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novo mundo
ARTE INTERATIVA

Ciberarte de A a Z
Por Lucia Santaella

Diana Domingues faz panorama da expressão surgida da simbiose homens-máquinas

Agosto de 2002 vai entrar na história da cultura digital brasileira como o mês em que descobrimos a arte tecnológica. Dois eventos simultâneos, o FILE (Festival Internacional das Linguagens Eletrônicas) e o “Emoção Art.ficial”, no Itaú Cultural, mostram, em São Paulo, não só trabalhos criativos de ponta, mas, também, trazem a nata crítica da área para mesas-redondas, simpósios e seminários.

O FILE, que ocupará o Paço das Artes e o Sesc Vila Mariana, de 8 a 20 de agosto, inclui na sua programação lançamento de novos títulos na área. Um deles é “Criação e Interatividade na Ciberarte” (Editora Experimento) de Diana Domingues.

Pioneira no campo das artes interativas, ela é professora da Universidade de Caxias do Sul (RS), de onde pilota com maestria um importante centro de pesquisa em projetos que envolvem ações telepresenciais. Reconhecida internacionalmente, Domingues, que recentemente apresentou seu “Ouroboros” na 25 ª Bienal de São Paulo, diz que o livro investiga “a mentalidade própria da cibercultura e os efeitos das tecnologias interativas na sociedade da era pós-biológica, a fim de traçar a base teórica e a dimensão poética da ciberarte”.

A tarefa árdua do livro mereceu prefácio de uma das mais interessantes críticas de linguagens do Brasil, a professora Lucia Santaella, ensaísta premiada e responsável pela iniciação conceitual de artistas consagrados nas novas mídias como Júlio Plaza, entre outros.

Mais do que um prefácio, Santaella escreveu uma reflexão poética e profunda sobre um tema que todavia carece de discussão, liberando-o dos cacoetes da indústria do “infotainment” que nos roubam o direito de pensar a contemporaneidade.

Trópico publica a seguir o texto de abertura desse livro, que desde já se faz imprescindível a nossos leitores.
(Giselle Beiguelman, editora da seção “Novo Mundo”).


Desde muitos séculos no Ocidente, artista é aquele que viaja para o desconhecido. Não teme a viagem porque, reconhecendo o ponto exato em que os seus predecessores deixaram as linguagens da arte, sabe seguir a direção dos ventos que sopram para o futuro, sabe colher no ar as formas de sensibilidade em gestação, sabe dar corpo ao que ainda não é visível.

Nenhuma arte, nem a do sonho, se faz só com a imaginação. Para ser arte, a imaginação deve se encarnar, deve se conformar à carne da matéria e do tempo. Dessa união paradoxal entre a imaginação, que não se submete ao tempo, e a matéria, que sofre suas contingências e constrangimentos, nasce a arte.

A arte deve ser tão eterna quanto eterno for o ser humano, mas os meios de que o artista dispõe são históricos. Por isso, embora sejam históricas, as artes não envelhecem. São datadas, mas resistem ao desgaste do tempo. Cada período da história é marcado pelos meios que lhe são próprios. A cerâmica e a escultura no mundo grego, a tinta a óleo no Renascimento, a fotografia no século 19... Um dos desafios do artista é dar corpo novo para manter acesa a chama dos meios e das linguagens que lhe foram legados pelo passado. Por isso mesmo, é sempre possível continuar a fazer escultura, pintura a óleo, fotografia, reinventando essa continuidade. Aliás, na nossa era pós-moderna, todas as artes se confraternizam: desenho, pintura, escultura, fotografia, vídeo, instalação e todos os seus híbridos. O artista pode dar a qualquer um desses meios datados uma versão contemporânea. Mas cada fase da história tem seus próprios meios de produção da arte. Vem daí o outro desafio do artista que é o de enfrentar a resistência ainda bruta dos materiais e meios do seu próprio tempo, para encontrar a linguagem que lhes é própria, reinaugurando as linguagens da arte.

Os meios do nosso tempo, neste início do terceiro milênio, estão nas tecnologias digitais, nas memórias eletrônicas, nas hibridizações dos eco-sistemas com os tecno-sistemas e nas absorções inextricáveis das pesquisas científicas pela criação artística, tudo isso abrindo ao artista horizontes inéditos para a exploração de novos territórios da sensorialidade e sensibilidade. São muitos os artistas no mundo que, farejando o futuro nas potencialidades ofertadas pelo presente, têm tomado os meios que nos são contemporâneos como tubos de ensaio para deles extrair suas propriedades sensíveis e renovar os repertórios da arte.

Que arte é essa? Quais são os tipos de ação e produção específicos desses artistas? Que mutações estão sendo por eles processadas nos nossos mecanismos perceptivos e cognitivos, nos recônditos de nossa alma sensível? De que maneiras esses artistas estão levando à frente o projeto humano de educação dos sentidos humanos?

Sempre realizada, de uma forma ou de outra, em ambientes digitais, é uma arte que inclui a gráfica e a música computadorizadas, os fluxos interativos e alineares da hipermídia em CD-Roms e sites. Inclui também os sites colaborativos, os sistemas de multiagentes para a execução de tarefas, a incorporação de avatares dos quais emprestamos as identidades para transitar pelas redes. Inclui ainda a telepresença e a tele-robótica que nos permitem visualizar e mesmo agir em ambientes remotos. Inclui, por fim, a vida artificial, a realidade virtual e as ciberinstalações.

Os artistas vão até o limite da conjugação de sua criação com softwares complexos de alta performance, nas interfaces da máquina com o corpo, permitindo o diálogo entre o biológico e os sistemas artificiais em ambientes virtuais nos quais os dispositivos maquínicos, câmeras e sensores, capturam sinais emitidos pelo corpo para processá-los e devolvê-los transmutados. Longe de se apropriar dos dispositivos tecnológicos como simples meios ou mesmo como prolongamentos sensoriais, os artistas levam às últimas conseqüências seu caráter de próteses corpóreas e mentais expansivas, capazes de ampliar nosso sistema nervoso, sensório e cognitivo.

Nasce daí uma arte para ser vivida em tempo real por sujeitos-agentes que recebem e, no ato, transformam o que foi proposto pelo artista, ao provocar eventos disponibilizados pelas possibilidades que os ambientes simulados abrem para situações emergentes, comutativas, em constante devir, fluxo e metamorfose.

Para aqueles que têm sua curiosidade despertada para todas essas questões e que se inquietam com elas, este livro de Diana Domingues é, por enquanto, definitivo. A autora nos apresenta um impressionante panorama descritivo e reflexivo, ao mesmo tempo abrangente e detalhado, do estado da arte nacional e internacional em seus meandros mais sutis disso que vem recebendo o nome de ciberarte, a arte emergente que está brotando das simbioses do humano com as máquinas, dos sistemas híbridos e complexos que estão coreografando as interfaces e conectividades indissolúveis do natural com o artificial. Das novas formas de perceber, conhecer e sentir expandidas pelas tecnologias, que o artista faz gerar dessa simbiose, nascem as variadas poéticas das redes, das ciberinstalações, dos ambientes imersivos em realidade virtual, tudo isso convergindo para a estética da interatividade, da incorporação e da imersão, palavras chaves da arte que está buscando tornar visível a antropomorfia que é própria do nosso tempo.

Poucos, no momento atual, poderiam estar mais gabaritados do que Diana Domingues para nos presentear com uma obra de tal porte. A autora é artista ela mesma, uma artista cuja trajetória, há muitos anos, vem seguindo pari passu, e, algumas vezes, até mesmo antecipando as tendências inovadoras das estéticas tecnológicas em plano internacional. Seu conhecimento do campo não é tomado de empréstimo, mas conhecimento vivido tanto através do convívio com artistas e críticos de vários pontos do planeta que compactuam nas buscas similares às suas, quanto pela intimidade que é própria daqueles que não apenas falam sobre as coisas, mas efetivamente fazem aquilo sobre o que falam.

A complementaridade entre este livro e a obra artística de Diana Domingues é, de fato, admirável. As fabricações da arte com recursos tecnológicos e sistemas complexos vêm acompanhando a sua agenda há anos. Ezra Pound dizia: "Se quiser saber alguma coisa de poesia, pergunte a um poeta". Neste caso, cabe com justeza uma paráfrase de Pound: "Se quiser saber alguma coisa de ciberarte, pergunte a quem está com as mãos, os nervos e o cérebro postos na ação de realizá-la. Diana Domingues está entre as mais aptas para nos oferecer respostas".


O livro

“Criação e Interatividade em Ciberarte”, de Diana Domingues. Editora Experimento, 2002.

link-se
FILE http://www.file.org.br
Emoção Art.ficial http://www.itaucultural.org.br
Diana Domingues, Ouroboros - http://artecno.ucs.br/ouroboros

Lucia Santaella
É ensaísta e professora titular da PUC-SP, onde leciona no Departamento de Comunicação e Semiótica. É autora de “Matrizes da Linguagem e do Pensamento” (Iluminuras, 2001), ganhador do prêmio Jabuti de 2001, entre outros.

 
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