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novo mundo
Artetecnologia

Agosto é marco da arte digital no Brasil
Por Mirna Feitoza



"Parallax", de Simon Biggs/Divulgação

Artistas e teóricos se reuniram em São Paulo para dois grandes eventos, File e Emoção Art.Ficial

Não é necessário ser especialista para cravar o mês de agosto de 2002 como marco da arte digital no Brasil. Foi nessa data que artistas, teóricos, profissionais e estudantes conectados no trinômio arte-ciência-tecnologia se reuniram em São Paulo para participar de dois grandes eventos, o File (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica), organizado por artistas e pesquisadores independentes, e o Emoção Art.ficial, realizado pelo Itaú Cultural.

Com cerca de 200 trabalhos em exibição e 80 artistas participando do simpósio, o File chegou este ano à sua terceira edição, constando no cenário das artes on line como um dos principais eventos da categoria. O prestígio pode ser auferido com uma simples consulta ao ranking do Google, que aponta o festival como o mais acessado na categoria de eventos de arte digital há meses.

Para além do recurso quantitativo, é importante lembrar que o prestígio pode ser medido também qualitativamente. Basta lembrar que a maioria dos artistas estrangeiros, como Simon Biggs, australiano radicado na Inglaterra, cujo trabalho é reverenciado pela crítica internacional, aceitou ter que descolar passagem e hospedagem para se apresentar no File, já que o festival, segundo os organizadores, não tinha como arcar com essas despesas.

“Tiramos dinheiro do próprio bolso para fazer o File. Temos alguns apoios, mas não patrocínio”, afirma o artista e organizador do festival, Ricardo Barreto, que não quis revelar o custo do evento.

Com verba de R$ 1,7 milhão, o Emoção Art.ficial trouxe 39 obras fundamentais produzidas pelos mais importantes laboratórios de arte tecnologia do mundo. Novamente a questão não se esgota em dados quantitativos. O evento do Itaú Cultural trouxe também ao Brasil 62 profissionais, entre artistas, técnicos e teóricos das novas mídias, como o russo radicado nos Estados Unidos Lev Manovich, autor de “The Language of New Media” (2000), obra que se tornou bibliografia obrigatória para todos os investigadores da área e que será publicada em português, em 2003, pelo Itaú.

Com dois eventos desse porte acontecendo simultaneamente, o Brasil tornou-se palco de um episódio inusitado na carente cena nacional da arte-tecnologia: Jeffrey Shaw e Simon Biggs, duas das maiores estrelas presentes apresentaram seus trabalhos no mesmo dia, na mesma hora e na mesma cidade (o primeiro, no Emoção Art.ficial; o segundo, no File).

O fato é relevante não só pelo porte dos artistas envolvidos, mas porque demonstra claramente, a despeito da tensão nos bastidores gerada pela simultaneidade dos dois eventos, que se alguém saiu perdendo algo nessa história foi aquele que deveria ter sido o agente legitimador das ousadas empreitadas: o público de pesquisadores, desenvolvedores e criadores em novas mídias.


Highlights digitais

O assunto rende uma discussão aprofundada sobre políticas culturais e relações institucionais. No que diz respeito, contudo, à análise pontual das obras expostas e colocadas em discussão nos eventos é importante destacar que ambos mostraram a produção de ponta em arte-ciência-tecnologia, proporcionando uma densa reflexão sobre suas potencialidades.

Entre as obras em cartaz no Emoção Art.ficial, “War/Wart” (2002), do espanhol Francesc Abad, é imperdível. Diferentemente das experiências em arte-mídia que revelam mais pirotecnias tecnológicas que conceitos, esse trabalho tematiza as conseqüências sócio-culturais dos regimes políticos totalitários.

Trata-se de uma instalação interativa, em forma de “T” invertido, inspirada no mapa do campo de concentração nazista de Sachsenhausen. Nela o espectador se conecta a imagens e sons que remetem ao nazismo, com direito a ouvir o tango tocado nesse campo de concentração momentos antes das sessões de extermínio em câmaras de gás.

“É uma referência ao conformismo atual, à não-globalização. As novas gerações e as novas linguagens não podem cair em discussões vazias e desgastadas pelo viés politicamente correto”, diz Abad. “War/Wart” permite ouvir vozes de críticos exponenciais da cultura, como Walter Benjamin, Adorno, Hannah Arendt, Habermas... e só por isso já valeria visita.

Outra instalação que não pode passar desapercebida é “Place Ruhr” (2000), do veterano em experimentos da arte com novas mídias, Jeffrey Shaw. O público lida aí com um dos temas centrais da cultura digital: a não-linearidade.

Em uma plataforma giratória, o espectador roda uma imagem projetada em uma grande tela circular e explora a paisagem de 11 localidades de Ruhr, escolhendo por onde ir, sem seguir um roteiro preestabelecido, dialogando criticamente com a experiência cinematográfica, relativizando a narrativa com começo, meio e fim.

Importante também na mostra em cartaz no Itaú Cultural é “Cyborg’s Sex Manual” (2000), do polonês Piotr Wyrzkowski ou Peter Style. É uma animação em 3D de sexo entre ciborgues, que se tornam humanos conforme desenvolvem posições inspiradas em “Kama Sutra”. “Fiz para chamar atenção”, barbariza o artista.

E é provocação, mesmo. Os demais trabalhos de Piotr explicam sua radicalidade irônica. Piotr integra um grupo de tecno-artistas-anarquistas poloneses, chamado C.U.K.T. (Escritório Central da Cultura Técnica), que está interessado nas conexões do comportamento e do corpo humanos com a tecnologia.

O grupo já realizou intervenções em clubes noturnos da Polônia, com suas tecnóperas, partindo da hipótese de que ciborgues já viviam entre humanos. Nas últimas eleições na Polônia, lançou a candidatura de Wiktoria CUKT, “política” digital sem idéias próprias que apenas reproduzia as propostas enviadas por seus eleitores para seu site na internet. A campanha ganhou as ruas, com comitê em praça pública, outdoors, distribuição de panfletos, numa mostra de como a cultura digital pode ser mais real, e mais densos, que a vã tecnoidolatria.

Não se deve pensar, entretanto, que apenas obras que envolvem grandes cifras e investimentos ou ocupam o espaço com volumes são as que norteiam o cenário das artes digitais. Basta conferir a excelente produção exposta no File para desfazer qualquer dúvida.

A maioria dos participantes do festival desenvolve seus projetos em centros de pesquisa ou de forma independente e a maior parte não conta com patrocínio. É o caso de “Narkes”, da jovem artista brasileira Helga Stein, que vem chamando a atenção de críticos e pesquisadores. Trata-se de um auto-retrato digital captado em vídeo, por meio do qual a artista discute a subjetividade e a não-espacialidade na rede.

Com uma webcam popular, Helga captura imagens de seu corpo e depois dá tratamento, frame a frame, aos fragmentos das imagens, manipulando pixels como se fossem grãos de fotografia.

O projeto, em desenvolvimento, faz uma referência direta ao mito de Narciso, mas não se trata de um trabalho de auto-admiração. Em “Narkes”, o corpo videográfico tem movimentos mecanizados, restritos, desprovidos de emoção. “Quero discutir o corpo aprisionado na tela e como o espectador se relaciona com este corpo modulado e desprovido de espacialidade”, diz.

Do formato à alusão ao mito de Narciso, a influência mais forte do trabalho da artista é a fotografia. Desse modo, Lev Manovich parece realmente ter razão, ao dizer que as linguagens das novas mídias não representam um rompimento com o passado e sim um reprocessamento constante dos códigos e sistemas de representação de outras mídias.

O tempo, outro antigo tema da arte, da ciência e da cultura, está representado no File por “n 0 time”, trabalho em parceria dos artistas norte-americanos Victoria Vesna e Josh Nimoy, ambos da Universidade da Califórnia (UCLA), onde ela é renomada professora e ele pesquisador. O trabalho, que evoluiu de uma instalação interativa exibida em galeria, é aparentemente simples: uma tela de descanso de computador conectada em rede.

Só que esse mecanismo simples guarda a complexidade de uma comunidade em rede que elimina as barreiras do tempo e onde os acontecimentos se desenrolam independentemente do tempo biológico e do tempo mecânico do relógio. Há sempre alguém conectado, colocando a comunidade para funcionar, seja nos Estados Unidos, na China, no Brasil.


E isso é arte?

A partir dessa pequena amostragem, é possível já inferir a diversidade de tendências e possibilidades que as criações com mídias digitais possibilitam. Fica, no entanto, aquela velha dúvida: Será que sobreviverão ao tempo, como as madonas medievais, as esculturas renascentistas e as sinfonias de Beethoven?

É difícil saber. Contudo, talvez essa seja uma das questões que menos importa a esses artistas, que enfrentam, como poucos, os limites do efêmero a que as constantes transformações tecnológicas os condenam. Afinal, parecem estar mais interessados em desdenhar das crises e de todos os conceitos do establishment artístico, antecipando questões éticas e estéticas de um futuro que um dia foi distante.

Claudia Gianetti, diretora artística do Mecad (Barcelona, Espanha), que, junto com a Escola Superior de Disseny, está lançando o primeiro curso de pós-graduação em curadoria nessa área, acirra o debate: “Ninguém sabe exatamente como fazer curadoria em arte tecnologia, como exibir esses trabalhos, como montá-los. Há um vazio conceitual muito grande”, diz.

Claudia participou da mesa “Artemídia: definições”, no Emoção Art.ficial, e deu uma boa dica do que seja essa arte: “É fluxo, processo, comunicação. Os trabalhos em arte tecnologia são canais que conectam o corpo numa rede complexa de relações”.

Arlindo Machado, crítico brasileiro e professor da PUC-SP, participante dessa mesma mesa, preocupa-se em desfazer o mito de que esta arte se caracteriza por explorar a tecnologia. “A arte sempre foi construída com os instrumentos mais avançados de seu tempo. O cravo, que imortalizou a música de Bach, era tecnologia de ponta”.

Citando Benjamin, Arlindo disse que o problema não é saber se podemos considerar esses objetos e movimentos como arte. A existência deles já denuncia a crise que está aí. “O que não podemos é julgar esta arte a partir da legitimação da arte antiga.”

Já Manovich, que abriu o evento no Itaú e fez questão de falar no File de graça, define os trabalhos de arte tecnologia como “data art” (arte dos dados) e as mídias empregadas por eles como “metamídias”, uma vez que elas se valem dos códigos e das linguagens das velhas mídias. “A metamídia contém a linguagem como metalinguagem, faz um remix das várias formas de cultura e as novas técnicas dos softwares”, diz.

Embora os dois eventos realizados durante este agosto digital no Brasil tenham partido da hipótese de que os trabalhos são expressões de arte, eles ainda estão longe de serem legitimados como tal e, o mais importante, nada parece apontar a soluções de consenso. Isso, se não acalenta aos mais ansiosos, pode, ao menos, sinalizar: agosto está no fim, porém o debate está agora mais próximo do seu começo.

link-se
http://www.file.org.br
http://www.itaucultural.org.br
http://directory.google.com/Top/Arts/Digital/Events/
http://www.jeffrey-shaw.net
http://hosted.simonbiggs.easynet.co.uk
http://www.manovich.net
http://www.francescabad.com
http://cukt.art.pl
http://www.projecto.com.br/narkes
http://notime.arts.ucla.edu
http://www.mecad.org

Mirna Feitoza
é jornalista e pesquisadora da semiótica das mídias e da cognição. Atualmente investiga a relação da criança com as linguagens eletrônicas, em pesquisa de doutoramento desenvolvida na Comunicação e Semiótica da PUC-SP.

 
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