1
dossiê
ARTE CONCRETA

Waldemar Cordeiro, ou o artista na era da pluralidade
Por A.M.



"O Beijo", de Waldemar Cordeiro (1967, col. MAC USP)

Concreto sim, especialmente nos anos 1950, porém sem abdicar da pluralidade jamais. O artista plástico, intelectual e cientista amador Waldemar Cordeiro (1925-1973) -protagonista de uma das mostras da série “Arte Concreta Paulista”, em São Paulo- é referência central no concretismo paulista, tendo liderado o manifesto do Grupo Ruptura, em 52, à frente de outros seis artistas.

Porém, para muito além da pintura, sua curiosidade irresistível por novas aquisições do saber levaram-no a traçar paralelos e alianças inéditas entre ciências humanas e ciências exatas, em trabalhos norteados, por sua vez, por engajamento apaixonado na questão social, via ideário gramsciano.

A pesquisa incessante de novas linguagens e suportes tornaram o artista ítalo-brasileiro figura única no cenário moderno brasileiro, inventor de parcerias entre fotografia e programas computacionais que resultaram em arte eletrônica que ele considerava “conseqüência lógica da arte concreta”. Essa sua última fase, batizada “arteônica”, prevê de maneira visionária os atuais mundos virtuais irrigados de impulsos óticos e elétricos, no qual sem dúvida o artista teria mergulhado com entusiasmo.

“Ambigüidade”, obra exibida na Bienal de São Paulo de 1963, exemplifica o gosto de Waldemar Cordeiro pela investigação científica, incluindo o campo da lingüística e o conceito de “obra aberta”, do escritor e pensador italiano Umberto Eco. Assim como “Opera Aperta”, título de outra obra sua naquela Bienal, “Ambigüidade” era uma tela monocromática à qual se agregavam pedaços de espelho.

As duas obras podem ser vistas agora na mostra do Centro Universitário Maria Antônia, cuja curadoria é de Helouíse Costa, professora do Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP). “O crítico Tadeu Chiarelli, um dos idealizadores da série ‘Arte Concreta’, com Lorenzo Mammì e Alberto Tassinari, conhecia minha pesquisa patrocinada pela FundaçãoVitae, sobre a relação de nove artistas plásticos com a linguagem fotográfica”, explica Helouíse.

Os outros artistas que compõem a pesquisa são Farnese de Andrade, Ana Bella Geigger, Antônio Manuel, Wesley Duke Lee, Carlos Fajardo, Julio Plaza, Iole de Freitas, Arthur Barrio e Nelson Leirner.

Assim, a curadora adaptou parte de seu estudo para o livro-catálogo da mostra, editado pela Cosac & Naify. O texto situa a produção do artista sob o signo da ruptura, “em tudo aquilo que traz de dialético, em seu caráter contraditório e essencialmente transformador”.

Segundo a curadora, a trajetória de Cordeiro é em grande medida pontuada por vários dos impasses que marcaram a arte do século 20. Chegado ao Brasil nos anos 40, o artista ainda exercitava a pintura de cavalete, que evolui da incorporação de elementos cubistas e de uma fase expressionista para composições abstratas informais, que logo se tornam geométricas, antecipando sua adesão aos princípios construtivos dos anos 50.

Grande parte dessa produção pictórica se perdeu. O autor não se interessava pelo mercado de arte, tendo vendido apenas duas ou três obras durante toda a vida, conforme entrevista gravada para o Museu da Imagem e do Som pouco antes de sua morte. Para a subsistência familiar fundou, em 52, um escritório de paisagismo, o Jardins de Vanguarda, que teve alguns de seus projetos premiados internacionalmente.

Tanto a falta de interesse pelo mercado de arte (senão franca oposição) quanto o caráter efêmero dos materiais envolvidos em suas obras a partir dos anos 60 -algumas delas “ações” ou “intervenções”, conforme os procedimentos de movimentos internacionais de vanguarda à época, como o Fluxus- espalham espinhos no caminho dos teóricos dispostos a se embrenhar no pensamento de Cordeiro. As lacunas na reconstituição de seu pensamento ligam-se, por outro lado, à conservação precária de sua herança visual e intelectual.

Após a morte precoce, de infarto, sua obra se tornaria quase “objeto enigmático”, ressentindo-se da ausência das palavras cheias de lógica e entusiasmo com que o artista fazia viver esquemas visuais e processos de trabalho. Com a morte de sua viúva, Helena Cordeiro, aquilo que pôde ser recolhido de sua produção passou aos cuidados da filha, a bailarina Analívia Cordeiro, para a qual o pai chegou a executar coreografias baseadas em linguagem computacional.

Apenas em 2001 Analívia entregou parte do acervo familiar à restauração, patrocinada pela galeria Brito Cimino. Além de uma exposição, também foi produzido um CD-Rom com biografia, fortuna crítica etc.

“Apesar de haver vários exemplos na mostra, em sua obra o artista nunca teorizou explicitamente sobre a imagem fotográfica. Ela aparece como ‘ready made’, especialmente depois do rompimento com os concretistas, quando ele passa a interessar-se pelos objetos e a problematizar a questão da mídia, do consumismo e dos valores a que somos vinculados pela indústria cultural”, diz a curadora.

Seguidor do pensamento gramsciano, Cordeiro utilizava imagens de alta voltagem política em seus objetos, como fotos de comícios brasileiros e cenas da Guerra do Vietnã. Boa parte retirada das páginas do jornal “Última Hora” Cordeiro colaborou como crítico de arte em jornais do grupo Folha após sua chegada ao Brasil.

“Descobrimos algo singular em uma de suas obras mais conhecidas, ‘O Beijo’ (do acervo MAC-USP). A boca que se abre e fecha nessa colagem movimentada eletricamente pertence a Brigitte Bardot, ícone citado também em ‘A Menina que não era BB’, foto de garota vitimada na guerra do Vietnã”, prossegue Helouíse, revelando alguns resultados de sua pesquisa.

A fotografia também foi utilizada na fase dos “popcretos” da década de 60, nome formulado por Augusto de Campos para substituir o demasiado técnico “arte concreta semântica” inventado por Cordeiro. Embora já desvinculado formalmente do concretismo, o artista expôs os primeiro popcretos ao lado de uma série de poemas visuais de Augusto de Campos, na galeria Atrium, em 63.

“Os primeiros popcretos são realizados sem pretensão de durabilidade, existindo uma precariedade óbvia. ‘Rebolando’, de 75, obra rejeitada pelo júri da 8a. Bienal de São Paulo, consistia em garrafão de vidro sobre base fotográfica com quadris de Marilyn Monroe. O público olhava pelo gargalo, balançava a garrafa e o quadril de Marilyn ‘mexia-se’. Era obra imediatista, de interação com o público, no espírito da obra aberta”, aponta Helouíse.

A mostra do Maria Antônia reúne 13 trabalhos de Cordeiro, além de documentação e fotos de projetos em paisagismo. Segundo o curador-geral de “Arte Concreta Paulista”, Lorenzo Mammì, a obra paisagística de Cordeiro é “estrutural, e não culturalista como a de Burle Marx, que pesquisava as plantas brasileiras.

Diferentemente, Cordeiro partia da estrutura e do desenho do vegetal e das folhas para elaborar a estrutura do jardim, trabalhando com cores, sombras e texturas, em vastas composições abstratas vivas. Além disso chegou a fazer projetos urbanísticos de recuperação de favelas em Pernambuco”, lembra Mammì.

Na exposição atual incluem-se fotos de um de seus maiores projetos paisagísticos, para o playground do Clube Espéria (marginal do Tietê, SP), cujos brinquedos também foram projetados por Cordeiro. Ainda em pé, embora mal conservado, esse playground foi fotografado nos anos 60 pelo então professor da FAU-USP Jorge Xavier. O artista chegou a expor os projetos para esse clube na galeria de arte Casa do Brasil, em Roma, 1969, sem diferenciá-los das obras de arte.

Em sua última fase, Waldemar Cordeiro passou a digitalizar imagens segundo programações de computação, embora sem os recursos atuais de impressoras etc., gerando um trabalho manual impressionante, realizado com professores e cientistas da USP. Era a “arteônica” (arte + eletrônica), que antecipava os fractais, a webarte e outros procedimentos atuais.

O livro “Waldemar Cordeiro” será lançado no dia 22 de agosto, às 20h, em mesa-redonda no Centro Universitário Maria Antônia (rua Maria Antônia, 294, tel. (11) 3237-1815), da qual participarão Helouíse Costa, a professora Annateresa Fabris e Euler Sandeville, professor da FAU-USP. Algumas imagens podem ser vistas em www.arteconcretapaulista.com.br

A.M.
Alvaro Machado é jornalista, colaborador da "Folha de S. Paulo" na área cultural, autor de "A Sabedoria dos Animais" (ed. Ground), tradutor de “A Linguagem dos Pássaros” (ed. Attar) e organizador dos catálogos "Mestres-Artesãos" e "Folias Guanabaras". Edita a revista cultural eletrônica “Opera Prima” (www.opera-prima.com).

 
1