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IGREJA

Os papas e eu
Por Luiz Henrique Horta

Todo mundo tem uma atriz predileta, mas poderá
um católico ter um pontífice de sua predileção?

Tudo leva a crer que uma sucessão papal se aproxima. Listas de “papabilli” crescem, e as especulações estão aparecendo até mesmo em público. No último ano de seu pontificado, Paulo 6o chamou para dirigir os exercícios espirituais da Quaresma um obscuro cardeal polonês chamado Karol Woytila. E na passada Quaresma de 2002, o mesmo cardeal tornado papa João Paulo 2o chamou para a pregação e direção dos exercícios o arcebispo de São Paulo, dom Claudio Hummes... Será?

De qualquer maneira o papado está ocupando um tempo grande do noticiário e pedindo que pensemos sobre ele.

Todo mundo tem uma atriz predileta ou um compositor, um pintor, até mesmo um santo favorito. Pode um católico ter um papa predileto? Eu tenho e nunca me pareceu necessário pensar as razões. Até que recentemente um amigo me pediu explicações sobre São Jorge, e respondi imediatamente que tinha sido “cassado” da santidade. E a causa, eu supunha, era uma idiossincrasia intelectual do papa Montini (Paulo 6o), capaz de conviver com um santo tremelicante em virtudes, mas não com um outro, sobre o qual pairassem dúvidas a respeito de sua própria realidade.

Como toda resposta de bate-pronto e dada com excesso de certeza, essa também me deixou inseguro, e fui checar para ver se tinha acertado. Acabei examinando a mim mesmo, para saber afinal porque admiro tanto o papa Paulo 6o.

Se os católicos somos súditos dos papas, então passei por quatro reinados até agora. Nasci sob Pio 12, que entretanto não exerceu nenhuma influência sobre mim. Deste modo, cresci mesmo debaixo do Concílio Vaticano 2o e da sombra impressionante de João 23, que morreu em 1963. Mas, se foi ele que começou o rebuliço com o concílio, foi Paulo 6o, seu sucessor, que administrou a profunda reforma conciliar _e que batata quente pegou!

De formação liberal, pai jornalista antifascista, nascido na classe média alta da Lombardia, no norte rico da Itália, Giovanni Montini era em tudo um intelectual, treinadíssimo na burocracia eclesiástica e nas arengas da política italiana. Foi provavelmente o mais aristocrático e refinado dos papas modernos, e daí uma certa frieza, que o próprio site oficial do Vaticano enumera como prejudicial à sua imagem de mídia. Depois do gorducho, generoso e camponês João, ele era a própria cara da erudição douta da igreja.

Eleito papa de modo previsível -coroamento natural de uma carreira adequada na igreja (secretario de papas, bispo, cardeal)-, escolheu um nome que andava em desuso, o de Paulo, aquele mesmo Saulo de Tarso, que tanto fustigou os gentios, depois que lhe caíram as escamas dos olhos, no caminho para Damasco. E, como seu patrono, foi inflexível em questões morais, ficando ainda mais impopular (imaginemos o que foi a encíclica “Humanae Vitae”, que condenava a pílula no turbulento ano de 1968!).

E foi liberal em assuntos políticos, como está na “Populorum Progressio”, em plena Guerra Fria, onde fala sobre desigualdade, colonialismo, desenvolvimento e liberdade de maneira inédita para a igreja, e que certamente mudou bastante a posição apolínea da instituição em questões sociais.

Sem dúvida, essa encíclica, promulgada em 1967, foi a aceitação do mundo moderno pela Igreja Católica. Como conseqüência de tal modernidade, tão custosamente admitida, o papa Paulo foi o primeiro a viajar a todos os continentes, inaugurando fora de Roma o que seria o estilo de João Paulo 2o. Lembremos que ainda existia o trono pontifício, a tríplice coroa e a infalibilidade, e isto teve que conviver com o jato e a televisão.

Normalmente me incomodam os homens do clero que refletem sobre a fé, na linha “Deus, um conceito interessante”. Já somos cercados demais pela racionalidade selvagem, ou pela irracionalidade selvagem, e um pouco de irracionalidade cheia de mansuetude não faz mal algum. Prefiro os sermões monótonos, as pregações inócuas e as fórmulas repetidas como mantras, mais confortáveis e conhecidas. Os doutores da igreja, gente como Agostinho, Tomás de Aquino, Tereza de Ávila e Jerônimo, já pensaram e discutiram a fé de todos os ângulos, íntimos de Deus que são.

Mas Paulo 6o pensava e se angustiava. Atraía neste papa intelectual a dúvida que se punha o tempo todo. Certamente a incerteza não é uma virtude de João Paulo 2o, ninguém mais distante da fraqueza do que ele. Mesmo agora, já claudicante, continua firme e decididamente indo em frente. Paulo hesitava, seu sofrimento era mais sofisticado que o das tentações da carne: era o das tentações da razão sobre o dogma. E tudo culminou no ano de 78.

Em março daquele ano foi seqüestrado Aldo Moro, amigo íntimo do papa, seu colega de universidade e colega político, como dirigente da Democracia Cristã. Também Moro era melancólico, trágico, saturnino. O papa apelou às Brigadas Vermelhas em seu favor, inutilmente. Em maio, Moro aparecia assassinado. Na missa de sétimo dia, rezada pelo próprio papa, assistiu-se a uma quase confrontação entre papa e Deus, uma reclamação, um desabafo revoltado: “Senhor, não nos escutastes!”.

Em agosto, abatido e exausto, morreu. Há boatos de que vinha usando cilício sob as vestes papais, um cinto de tortura, em desesperada auto-flagelação por ter falhado na sua missão. Há até a patética história de que procurara a galeria Wildenstein para vender a “Pietà” e distribuir o dinheiro para o Terceiro Mundo.

Quando o papa Montini nos ofereceu essa face humana de derrota, fraquejou e duvidou, ele se aproximou mais de nós do que qualquer outro, mais até do que João 23 e seu populismo, do que Albino Luciani (João Paulo 1o) e seu sorriso e do que o papa Woytila, no triste espetáculo de sua decadência física irreversível.

E, quanto a São Jorge, não consegui descobrir nada de sua demissão como santo. Foi provavelmente algo que imaginei, simplesmente. Pois se há os santos bondosos e os sublimes e os trágicos e os devassos...

Luiz Henrique Horta
É crítico de cultura, viajante interessado em comida e autor de "O Costume de Viajar".

 
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