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novo mundo
SKINS

À flor da pele da Web
Por Giselle Beiguelman



Divulgação

Artista argentino reúne linguagens para embutir atitude no código de programação

Traumatizei. Foi assim que um colega (ou web-compadre?) que muito admiro, o professor de design gráfico da Faculdade S. Marcos, Marcus Bastos, respondeu um e-mail meu em que apresentava o site “Influenza”.

É traumático, mesmo. Não é todo dia que a gente digita uma URL com nome de doença, seguida de um ponto etc, ponto br, e recebe de troco uma pele digital (skin) que adere a todas as janelas do seu computador, permitindo que se navegue no site recém-escolhido a partir de qualquer ponto do seu desktop.

Não se trata de skins do tipo dos distribuídos pelo ICQ, e a maior parte dos media players, como o Windows Media e o Winamp, que dão a possibilidade de trocar a decoração daquelas telinhas ridículas que simulam o console de um aparelho de vídeo ou de rádio, por outras mais ridículas ainda.

Combinando a linguagem XML (Extensible Markup Language) ao formato de vídeo digital movie (.mov), utilizado pelo QuickTime Player da Adobe, a pele criada pelo argentino radicado no Brasil, Rafael Marchetti Renno, é a interface principal de navegação no seu site.

Basta ter o Quick Time Player 4.0 ou superior instalado para que se implante, dando acesso a seus trabalhos como programador, webmaster e web designer para corporações, ONGs, festivais e deleite pessoal.

Surrupia muito mais que a barra de navegação do browser. Cola-se a todos os documentos abertos do seu computador, invade sua área de trabalho, contaminando tudo com sua geometria construtivista.

Ao invés de sentir-se hackeado por um intruso, a implantação de Rafael no seu território confere ao visitante um estado de liberdade. Desafiador, obriga a pensar estratégias de percurso porque impõe que se desautomatizem as rotinas de leitura e interação.

Isso não é pouco, haja vista que a interface já é uma obra de arte digital em si, mas tem muito mais coisa escondida aí. Todos os links são interessantes e valem uma visita. Para quem nunca viu o “Balaio”, uma web intervenção realizada em 2000 pelo Sesc On Line, fica aí uma dica para começar o passeio desconcertante.

Trata-se de uma peça sui-generis que troca o modelo chapado da página de página impressa por uma rosa dos ventos e obriga o visitante a circular por pequenas janelas, transitando entre os pontos cardeais.

Mas isso é coisa antiga, e Rafael nunca parou de pesquisar. É preciso garimpar e encontrar um acesso ao mapa do site e poder então ser premiado pelos seus ensaios visuais. Só o mapa basta para desanuviar a vista e colocar os neurônios para funcionar, diriam os já suficientemente traumatizados pela criatividade desse rapaz.

Contudo, segure esse seu básico instinto invejoso e humano, demasiadamente humano, e arrisque uma consulta a suas séries óticas, como “random”, “Fil” e “Agulas”. Elas fazem, no mínimo, a gente sonhar com o que poderia ser uma versão on line das estruturas do venezuelano Jesus Soto.

Graficamente elegantes, essas obras de Rafael utilizam Flash de forma inteligente, sem recorrer ao já tradicional estilo MTV que vem imperando, sem critério e sem ousadia, em incontáveis sites pretensamente artísticos, muitos dos quais, porém, de qualidade estética excelente.

Sucintos e minimalistas, os ensaios de Rafael são randômicos, multigenerativos e levam ao limite a tese principal do mestre Stephen Wilson, autor de um compêndio de mais 700 páginas sobre arte e tecnologia.

“Information Arts” é o nome do livro que é acompanhado de uma gigantesca base de dados on line. Maior sistematização do assunto feita até o momento, tem por mérito não apenas a extensão e abrangência, mas o ponto de vista que alicerça a seleção.

O que diferencia a arte que hoje se faz a partir de mídias digitais e eletrônicas, ensina o prof. Wilson, não é meramente o fato de apropriar-se e dialogar com os recursos tecnológicos, mas sim as formas como se imbrica com a produção científica, cultural e de informação.

Algo que está implícito em tudo que Rafael Marchetti Renno, esse híbrido de desenvolvedor, designer e editor, faz com iguais doses de frieza e compulsão, forçando repensar os parâmetros de usabilidade e conferindo novos atributos às funcionalidades.

Tudo isso certamente porque há um algo mais que utilização de mídias embutida em seus códigos: atitude. Uma atitude que se traduz em opção precisa. Criar sentido, ao invés de distribuir conteúdo.

Traumatizei, também, e decidi. Se “influenza” ainda significa gripe forte, eu quero é mais que se propague uma epidemia de pneumonia aguda!

Let me be ill e até a próxima.

link-se
Influenza - http://www.influenza.etc.br
Information Arts (Intersections of Art, Technology, Science & Culture) - http://online.sfsu.edu/~infoarts/links/wilson.artlinks2.html
QuickTime - http://www.apple.com/quicktime/download/

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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