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“Sim. Não, a frase é minha. Mas ela fala bem. Gosta de criar enredos. Uma boa frase, não é?” Tirou do bolso um papel e tomou nota. “Era o que ela queria dizer, mas a frase é minha.” Gesto a mandar vir outro whisky para poder acabar o que tinha à frente. “Uma vez chicoteou um facho à porta da Faculdade. No tempo das reivindicações. De botas e esporas. Fomos todos solidários, ninguém viu nada. Estás a ver, latifundiária e à esquerda do PC. Mas andava em História. Até boa aluna, não sei como tinha tempo. Encabeçou a ocupação das próprias terras na reforma agrária.”

“Revolucionária e capitalista ao mesmo tempo. Boa. O fim do marxismo se é que não mesmo o fim da História, como diria o japonês triunfalista.”

“Eh pá, cuidado, isso é racismo. O gajo é americano. Não, está bem, estás a brincar e toda a gente sabe que és um homem de esquerda. Mas ela foi para se antecipar ao PC. Já lhe foram devolvidas, mas mesmo assim...” Longa pausa, de olhos fechados. Teria adormecido? Não, devoção interior: “Vou-lhe telefonar. Dizer que estamos aqui.” Estremeceu. “À rasca pra mijar. Porra. Já volto.”

E eu esperei que voltasse. Não há dúvida, o álcool também acaba sempre por cumprir a sua obrigação, embota as sensibilidades no mesmo trago em que aguça as curiosidades: uma mulher que imagina amputações nos corpos dos amantes, ganha sempre ao poker, chicoteia fascistas que nem uma fascista de botas e esporas, ocupa as próprias terras, e depois diz a um gajo no meio duma foda que tinha um filho que morreu na véspera. Sim, ia esperar que o Sá Mendes voltasse.

“Conseguiste falar?”

“Deixei recado. Mas estive a pensar. Ficava bem para um romance, não achas? Até me deste há pouco uma grande idéia: a Revolucionária e a Capitalista serem afinal a mesma personagem. O leitor de início sem entender. Uma coisa assim subtil. Ouve lá, não me lembro, tu dizes seios nos teus romances? Quando descreves?”

Eu? Sei lá! Mas decidi não desencorajar as curiosidades lexicais do nosso pós--modernista a ver se ele depois chegaria às minhas, a achar aquilo tudo tão improvável que até podia ser verdade.

“Para significar mamas? Depende. Às vezes digo mamas.”

“E o resto? Lá para baixo. Dizes sexo? Vagina?”

“Também depende. Mas nada contra cona. É uma boa palavra. Ou foda. Depende. Por exemplo”, eu a ver se conseguia que ele voltasse à narrativa, “vocês estavam a foder quando ela te disse do filho?”

“Foi quando acabei. Estava naquele sossego molhado antes de sair dela, sabes como é. Deixo-me sempre ficar o mais tempo possível por causa da perna. E ouve lá, dizes labia?”

“O quê?”

“Labia. Latim. Estou a falar da vagina. Como é que tu dirias num livro?”

“Oh homem, ó Sá Mendes, ó Francisco de Sá, já imaginaste uma frase como aquela cona tem cá uma lábia!? Além de que eu sou um escritor realista, só lido com verossimilhanças e plausibilidades. O máximo que eu diria é uma cona que só lhe falta falar.”

Mas do Sá Mendes nem um sorriso. Pois é, só sabe rir a despropósito. Ou então tem um tal sentido de humor que eu é que não chego lá, ele a gozar-me e eu feito parvo. Mas parece que não:

“Tens razão”, ponderou. “Labia não pode ser. Talvez lábios, como se fosse boca. Não achas que provocaria o leitor, assim como uma espécie de transposição metonímica? E depois de escrever lábios é que a tua frase entrava bem, a reforçar a metonímia, devo dizer que gostei: o falus nos lábios a que só falta falar. Teria de trabalhar na frase. Confesso que até me dava jeito.”

“Olha, serve-te. Ofereço-ta. Troco-a por outro whisky.”

Acreditem, geralmente bebo pouco e costumo ficar pelo vinho. Mas nessa noite tinha-me dado para uma de intelectual lisboeta à moda antiga. E ao Francisco de Sá, com alcoolizada persistência, para insistir em reconstruir desconstruções.

“Mas cona não sei. Sexo ou vagina. Sempre é mais nobre. Dignifica mais a mulher. A dela isto é que eu não entendo, a dela, só te digo isto, nunca poderia ter saído de lá um filho.”

“Bom, acho que já bebemos demais.” Mas por isso mesmo reincidi na minha vocação realista: “Há cesarianas...”.

“Já te contei que ela usa um fio de prata em volta da cintura? Uma espécie de colar com um berloque?”

Devia ter parado aí, a informação era mais interessante do que as minhas também já algo alcoolizadas plausibilidades, mas continuei a insistir nelas: “... parece que há umas cicatrizes horizontais que mal se notam. Ou estás a querer dizer que ela inventou isso do filho? Que não teve filho nenhum?”.

“Quando estava sozinha, era como se o mundo não existisse. Não existisse para o mundo. Quando era mais nova. Agora não sei. Horas com a cara coberta.”

Não era resposta. Mas também a minha pergunta não era pergunta. Agora foi, ainda agarrado às plausibilidades:

“Como é que sabes, se estava sozinha?”

“Ahn? Toda a gente sabe.” Há sempre um momento, nas conversas de copos, em que o diálogo se torna definitivamente tempo cíclico. “Tens razão. Eu não devia ter rido. Uma cona que só lhe falta falar. Uma labia eloqüente. Não me conformo.”

E entrou na fase meditativa.

Lá fiz as minhas desculpas, que ele terá registrado ou não, insisti sem insistir muito porque já tinha cumprido a minha obrigação que ao menos partilhássemos a conta, “bom, está bem, então a próxima é comigo”, mão solidária no ombro, “não, não te levantes”, e saí dali transformado numa espécie de zeugma, a tentar reger simultaneamente dois conceitos não relacionados: um é que já não tenho idade para andar aos ziguezagues, o outro é que até então nunca tinha conhecido um escritor que confinasse a descrição física das suas personagens aos apetrechos sexuais. Como é que se diria, em teoria literária? Desconstrução em sinédoque? Versão pós--moderna de quem vê caras não vê corações? Pois é, mesmo na altura percebi que não tinha muita graça. Contágios. Endireitei-me. Avancei, pernadas de razão firme.

“Já me passa.”

Começou a passar com água das Pedras Salgadas no hotel.

“Pode ser Vidago?”

Porque será que é sempre a outra?

E com esta dúvida existencial, subi e lá consegui ir deitar-me.

No dia seguinte, almoço de peixe cozido mesmo no hotel e mais Vidago, e sim, podia ser Pedras. As ressacas dantes duravam só uma manhã. Agora vai-se o dia todo. Mas também não era grave, regressaria no dia seguinte a Londres e aos brócolos.

Só que não antes de novo encontro com o Francisco de Sá que me entrou pelo hotel ao fim da tarde, barba por fazer, óculos escuros, cara de desenterrado, a queixar-se da perna, felicíssimo. Ela tinha aparecido no Pâbe pouco depois de eu ter saído, “com certeza que vocês ainda se cruzaram, não te lembras de a ter visto?”.

Não, claro que não. E mesmo que tivesse, presumindo que andava vestida na rua, como reconhecê-la? Quem vê caras não vê sinédoques. Mas isto eu não disse, éramos de novo intelectuais probos e cidadãos tributáveis, negociando as aparências das coisas.

As quais obrigaram a que o Francisco de Sá se desculpasse das inconfidências da véspera -“que idéia, não penses nisso, quais inconfidências?”- e as retomasse por via mais sóbria. A grande novidade é que tinham passado o resto da noite juntos. Não, sem camas, só conversa, a verem o Sol nascer do alto de Santa Catarina, gracejou que ela ia lá muito para ver o Adamastor contorcer-se de raiva.

Ocorre-me agora que lhe devia ter perguntado com que idade tinha visto o Sol nascer pela primeira vez, mas na altura não vi a relevância, que é nenhuma.

Mais relevante é que o Francisco de Sá a conhecia àqueles anos todos e havia imensas coisas que não sabia dela. E eu, quanto mais ele dizia, menos ficava a entender.

“Fiz-lhe todas as tuas perguntas.”

Não me lembrava que perguntas, devo ter bebido ainda mais do que me lembrava, ficasse-me de lição, a julgar-me sempre em controle.

“E as respostas?”

“Vais ver, é o meu próximo romance.”

Eu já tinha adiado o jantar de despedida com os amigos para almoço no dia seguinte, e depois iriam levar-me ao aeroporto. Não tinha desculpas evidentes nem me apeteceu inventá-las. Já agora queria ouvir o futuro romance ainda por desconstruir. O qual, na verdade, iriam ser dois, o que ele escreveu e o que eu escreva agora. Não sei se reconciliáveis, logo se verá. Os zeugmas também têm direito à vida.

“Bom, então conta lá. Mas com uma condição: lei seca.”

Francisco de Sá fez uma cara de por quem me tomas e proliferou-se em comentários, deixando implícitos vários dos fatos de que tivessem sido e que eu lá fui descodificando como pude, da periferia para o centro, como aliás cumpre à nossa identidade nacional. Isto até o bar do Tivoli fechar depois de fechado, com o pessoal a limpar ainda mais uma vez mais mesas do que havia, no resignado desespero devido a cliente habitual. Eu realmente em lei quase seca, ele lá para o fim a alagar--se de novo por causa da dor na perna.

Em todo o caso fiquei a saber que a moça se chama Joana e deu para entender que a mãe lhe tinha morrido muito cedo, que a família a levara a casar-se com um primo ambos ainda adolescentes, que o rapaz morreu pouco depois como já tinham morrido todos os irmãos, procriações em circuito fechado por causa das heranças a produzir o tal filho que o jovem pai não chegou a conhecer e agora também morto. Ou seja, afinal uma chatice. Cadáveres a mais, mistura de romantismo tonto com naturalismo parvo, até já tinha lido qualquer coisa assim, uma daquelas salgalhadas que a gente lê só para confirmar o génio do Camilo e poder perdoar ao Abel Botelho mas que depois faz logo por esquecer porque é demais e de menos ao mesmo tempo. Somado ao que o Francisco de Sá me dissera na véspera, a versão pós--moderna daria no máximo para uma espécie de fado plutocrático em disfarce feminista, machismo transposto, jogatanas, descapotáveis, cavalo prárranjar força nas pernas, marialvices às avessas, promiscuidades portáteis, vagos sado-masoquismos compensatórios, uma incongruente universidade, tudo a culminar na tal história da revolucio-nária capitalista que ocupasse as próprias terras na reforma agrária, só talvez funcionasse se contado em tom de farsa, mas nunca achei graça a anedotas de alentejanos nem a revisionismos neoliberais.

Comecei no entanto a achar que a história talvez pudesse não ser só o que parecia quando, pelos comentários, percebi que teria havido um outro Francisco que tivesse sido ou não amante da mãe de Joana e que se tornara numa espécie de mentor ou talvez até psiquiatra da rapariga, sujeita a crises nevróticas desde a morte da mãe até ao casamento. O homem era algo misterioso, teria tido uma reação bizarra quando viu o cadáver da mãe, o que poderia sugerir circunstâncias suspeitas, e desaparecera da vida da filha até que reapareceu, a manipular-lhe o destino. Foi o que eu consegui entender. Mas o Francisco de Sá não ia nessa.

“Isso foi o que ela me contou agora! Depois destes anos todos. Estás a ver a provocação. Outro Francisco. Feitas as contas, homem da minha idade. Já estás a perceber. E sabes o que ela disse depois?”

“Que gosta de Franciscos da tua idade.” Não resisti.

“Ahn? Não, porra, estou a falar a sério. Ela não escolhe idades, já te disse. Com ela vale tudo. Não, é muito simples. O Francisco sou eu, está-se logo a ver. Essa história com a mãe era só uma provocação. A chamar-me velho. Também ninguém a obriga. O que eu acho é que deve ter percebido que estou a pensar nela para o novo romance, até acho que lhe disse qualquer coisa, não me lembro bem, talvez quando chegou ao Pâbe, eu e tu tínhamos estado a falar nisso. Acho que foi para se vingar. Ela às vezes conta coisas, coisas que imagina ou que lhe aconteceram. Eu oiço e tomo notas. Nós os escritores somos assim, não é? E ela às vezes não gosta. Mas esta conversa foi horas depois, é típico, não perdoa, fica a matutar e depois ataca. Disse que se sentia como se o tal Francisco a tivesse inventado. Disse assim mesmo, até tomei nota: inventou o meu passado, inventou a minha mãe, inventou o meu marido, inventou o meu filho. E agora matou-o. Não, é claro que não matei nada e da mãe nem sabia. Metáforas. Mas foi o que ela disse. E acrescentou: para mudar o curso da História. Estás a ver a provocação. A mim, o Francisco de Sá, o Autor. Ou achas que não sou o Francisco? Sou ou não sou o Francisco?”

“Bom, sim, claro que és. O Sá Mendes. Sempre foste, desde que te conheço. Mas não, não sei. Talvez.”

 
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