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Lenora: Essas gravações de 62/63 foram feitas com muito poucos recursos, porém com um máximo de criatividade, com um distribuição de vozes no ambiente que corresponde à espacialização dos poemas no papel etc.

Bandeira: Além do que, é preciso dizer, que a união entre os integrantes de Noigandres era muito forte, e às vezes alguns deixavam de publicar para que o outro pudesse fazer algo em cores, mais caro.

Os comunistas Décio Pignatari e Waldemar Cordeiro assumiram publicamente posições contrárias ao realismo socialista?

Bandeira: Cordeiro publicou algo contra Di Cavalcanti e a estética dos murais socialistas em artigos de 49 e 50. No caso dos artistas plásticos havia a pretensão de fazer uma arte menos subjetivizada, passível de reprodução industrial, de adentrar a área do mobiliário etc. Porém no caso dos poetas concretos essa posição não foi formalizada.

Lenora: Existia, sim, a proposta de socializar, entre aspas, a poesia, no anonimato conferido aos poemas da chamada “fase heróica” dos concretistas. Isso me lembra uma frase de Octavio Paz no final de “Signos em Rotação”, sobre o sonho da poesia na praça, para todos. Isso existe, de algum modo, em todo esse empenho deles em traduções que nem eram pagas, de trazer à luz coisas que ninguém conhecia. Hoje a poesia concreta está assimilada até pela publicidade e pela música. De algum modo passou ao domínio do grande público.

Bandeira: Existe a ligação óbvia com as vanguardas históricas da Alemanha e Rússia do início do século 20. Esse cruzamento entre ideologias de esquerda e arte para as massas, que prosseguiu em mil descaminhos. O Waldemar Cordeiro era marxista assumido, de linha gramsciana, opunha-se textualmente ao muralismo de Portinari, calcado no realismo socialista. Décio e Cordeiro foram ao Chile em 1953 pagos pelo Partido Comunista. Cordeiro arrumou briga com Diego Rivera e Pablo Neruda, que chamou de fossilizados. Isso está documentado numa comunicação de Décio Pignatari no Segundo Congresso Brasileiro de Poesia, na qual trata especificamente a questão do engajamento. A partir de então, eles passam a produzir alguns poemas politicamente mais explícitos, como o “Cubagrama”, de 1962.link-se
Deslimite: um filme-entrevista estrelando Augusto de Camãos, por Carlos Adriano -
http://www.uol.com.br/tropico/dossie_5_1275_1.shl

Elisabeth Walther-Bense recorda os primórdios da era cêncretista -
http://www.uol.com.br/tropico/dossie_5_1277_1.shl

A.M.
Alvaro Machado é jornalista, colaborador da "Folha de S. Paulo" na área cultural, autor de "A Sabedoria dos Animais" (ed. Ground), tradutor de “A Linguagem dos Pássaros” (ed. Attar) e organizador dos catálogos "Mestres-Artesãos" e "Folias Guanabaras". Edita a revista cultural eletrônica “Opera Prima” (www.opera-prima.com).

 
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