastada, crítica, o que não quer dizer que não tenha essa militância. A dos outros mudou e a minha também, se calhar, mudou. E o primeiro livro de poesia que eu publiquei já foi numa briga, já foi numa zanga. Me irritava muito o fato de que toda poesia que falasse do eu, que falasse da intimidade fosse tida como uma poesia burguesa. e eu escrevi este primeiro livro em 1983, já como que em oposição a isto. Era uma poesia lírica e intimista, que falava do amor.

Teve medo de que a política engolisse o escritor?

Couto: Não, nunca sequer ocorreu-me de pensar nisso, porque enquanto a política foi uma coisa importante na minha vida, era importante porque eu me divertia, porque eu era aquilo. O processo depois de sedimentação, de diferenciação dessas duas áreas ocorreu tão naturalmente que não foi fruto de reflexão não, eu não me sentei a pensar no assunto.

Foi acontecendo e eu fui aprendendo que cada um, cada coisa tinha seu lugar. E também, eu acho que as circunstâncias de Moçambique ajudam muito, porque tu aprendes que ser escritor é uma coisa pequena, que faz muito bem ao ego. Os escritores pensam sempre que são muito importantes, que o mundo depende do que eles estão fazendo.

Aqui tu aprendes que não é tão importante, porque o universo dos que lêem é tão pequeno, o livro circula em áreas tão pequeninas que é uma espécie de aprendizagem de humildade que faz bem. Então tu tens, se queres contatar com outros, se queres ter outras áreas de comunicação, tu não podes depender do livro.

E por isso eu comecei a envolver-me com grupos de teatro, a trabalhar na rádio, na televisão, para ver se aquilo que eu queria dizer podia ter outros canais que não fossem só o livro. Aqui é muito importante que o escritor aprenda a não ser escritor, a deixar de ser escritor. Isso é um aprendizado que eu acho que nos faz muito bem a todos nós.

Você sempre estudou aqui? Nunca saiu? Você se diz muito influenciado pela literatura brasileira. Como foi?

Couto: Estudei aqui, e sempre vivi aqui. Eu acho que quando tomei consciência dessa contaminação pela literatura brasileira, eu já estava “doente”, no sentido bom. Acho que a minha geração e a geração anterior foram muito marcadas pela literatura brasileira. Havia uma certa redescoberta com Graciliano, com Jorge Amado, de que, afinal, a língua pode ser outra coisa.

Há quem esteja trabalhando a língua de outra maneira; e há outras culturas que pegam nesta coisa que é o português para trabalharem de outra forma. E não só. Também as temáticas políticas, no caso particularmente de Jorge Amado, eram coisas que coincidiam com uma época histórica aqui que era preciso pôr em causa. Certo tipo de valores. Então, quando eu começo a escrever, já havia toda esta envolvência, que era mais forte.

O ambiente literário de Moçambique estava muito mais fortemente ligado ao do Brasil do que ao de Portugal. E por uma outra razão também, a censura, que era muito forte em Portugal, aqui, nesse aspecto era mias tênue. Eram vendidos aqui livros que em Portugal eram proibidos. Então, era mais fácil. Tudo, até aquela revista “O Cruzeiro”, lembra? Era uma coisa que tinha aqui uma difusão enorme. Quando chegava aqui “O Cruzeiro”, era uma espécie de janela para um outro mundo que era muito familiar, e nós nos reencontrávamos, mais do que lendo as coisas que vinham de Portugal.

E a influência de Guimarães Rosa?

Couto: Primeiro tenho que falar de Luandino Vieira, o escritor angolano, que é o primeiro contato que eu tenho com alguém que escreve um português que é arrevesado, que está misturado com a terra. E Luandino marcou-me muito. Foi o primeiro sinal da autorização de como eu queria fazer.

Eu sabia que eu queria fazer isso, mas eu precisava de uma credencial do mais velho que disse “esse caminho é abençoado”. E ele confessa que foi autorizado, também ele, por um outro, um tal João Guimarães Rosa que eu não conhecia, porque não chegavam aqui estes livros. Depois da Independência deixaram chegar livros do Brasil e é uma coisa irônica, do ponto de vista histórico.

Houve mais cruzamentos e trocas de livros no tempo colonial e fascista do que depois da Independência. Então, eu tinha este fascínio. Eu tinha que conhecer este João, este tal Rosa. E um amigo meu trouxe as “Terceiras Histórias”. E de fato foi uma paixão. Foi de novo alguém que dizia “isto pode-se fazer literariamente”. Mas, como tu dizes, eu já queria fazer isto, porque já estava contaminado primeiro por este processo que não é literário, é um processo social das pessoas que vêm de outra cultura, pegam o português, renovam aquilo, tornam a coisa plástica e fazem do português o que querem.

É um processo muito livre aqui. As pessoas misturam português e como dizia uma camponesa da Zambézia, “eu falo português corta-mato”, uma prova de atletismo que se faz através do mato, de trilhas. E pronto. Eu não faria isto se não estivesse marcado antes de Guimarães Rosa, antes de Luandino Vieira, se não estivesse marcado por isto que é um processo que não é só lingüístico, não é, nem letrado.

Para sua geração, é como se fosse impossível ter vivido aqui sem se envolver com o movimento pela Independência e com a guerra civil?

 
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