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REINO UNIDO

O império dos salamaleques
Por Luiz Henrique Horta

A monarquia inglesa resiste ao fim do Império Britânico com muito ornamento e espetáculo

Como um homem gordo que perde muito peso repentinamente e não sabe bem como se mover e comportar dentro do novo corpo, o Império Britânico, essa idéia que teima em não desaparecer, tem surgido em público com freqüência no ano do jubileu da rainha Elisabeth II da Inglaterra.

Sua presença é incomoda, mas persistente, causa embaraço, mas não há como escondê-lo e, apesar de estar refugiado no protocolo, ainda tem uma inesperada força de polêmica.

David Cannadine, exegeta maior da história recente da Grã-Bretanha, no excelente “Ornamentalism”, traça um quadro desta redução ao estético, da decadência territorial do Império, que começa no jubileu da rainha Vitória, em 1887 e vem se agravando, com a perda da Índia, que era o grande diamante da coroa, até a entrega de Hong Kong (ou devolução) à China em 1997.

No livro publicado no ano passado ele dá como findo o processo de desmantelamento e dissecação do Império; mas justamente as comemorações deste ano, colocaram de volta alguns sintomas de que, esteticamente, o império ainda tem larga sobrevida.

Começou quando a rainha-mãe, nada surpreendentemente, morreu. Houve um clamor no estilo Diana-pop, de quem ela era a mais perfeita representante dentre os Royals. Foi então que o poder ritual da monarquia começou a colocar os músculos de fora. A BBC não anunciou o fato com o luto devido, reclamou o Palácio, os repórteres e locutores não estavam de preto, não usavam gravatas pretas.

A rede de TV estatal alegou um aggiornamento globalizado, mas em vão. A pressão aumentou, e até o “Guardian”, o mais republicano dos jornais, admitiu que algum respeito era necessário...O príncipe Charles deu um depoimento emocionado sobre a avó favorita, ao canal privado ITC, em represália, e os ânimos só se acalmaram quando gravata e terno negros surgiram em todos os engravatados da ocasião.

Durou pouco a trégua. Em plena cerimonia religiosa do enterro foram lidos os títulos da falecida. E lá estava, implacável, o de Imperatriz da Índia. O professor Simon Schama, que comentava as cerimônias para a TV, contorcia-se na cadeira como vítima de agonia atroz. Não queria comentar esse anacronismo, não queria reconhecer escondido ali no meio de tanto sofrimento populista, o Império.

Mas o anacronismo estava lá, escancarado: que meio século depois da independência ainda houvesse uma imperatriz viva da Índia e também vários rostos indianos, paquistaneses, malaios, desfilando com uniformes dos blackwatch, ou usando inesperados tartans, kilts, tocando gaita-de-foles, com chapéus emplumados dos Horse Guards. Parecia o retrato que Astérix mostra do Império Romano, muitos falares e muitos rostos diferentes.

E veio o jubileu de ascensão ao trono da rainha Elisabeth II. E novamente o rito imperial dominou. Não se pode esquecer que, nominalmente, a rainha ainda é chefe de Estado de países como o Canadá, Austrália, Jamaica, Nova Zelândia... Cujos chefes de governo compareceram, entre constrangidos ou abertamente cínicos, ao convescote monárquico.

Na atualidade, em que as coisas têm cada vez menos centro -uma existência amebóide, permitida principalmente pela comunicação instantânea-, ver aquele centro gritante, o centro marcado de um império que não existe, pareceu alternadamente patético e apavorante. E faz pensar que tal centro não é nem tão central, nem tão vazio.

Aqui o professor Canadinne tem o que dizer de novo, ele que desvenda eficazmente todo o aparato ritual da monarquia e da aristocracia britânicas, mostrando que praticamente tudo foi inventado no século 19. Só que com aparência de eterno, por bem ensaiado e dirigido, como se assistíssemos novamente cerimônias tal e qual foram desde sempre, embora tudo deva ter sido criado para esta temporada...

O que já foi chamado “trovão de seda” (um farfalhar em surdina de milhares de pessoas fantasiadas, horas de uma coisa impecável, em que até os cavalos se comportam numa demonstração de eficácia no espetáculo do Estado) denota poder, mesmo que não o poder de mando, mas o de significar. Não é espantosa a polêmica entre a família real e a BBC. Restando à realeza essa capacidade de representação, ela se aferrou com força ao simbólico. E conseguiu. O Império ornamental sobrevive.


Luiz Henrique Horta
É crítico de cultura, viajante interessado em comida e autor de "O Costume de Viajar".

1 - "Ornamentalism - How the British Saw Their Empire", de David Cannadine. Penguin books, 2001, 264 págs., 8 libras.

 
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