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“Qual talvez. Está-se logo a ver. Primeiro a querer castigar--me por causa da minha reação à morte do filho. A dizer que já não queria nada comigo, que só tinha ido para me dizer isso, numa grande indignação por eu ter ido a casa dela, andar a persegui-la. Palavra que foi o que ela disse. Estava tudo acabado, nem nunca tinha havido nada, estás a ver. A querer ser cruel como às vezes gosta, sádica. Tinha sido tudo por caridade, por falta de homens, por causa da perna. Palavra que até fiquei magoado. Depois de andar comigo estes anos todos. Também foi com muitos outros, já se sabe, mulher moderna. Mas deixou que eu a acompanhasse até perto de casa, a Santa Catarina, que ficássemos até o Sol nascer. Estás a ver, e então virou, veio a verdade. Os sentimentos verdadeiros. A oferecer--me a história da sua vida. A mostrar que a intenção dela, naquela outra noite, tinha sido oferecer-me a morte do filho. Naquelas circunstâncias. A fazermos amor. Como metáfora. Ou neste caso é metonímia? Estudamos tudo isso no Jakobson. Mas estás a ver, o Francisco sou eu, o Autor.”

“Ali sempre no teu posto.” O que havia de dizer?

“Nem mais. A dar-lhe vida. Identidade. A torná-la História. Por isso é que ela me quis contar tudo. Para eu a poder criar. Que tal, hein?”

“Complicado.” E o que pensei foi safa que menina perversa, grande gozona. Mas não apenas. Para ter passado a noite nesse tipo de prosa com o Francisco de Sá, mesmo que ele a tivesse desentendido em metáfora, como lhe cumpria, devia haver por ali um grande desespero. Sim, é claro, o filho tinha morrido. Mas depois voltei a sentir que já tinha lido muito daquela história nalgum sítio, que havia naquilo fragmentos de vidas que eu semi-reconhecia sem conseguir situá-los. Mas só os fatos básicos, os comentários só serviam para confundir. A morte da mãe, o casamento dinástico, o marido adolescente a morrer antes do filho nascer, aquele tutelar Francisco que este Francisco julgava ser ele próprio, mesmo o filho ausente morto tão jovem, tudo ecos banalizados de outros destinos. “Incrível.” E fiquei a tentar lembrar-me.

Ele entendeu incrível no sentido eina pá que grande história e transpôs-me logo em discurso direto:

“Tens razão. Incrível. Exatamente o que disseste: vai ser um grande livro.”

Comecei a lembrar-me. Ou a recear que sim. Porque era absurdo.

O que me veio à mente foi um artigo do Marcel Bataillon que costumo recomendar aos alunos sobre a mãe do Dom Sebastião! A menina a gozar com a História, a gozar o Francisco de Sá. E a mim por tabela. Ou então não estava boa da cabeça. Ou eu.

“Ouve lá, o tal primo com quem ela casou e é suposto ter tido um magote de irmãos que morreram antes dele. Chamava-se João? E a mãe de Joana era Isabel?”

“Como é que sabes? Eu o nome da mãe não sei. Conheces a família? Então vais ver que também a conheces. Lisboa é mesmo uma aldeia!”

“Não. Impossível. Só se fosse de retrato. Com a mão em cima da cabeça dum negrinho.” O Francisco de Sá remexeu-se na cadeira a decidir se devia ficar ofendido, já pronto a lançar--se noutro protesto anti-racista. “Não, desculpa, estou a delirar. Ressaca de ontem. É só que houve aí umas coisas que me fizeram lembrar a história da mãe do Dom Sebastião. Que também mete um Francisco. Deixa lá, manias minhas. Coisas lá das aulas. Nevoeiro na cabeça. Já me passa.”

“A História repete-se”, ponderou ele, equânime.

“A menos que se mude o curso da História, não é?”

Mas o Francisco de Sá não reconheceu a referência à sua própria citação do que a tal gozona ou desatinada Joana lhe teria dito, outra ironia desperdiçada, eu já a sentir-me cúmplice dela. Tomou o ar grave devido às verdades profundas:

“É mesmo.”

“Tens uma foto?”

Tinha, como um namorado à antiga. Tirou-a da carteira.

“Reconheces?”

Claro que não. Aliás, no visível, nada de parecido com a outra, a do negrinho. Ao menos isso. Calças, pulôver, camisa à rapaz com o colarinho e os punhos abotoados, xaile negro e vermelho sobre os ombros, tudo talvez um pouco juvenil demais para a idade por jovem que parecesse, quarentas é que de fato não parecia, magra, feições de ossos bem definidos, lábios cheios em boca saliente, aquele tipo de rosto português que seria imperfeito se não fosse tão refinadamente burilado, uma harmonia secreta, brancuras de moura num jardim de sombras. Mas o mais marcante eram os olhos, fundos, escuros, com a infinita tristeza dos primatas. Ou assim me pareceu que seria, ou então julgo agora, a querer imaginar que assim seja.

“Não. Nunca vi. A minha é quinhentista e usa saias. Esta pós--moderna só pode ser a tua Revolucionária Capitalista.”

“Ah, portanto não te importas. Aquela idéia de ontem. É que depois fiquei sem saber. A Revolucionária e a Capitalista serem a mesma personagem. Como a frase foi tua...”

“Não, deixa-te disso, a idéia é só tua. Não hesites.”

“Eh pá, és um amigo. Um camarada. Hoje em dia há poucos. Então está bem, vai ser assim mesmo, ainda bem que não te importas. Vai ser esse o meu ponto de partida. Depois tudo em flashbacks, alternando com coisas que aconteceram depois, como é que se chama o oposto de flashbacks?, incluindo estas conversas contigo, tu também entras, é o mínimo que mereces, és o Escritor, estás a ver, o leitor a pensar que o autor não é o Eu, tudo a ser construído e desconstruído ao mesmo tempo. Que te parece?”

Não disse. Convenhamos, ele há boas maneiras e há hipocrisia. Perguntei em vez:

“A tua Joana pós--moderna, disseste que ela estudou História, não foi?”

“Quando eu andava em Românicas. Por quê?”

“Só cá uma dúvida. E ouve lá, o que é que tu sabes da mãe do Dom Sebastião?”

“Dela... Mas dele tudo, é claro. Louco sim louco porque quis grandeza, o Desejado, o Encoberto... Tudo. É a identidade nacional.”

Tocou-me numa das minhas fobias, estou farto dessa, dos que falam da identidade nacional como se fosse gente:

“Uma ova. Uma ova a identidade nacional, não há tal coisa. Há pessoas e circunstâncias. Mudam umas, mudam as outras, muda a identidade nacional. E se muda já não é a mesma, deixa de ser o que era, de modo que não há.”

“Então, pá, até há livros sobre isso! Tens cada uma!”

“Pois há. Mas a dizer tudo ao contrário. O sim pelo não e o não pelo sim. Por exemplo que somos uma nação meiga e contemplativa quando temos uma História feita só de violências. Como é que tu julgas que se constroem os impérios? Com punhetas saudosistas? Olha que não foi a sonhar com o regresso do Dom Sebastião. E já agora uma ova também para essa de que o pobre pateta fosse louco por querer grandeza, o que as pessoas queriam e ele foi levado a querer era as terras do Norte de África, o que não era loucura nenhuma, era até a opção mais sensata.”

“O Dom Sebastião sensato?! Porra, pá, isso toda a gente sabe que não.”

“Bom, está bem, não era. Perdeu o tino por falta de fodas, que nos sirva a todos de lição, por fugir da bela forma humana, foi só por isso que quando morreu também nos lixou. Mas a opção era. A ter de haver império era mesmo a única sensata, o Camões como sempre é quem tem razão, não é o Pessoa. E em princípio muito mais viável do que seis meses de viagem para as especiarias da Índia e, já agora, menos imoral do que levar escravos para o Brasil. Bom, matar mouros também não seria uma virtude por mais que o Papa dissesse que sim, mas a questão não era essa. A questão era que pimenta sem conduto não faz guisados e açúcar sem farinha nem teria servido à Maria Antonieta para bolos franceses, quanto mais para carcaças nacionais. Enquanto que no Norte de África havia boas terras para pasto e para cultivo ali mesmo na continuação do Algarve que ninguém ainda sugeriu que se deva devolver aos mouros ou mesmo pedir--lhes desculpa como está na moda, até se diz Algarves no plural.”

E o Francisco de Sá, já farto de História:

“Mas o que é que isso tem a ver com a mãe do Dom Sebastião?”

A pergunta era pertinente, granda besta, eu tinha mudado de assunto sem dar por isso. Contágio dos da identidade nacional, a falar de outro assunto como se fosse o mesmo.

“Tens razão. Nada.” Mas também senti que a minha justa defesa do Camões tinha sido um desperdício, quem não sabe arte não na estima, também não me apeteceu dar-lhe assim toda a razão. “E daí não sei. Olha, pergunta à Joana.”

“Vou mesmo. Talvez me convenha saber mais dessa mãe. Para o meu livro.”

Por esta altura o último sobrevivente de Alcácer Quibir, o único barman que tinha ficado até ao fim, aproximou-se, heróico, espectral, já desfardado, uma alma a caminho da redenção.

“O senhor doutor não quer assinar...?”

“Ah, sim, desculpe. Nem é preciso. Tome só nota.”

Acompanhei o Francisco de Sá até à porta da rua. Era melhor um táxi por causa da perna, no Tivoli o porteiro assobia e chega logo um. Mas ele ainda hesitante, quando o táxi chegou:

“Achas que sim?”

“Que sim o quê?”

“Para o meu livro.”

“Ah, a mãe do Dom Sebastião. Certamente mais interessante do que o filho. Vais ver que a Joana também acha. E olha, tu também me deste uma idéia que talvez funcione. Ou ela. Depois conto.”

É o que vou contar a seguir.

Helder Macedo
É escritor e poeta português, nascido em 1935, autor de "Viagem de Inverno e Outros Poemas" e "Pedro e Paula" (Editora Record), entre outros.

Livro: Vícios e Virtudes
Autor: Helder Macedo
Preço: R$ 30,00; 224 págs.
Editora: Record


 
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