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PARAÍSOS ARTIFICIAIS

Miami no Haiti
Por Carlos Alberto Dória

Megaempreendimento na Bahia revela ilusões
do "desenvolvimento turístico sustentável"

Em Massarandupió o cenário é paradisíaco. Daqueles aos quais se chega por uma estradinha de marcas quase imperceptíveis no chão, pontes e pinguelas, como num anúncio de veículos 4 x 4; depois, o riacho de águas claras e silenciosas lambendo as areias, onde nadam pitus e coaxam rãs, ainda a salvo da poluição; as dunas, os coqueiros e, atrás deles, distante, a imensidão do mar aberto. Uma ou outra casa de veraneio a mostrar que sempre descobrimos o paraíso tarde demais.

Um mulato jovem se aproxima a pé, sem camisa, descalço, e ali é muito difícil distinguir se é por pura miséria ou se está em trajes de banho. Me cumprimenta e, sob aquela profusão de placas de uma mesma imobiliária, arrisco perguntar: “Essas terras são as que foram compradas pelos portugueses?”. De um só golpe, me responde como quem recita uma lição na ponta da língua: “Compradas? Não! Foram roubadas!”.

A vilazinha, distante uns três quilômetros da praia, tem no máximo 500 habitantes. Os pescadores não passam de uma dezena. Mulheres tecem bolsas, esteiras, tapetes em palha de coqueiro e, agora, também cachepôs em junco para fornecer aos hotéis.

Por todo lado, mangueiras, coqueiros, cajueiros. Umas poucas galinhas ciscam soltas pela vila. A praça principal está organizada em torno de um campo de futebol sobre a areia. A escola, ao lado da igreja evangélica, possui três professoras “leigas” (sem formação específica), e ouve-se o relato admirado sobre um menino extraordinário que, por querer fazer o curso secundário, anda diariamente 20 km pela praia.

Um belo dia soube-se que aquela imobiliária cujas placas se estendem pelas praias comprara cerca de 3.000 hectares de faixa litorânea. O dono da imobiliária, ex-diretor do Incra, é um testa-de-ferro de um grupo de capitalistas portugueses. Ao menos é o que relatou em claras palavras a imprensa de Salvador, a cerca de 100 km de distância.

O chamado “complexo Costa do Sauípe” é um megaempreendimento turístico, abarcando cinco produtos hoteleiros internacionais (Breezes, Renaissance Sofitel, Sofitel Convention, Sofitel Suítes & Resorts, Marriott) e várias pousadas, além de lojas e restaurantes, que prometem ao turista uma experiência inesquecível de lazer na Costa dos Coqueiros, onde está encravado -faixa litorânea ao norte de Salvador, e que se estende até a fronteira com Sergipe.

Essa região era antes conhecida no circuito turístico apenas pelo pioneiro hotel Praia do Forte e pelo Projeto Tamar, onde a Petrobras e o Ibama montaram um centro de peregrinação ecológica em torno do manejo das tartarugas marinhas.

A Costa do Sauípe ocupa terras em dois municípios de relativa extensão praieira, ambos somando cerca de 30 pequenas localidades como Massarandupió, com populações de variam de pouco mais de 100 pessoas a pouco mais de 3.000. São os municípios de Mata de São João, com 26 mil habitantes, e Entre Rios, com 28 mil. Ambos estiveram, até uma década atrás, isolados dos principais fluxos da economia regional.

Excetuando o breve período entre-guerras da primeira metade do século XX, quando se deu um ciclo curto de produção de borracha, predominou a economia tradicional de subsistência, tanto na agricultura quanto na pesca. A estrada que liga Salvador à fronteira com o Estado de Sergipe foi asfaltada só no início dos anos 90, permitindo uma maior exploração econômica.

No passado mais remoto, eram as terras da famosa “Casa da Torre”, da família Garcia D´Avila e do seu principal forreiro, Domingos Affonso Sertão, conquistadores dos sertões longínquos que se alongavam do médio São Francisco ao Piauí. Foi um dos maiores latifúndios do mundo moderno, com seus 800 mil km2. O Iphan restaura num trabalho paciente as glórias em pedra e cal daquele que foi o símbolo do latifúndio colonial.

Talvez imaginando retomar glórias heráldicas dos Garcia D´Avila, ou blasonar feitos conjugados no passado e no futuro, a região foi definida pelo governo da Bahia como uma das sete micro-regiões vocacionadas como destinos turísticos, às quais se reservaram recursos da ordem de US$ 2,1 bilhões em infra-estrutura, sendo US$ 737 milhões até o final de 2002. As principais rubricas desses gastos gerais são: energia, transportes, aeroportos, saneamento, patrimônio histórico e preservação ambiental. À Costa dos Coqueiros, onde se situa a Costa do Sauípe, estão reservados US$ 164 milhões.

O que se observa em Massarandupió, ou a excelente seleção de queijos chèvre que se pode comer à mesa dos afrancesados hotéis Sofitel, são já conseqüências desses investimentos que um dia o BID, o governo federal e o governo estadual sonharam como redenção da Bahia.

Todos os candidatos a presidência reafirmam o compromisso com o turismo. Não se vive por lá sobressaltos sucessórios. Mas a idéia de que os pobres precisam de formas modernas de redenção não só já plantou na região cerca de 4 mil leitos em hotéis cinco estrelas, com capacidade para receber cerca de 146 mil hóspedes por ano, com também atirou 30 comunidades tradicionais num curso de “progresso” que já permite ver quem ganha e quem perde.

No papel (e na cabeça dos investidores) essa expansão não terá fim tão logo: entre 2000-2005 estão previstos mais 5.000 leitos em hotéis e pousadas em Sergipe, entre a fronteira com a Bahia e Aracaju. Quer dizer: se tudo “der certo”, dentro de alguns anos teremos uma fieira de hotéis, pousadas, restaurantes e condomínios como numa nova Praia Grande (SP), unindo Salvador a Aracaju.

Claro: os planos governamentais apontam no sentido de um turismo sustentável, o que em tese deve suprimir as mazelas daquela ocupação desordenada que se verificou no litoral paulista há décadas atrás. A “sustentabilidade”, crê-se, é a ordem nova do que insiste em ser desordenado, predador, e que estende seus tentáculos sobre a costa brasileira.

Seu Patrício é um velho de mais de 70 anos. O que ele acharia da “sustentabilidade” que hoje bate à sua porta? Em Diogo, vilarejo que mais resiste às modernidades (nem sequer abandonou o catolicismo para trocá-lo pela igreja evangélica) ele é um símbolo do modo de vida que vai ficando para trás. “Eu sempre cacei, pesquei, e tinhas uns gados soltos. Hoje não quero mais nada disso. Caçar é crime, o senhor sabe? Peixe? Não tem mais. As vacas soltas, depois que chegou o asfalto, fogem para a estrada, são atropeladas e a culpa sabe de quem é? Fica sendo minha. Acabei com tudo. Não quero mais.”

Uma certa ironia na sua prosa anima os olhos miúdos que procuram entender os turistas que acham graça em tudo o que fala. Entusiasmado com a audiência, baixa a guarda: “Passa lá em casa, uma hora, pra comer um tatu...”, despede-se provocando o riso dissimulado nos que o ouvem. Tatus esculpidos em madeira podem ser comprados nas barracas de camelôs na entrada do Projeto Tamar, na Praia do Forte, mas comê-los só nos grotões onde se escondem homens que, da noite para o dia, ficaram “ilegais” como Seu Patrício.

Claro. A luz elétrica chegou após décadas de abandono. A Costa do Sauípe levou, acompanhando o asfalto, a energia redentora. Mas não foi fácil fazê-la se estender até Santo Antônio, distante apenas 800 metros pela praia onde franceses, alemães, americanos e paulistas, todos branquelos, são lambidos pelo sol escaldante, quando não estão jogando tênis ou golf sobre o cuidado tapete de grama que, outrora, fora uma vegetação de restinga.

Essa gente, passados dois três dias, se aborrece muito. Não há quem agüente tanto sol. Mas os “pacotes turísticos” são de uma semana. Além disso, onde ir? Tudo fica tão longe... Há tantos perigos imaginados rondando o resort... Em Miami, ao menos, há shopping, essa diversão inigualável de classe média. Mas resort é isso: um paraíso fora do mundo, a pairar sobre as contradições fatigantes do dia a dia.

Bem, mas Santo Antônio parece “tipical”. Pode-se ir a pé pela praia, e é possível também chegar à vila por uma estrada estreita, delimitada por arame farpado estendido sobre as dunas, engenhosamente “pavimentadas” pelos moradores com cascas de coco para não se atolar no areão.

Em Santo Antonio vivem cerca de 150 pessoas, todas aparentadas, que compraram aquelas terras dos ingleses que exploraram a borracha. Poucas casas em linha, diretamente sobre a areia, recebem a brisa do mar. Crianças nuas circulam entre os visitantes exibindo as doenças da pobreza. Barraquinhas já se improvisaram para vender cerveja, água de coco e bolsas tecidas em palha para os visitantes e curiosos. No fundo das casas, nuns “puxadinhos”, os turistas mais humildes, atraídos pela fama do ilustre vizinho, contentam-se com as redes, camas e chuveiros eletrificados há poucos meses.

“A luta foi dura, mas nós vencemos”, diz Seu Tomás. E repete várias vezes: “Nós vencemos. Foi dura. Mas nós vencemos”. Quando a luz chegou naquela altura da estrada de asfalto a companhia elétrica começou a plantar os postes ao lado da servidão de passagem para levá-la a Santo Antônio. O proprietário cujas terras cercam o povoado colocou abaixo os postes. Não queria luz ali, pois seu plano era comprar a vila, expulsar os moradores e fazer também o seu “resort” à semelhança do vizinho.

Foi ao Ibama e obteve uma proibição solidária: a luz na praia atrapalha a reprodução das tartarugas. Não pode! O Ibama sequer recebeu os moradores para ouvir-lhes as contra-razões. Corajosa, a prefeita, com um deputado estadual e outro federal a tiracolo, foi ao Ibama, aos jornais de Salvador, liderando o pequeno rebanho de Santo Antônio; desapropriou uma faixa de terra ao longo da servidão de passagem e, protegida pela polícia, pôde plantar os postes.

Em promessas, a prefeita e os deputados já enfileiraram as futuras conquistas do povo de Santo Antonio: uma escola, uma igreja evangélica e um salão de bailes, se Deus quiser. Através desse kit político, está inaugurado o mais novo curral eleitoral da facção de Antonio Carlos Magalhães na Costa dos Coqueiros. Foi dura a luta e Seu Tomás, claro, acha que venceu.

Vila do Sauípe um dia deve ter sido tão bucólica quanto Santo Antônio, mas fica no sertão, do lado oposto do asfalto, nas margens do rio Sauípe, cercado pela fazenda da construtora do megaempreendimento que foi bancado especialmente com recursos da Fundação Previ.

Na Vila do Sauípe morou boa parte dos mil operários que construíram os hotéis. A sua população dobrou da noite para o dia: de 1.500 pessoas, hoje tem cerca de 3.000. Todas as casas ostentam horríveis grades nas janelas. Construções novas, destoando do padrão arquitetônico das moradias tradicionais, fazem a imagem do “progresso” local: são bares, mercadinhos e mesmo residências de gente que de alguma forma se ligou ao empreendimento Costa do Sauípe, fez um dinheirinho e ficou por ali mesmo.

As grades revelam o medo da população: a violência e o crime desembarcaram com os adventícios. Em voz baixa, moradores segredam que numa determinada casa passaram a morar cerca de 15 ciganos. Nenhum trabalha por ali. É um entra e sai sem igual. Dizem que traficam drogas. Já usaram uns meninos da comunidade como “pombo correio”. Desde final do século XVIII os ciganos são mal vistos no Nordeste. Se estão por ali, alguma devem estar aprontando e, se ainda não aprontaram, certamente aprontarão, como raciocinam os moradores que precisam encontrar uma explicação para a penetração das drogas no meio rural...

Seu Genésio é o herói da Vila do Sauípe. Peitou a situação e conseguiu, na Justiça, o registro em seu nome de 10 hectares, reivindicados pela fazenda da construtora, a grande latifundiária daquelas plagas. Quase ninguém por ali possui RG ou CPF, o que dizer de título de propriedade sobre terras secularmente reconhecidas por todos como suas?

Seu Genésio é também um fino analista: “O pessoal aqui vivia de agricultura e pesca artesanal, só pra subsistência. Isso, os mais velhos, porque os jovens não querem mais isso. Escola é só até a quarta série, e eles ficam procurando uns bicos para fazer, querem carteira assinada. Como não têm emprego, fazem nada. Já o rio não dá mais peixe. Dizem que é porque o hotel joga o esgoto na água. Não dá mais peixe. Então, os mais velhos também não têm muito o que fazer. Tem esses cômodos de aluguel atrás das casas, uns bares e restaurantes e é só”. Do idílico “ócio tropical” ao ócio do desemprego. Entre eles, diferenças substanciais na auto-estima.

Mais ao norte, na vila de Subaúma, existiu outrora uma cooperativa de pescadores. Tinham dois barcos de alto-mar, fábrica de gelo, uns 20 associados. Seu Rivaldo, sentado na cadeira de sua casa, sob a bandeira do Brasil pregada na parede e a foto do filho em traje da marinha brasileira, diz: “Aqui tem muito peixe. Vem barco até de Valença pescar aqui. A gente vende o peixe para Salvador, para as pousadas aqui por perto, mas para a Costa do Sauípe não”.

 
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