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A arte concreta brasileira é menos ideal e mais sensível. E essas cores que você via em Sacilotto, ou em Oiticica e seus laranjas, você reencontra agora no pintor Eduardo Sued, com marrons e outros tons muito pouco essenciais. Preocupação que se encontra também em Soto e nos venezuelanos.

Portanto existe uma “coisa” sul-americana, que interpretou a arte européia de uma maneira menos essencialista e mais tonalista e ótica, ligada a uma relação sensível e imediata com o objeto, e menos à idéia de forma. Isso talvez não estivesse muito consciente para os concretistas, mas é um elemento que persistiu em toda a arte brasileira posterior que participa de algo dessa tradição.

Após Oiticica houve ruptura com essa tradição?

Mammì: Existiram várias tentativas. Mas, justamente pelo fato de a arte concreta não possuir características tão essencialistas ou idealistas, ela pôde sobreviver nas entrelinhas, sem necessidade de ser negada completamente. Reapareceu em Waltércio Caldas e em José Resende, por exemplo, ou mesmo em artistas mais jovens, como Jac Leirner.

Quais são, grosso modo, os desdobramentos do concretismo da década de 50 até hoje?

Mammì: O movimento nunca é completamente esquecido. Existe uma continuidade de produção. Surgiram várias polêmicas e contradições, porém jamais se viu outra virada tão radical.

Quais os artista mais próximos das estéticas concretistas hoje?

Mammì: O ideal concretista não é mais sustentável hoje, pois encontrava-se ligado a uma idéia progressista de transformação ideal da produção industrial e da imagem urbana, a um projeto moderno que hoje talvez seja ingênuo. Lembro, para ilustrar o processo, uma frase de Nietzsche que vi afixada sobre uma instalação do artista norte-americano Joseph Kosuth: “Os grandes filósofos imaginam ser lembrados por suas grandes construções, mas as gerações seguintes usam apenas alguns dos tijolos que eles forjaram”.

Assim, o que se mantém do construtivismo não é a idéia geral, mas as cores de Sacilotto, algumas soluções de Waldemar, o “optical” de Geraldo de Barros, certas sonoridades da poesia concreta, reencontráveis hoje em Tom Zé, Arnaldo Antunes e mesmo na MPB. São os tijolos, enfim, que continuam fecundando tudo.

E quanto às acusações de falta de historicismo imputadas aos concretistas?

Mammì: São injustas. Veja o caso de Waldemar Cordeiro, que tinha fortes ligações com a esquerda gramsciana, que é historicista. Eles sempre defenderam que faziam algo que já existia na arte anterior como essência. Mas é natural uma certa negação da história como necessidade nos movimentos de vanguarda.... Porém o que dizer quando se constata que nenhum movimento da arte brasileira até o Ruptura apresentou continuidade?

Existem explosões e recuos seguidos, pois não existia estrutura para manter as conquistas. Em 1930, a Semana de 22 já estava esgotada, apesar de grandes autores que trabalharam de maneira modernista durante a Segunda Guerra. Não havia, até a década de 50, possibilidade de estabelecer uma historicidade da arte brasileira senão como uma ficção, forçando-se um historicismo positivista derivado do século 19, pinçando-se aqui e ali grandes artistas desde o século 18, de maneira a criar uma espécie de dinastia, quando na verdade não há continuidade.

Como o sr. avalia a expressão internacional do concretismo?

Mammì: No caso dos poetas, houve, sem dúvida, grande reconhecimento internacional, assim como na arquitetura e urbanismo de Niemeyer e Lúcio Costa. E na música também. Já nas artes visuais, não houve, ao contrário do caso venezuelano, tanto impacto em direção ao exterior, até surgirem Oiticica e Clark.

Como foi estruturada a mostra do Grupo Ruptura, que inaugurou o ciclo de exposições atuais?

Mammì: Quisemos concentrar as coisas na exposição de 52, não incluindo itens posteriores. Não foi possível reconstruir com exatidão porque não havia documentação suficiente e não se tem notícia de muitas das obras. No caso de Leopoldo Haar, mostramos apenas fotografias de obras, e no de Kazmer Féjer foram reproduções de esculturas em acrílico.

Quisemos marcar o impacto dessa exposição em relação ao que havia antes, o choque cultural que ela representou. Há obras pouco conhecidas de várias coleções, de Adolpho Leirner, o grande colecionador de arte concreta, mas também de pequenos acervos de Minas, São Paulo...

O que se pretende na USP com essas séries?

Mammì: Não existe nenhum projeto fixo, mas a intenção é levantar discussões mais substanciais sobre o concretismo e, no próximo ano, mais uma grande questão geral. E também dar sobrevida às mostras com publicações, debates e ciclos de palestras. A diferença entre um centro universitário e um museu é um pouco essa, produzir pesquisa, discussão, aproveitar a massa crítica da universidade para estruturar uma produção analítica.

Além desta série “histórica”, o Centro Maria Antônia prossegue com obras e instalações idealizadas especialmente por artistas para essas salas de exposição?

Mammì: Junto à inauguração das mostras Noigandres e Cordeiro já haverá uma escultura em três patamares, de Iole de Freitas. Gostaria de assinalar que essa artista vem da arte performática na década de 70, da arte-dança conjugada a filmes etc. Atualmente ela desenvolve um interesse muito grande pela vanguarda russa, por artistas como Rodchenko e Maliévitch, um pouco daqueles relevos de parede do Lissitski...

Foi uma feliz coincidência receber essa obra na mesma época que a série concreta, porque Iole é uma artista que trata as questões concretistas de maneira criativa hoje. Com a diferença de que ela vem mais da tradição construtiva russa, mais suprematista, com movimentos corporais, enquanto os concretistas paulistas deviam mais à tradição alemã. Mas existe de fato esse diálogo, revelando que a arte brasileira contemporânea herdou muito dos construtivos, sejam russos ou alemães.

Arte brasileira contemporânea, aliás, que é hoje bastante valorizada no circuito artístico mundial. Mammì: Sim, talvez até por essa estranha característica, de aliar à matriz construtiva uma questão sensível e existencial, presente em muitos de nossos artistas atuais.

Como o senhor vê a situação atual das artes visuais em São Paulo? Neste momento, a Bienal tenta continuar a fórmula apresentada no ano passado, endossada por um recorde de público, mantendo o curador alemão Alfons Hug para a próxima edição. O crítico Ivo Mesquita, demitido pela Fundação Bienal há alguns anos, foi novamente demitido em julho último, desta vez pelo MAM-SP, que parece perseguir a mesma meta de público em massa de muitos museus e fundações brasileiros.

Mammì: Parece que é sempre o Ivo Mesquita que tem de pagar o pato (ri). O sistema está se implantando no Brasil de uma maneira um pouco afoita, tardia, um pouco rude até, mas em todo o mundo o esquema de megaexposições com grandes orçamentos está levando necessariamente a eventos que arriscam pouco.

Tornar a estrutura de produção mais importante que a própria obra é uma conseqüência inevitável quando se trabalha com esses valores de altíssimo porte. Precisamos voltar a valorizar estruturas mais ágeis, mais próximas da produção dos artistas, que permitam riscos maiores e não estejam sujeitas à chantagem contínua da expectativa de um grande afluxo de público.

Perdemos o espaço para a experimentação porque esse gênero não é sucesso garantido. Talvez seja a hora de trabalhar com orçamentos mais contidos e exposições de pequeno porte, discussões mais sofisticadas, em nível universitário, e que não o que esperam as escolas de segundo grau, por exemplo, embora trabalhar com escolas seja sempre desejável.

Os grandes movimentos da década de 60, 70 e 80 trabalharam na verdade situações de risco, sem essa estrutura toda. Cresci na Itália nos 60 e 70, quando surgiu o movimento da arte povera e não havia então assessores de imprensa. Eram as pequenas galerias que mostravam isso. É preciso uma certa coragem das instituições culturais, que não devem se atrelar tanto a grandes exposições, grandes catálogos, centenas de milhares de visitantes etc. É bom ter isso, mas também é bom ter o oposto, ou seja, o húmus dos pequenos eventos. A universidade pode ter essa função.


Projeto Arte Concreta Paulista
Exposições: Grupo Noigandres; Waldemar Cordeiro: a Ruptura como Metáfora; Poemas de Augusto de Campos (todas de 01/08 a 08/09) Local: Centro Universitário Maria Antonia
Rua Maria Antonia, 294 - Vila Buarque - São Paulo
Horários: de segunda a sexta, das 12h às 21h; domingos e feriados
Fone: (11) 3255-5538
Entrada: gratuita

Alvaro Machado
É jornalista, colaborador da "Folha de S. Paulo", autor de "A Sabedoria dos Animais" (ed. Ground), tradutor de “A Linguagem dos Pássaros” (ed. Attar) e organizador de "Aleksandr Sokúrov" (ed. Cosac & Naify) e de "Mestres-Artesãos" (ed. Sesc-SP). Coordena o site-catálogo da editora Cosac & Naify (www.cosacnaify.com.br).

 
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