1
dossiê
LEITURAS DE JULHO

Vícios e Virtudes
Por Helder Macedo

Uma sátira do mundo literário de Portugal por um dos principais autores do país;
leia o primeiro capítulo do romance que está sendo publicado neste mês pela editora Record

Sim não talvez

Tenho estado com freqüência em Lisboa ultimamente. Fico sempre no mesmo quarto no Tivoli, vista para a Baixa, o rio ao fundo, o castelo numa colina um pouco à esquerda, outra colina mais próxima à direita, casas engastadas. A cidade parece pintada de branco ao primeiro sol. Ou uma tela branca ainda só com os desenhos delineados, ruas, árvores, colinas, casas, castelo, rio, a outra banda ainda um morro indistinto do céu, a primeira gente a recortar-se em baixo na Avenida, corpos esparsos. Depois as cores começam a emergir de dentro da tela. Vale a pena acordar de madrugada para ver uma pintura acontecer assim, de dentro para fora.

Quando eu vivia em Lisboa, antes de Londres e dos exílios que se tornaram noutro modo de ver as coisas, era muito novo, não precisava de acordar para observar estas evidências, bastava prolongar a noite até de madrugada. Agora ponho o despertador para não esquecer. Depois vou tomar o café, levo sempre imenso tempo a arranjar-me, mas isso sempre foi assim, trato tão rapidamente quanto possível dos assuntos visíveis que motivaram a viagem, as noites são minhas.

Por vezes partilhadas, tenho amizades permanentes. Mas também deixo algumas frinchas em branco para o que pudesse ter sido, para o que possa ainda ser. Não, mas a sério, até acho que é necessário ir criando espaço para o passado que mais convém ao nosso futuro. Só que nem sempre assim tão a sério, desenho de mão livre, tempos entrecruzados, cores lisboetas, perspectivas do nosso tempo, vidas alheias, às vezes até a dar pra rir como prometiam os anúncios do Condes na minha adolescência.

Dirás tu: é fácil rir quando não é conosco.

Pois é, mas apetece ainda mais quando não tem graça e a gente ri porque não deve.

Exemplo? Aula de Moral no liceu:

“Se a tua mão direita te escandaliza, corta-a.”

Isto numa turma de rapazes em idade de militantes onanismos. Pensando bem não tem graça nenhuma, mas como não rir?

E pior um pouco quando “eu uso a esquerda”, num sottovoce que se destinava a não ser ouvido mas que ressoou num interstício dos risos proibidos. Tinha sido o Sá Mendes, essa é que ninguém esperava.

Ponha-se lá fora, ameaça de expulsão, chamada ao vice--reitor. Mas o liceu era o Passos Manuel, que ainda mantinha a memória de tradições libertárias e até se dizia que o vice--reitor era maçon.

Os alunos, talvez por isso, havia alguns que eram de origens humildes, era assim que se dizia, havia mesmo dois filhos de operários da outra banda que desaguavam nas primeiras aulas de cacilheiros anteriores ao sol. Mas a maioria, convinha não exagerar, meninos da Lapa que não andassem no Valsassina ou se da burguesia mais esclarecida no Colégio Moderno já em treino para coisas futuras, ou sobretudo no Pedro Nunes que ficava mais perto e onde também era garantido que os cacilheiros não chegavam.

O Sá Mendes, o mínimo que se pode dizer é que nunca tinha visto o Sol nascer dum cacilheiro, ou por esse tempo fosse donde fosse, a rotina seria café na cama em bandeja com napperon de bordas rendadas, “bom dia menino Francisco”, a criadita já de avental branco sobre a fosforescente chita da bata preta indo abrir as persianas para um sol também já em pleno exercício das suas obrigações matinais.

E se bem recordo o menino que o Francisco Sá Mendes teria sido, família de gente sólida mas discreta, duvido que mesmo ali no protegido quentinho o seu atrevimento alguma vez tivesse excedido a distração de uma perna de pijama arregaçada a sair dos lençóis a ver se a rapariga olhava e corava. Julgo até que se ela se permitisse tais curiosidades quem teria corado era ele, nessas idades deseja-se mais do que se quer, mas enfim, também ele tinha as suas obrigações. As quais portanto lá teria feito por cumprir no quanto se atrevesse antes de soerguer o corpo para receber a lúbrica bandeja, mas que cumpriu como nunca nenhum de nós imaginara que pudesse na aula de Moral.

É claro que não foi expulso coisa nenhuma. Pelo contrário: roda de herói, bicas na Cinita com a malandragem, cigarrinhos avulso, futebol de bola de trapos até a vizinha do lado de lá do muro se recusar a devolvê-la por causa dos canteiros, gazetas cada vez mais regulares às aulas, gostou, tudo experiências novas, um rapaz transformado. Até descobriu que tinha jeito para escrever, nesse tempo os cafés e as leitarias tinham dessas conseqüências. Mesmo assim deu para entrar em Direito, era a tradição da família, mas meteu-se nas políticas estudantis dos anos 60, teve de ir para as guerras duas vezes, regressou de Angola com um estilhaço na perna e whisky nas veias, mudou para Letras onde ser homem era uma alegria, lá acabou por ser serodiamente despachado nas passagens administrativas do 25 de Abril, e é hoje um escritor daqueles que freqüentam os lançamentos e as entregas de prêmios, à espera de vez, que não pode tardar, ninguém está isento.

Aliás devem conhecê-lo, pelo menos de nome: Francisco de Sá. Um bom nome literário, convenhamos, daqueles que a gente diz logo ah mesmo que não tenha lido, a fazer lembrar alguém. Só que este está nas prosas e é do PS, o que sempre é melhor do que poderia ter sido, nicho discreto mas sólido no aparelho de estado para os intervalos de dar tempo para escrever, tomara eu.

Quanto às prosas, um romance de guerra como toda a gente, a perdoar aos angolanos o estilhaço na perna, com capítulos alternados entre eles e nós até que no último já se não soubesse quem é quem, cheio de fraternidade e de esperança no futuro. Teve foi o azar de sair ao mesmo tempo que as primeiras iconoclastias autoflageladoras do Lobo Antunes, a esperança e a fraternidade diluíram-se na conseqüente algazarra- mais de acordo com os nossos brandos costumes, outrossim manifestados em fogueiras de cristãos-novos, dizimações imperiais, navios negreiros, cacetadas miguelistas, pides, torturas, tarrafais, napalms de África, a Europa conosco e a Cia contente, uma nação de sonhadores.

Coisas que acontecem. O Francisco de Sá no entanto persistiu, encontrou o seu estilo português escrito que ninguém fala, muito menos ele, e depois do azar inicial, que ao menos contava uma história, saiu-se com uns contos sem narrativa e um romance sem gente mas com assonâncias e consonâncias, personagens paradigmáticas estilo A Mulher, A Criança, O Ho-mem, A Vítima, coisa pós--moderna, de escritor do nosso tempo. De antes torcer que quebrar. Exemplo muito citado de diegese disjuntiva na Faculdade de Letras. Sim, está bem, mas o nosso autor não é tão mau como o pinto. Só que o Pinto (gracinha de liceu) é melhor nem pensar. Não, a sério, ele no gênero até não é mau, o gênero é muito pior do que ele, mas há mesmo quem admire os seus livros, não é obrigatório gostarmos da literatura um do outro e embora não seja propriamente amigo amigo, que diabo, sempre andamos juntos no Passos Manuel.

De modo que volta e meia dá para uns copos saudosistas no Procópio, sob o olhar protetor do Zé Cardoso Pires no retrato atrás do balcão dos whiskies a encorajar os sobreviventes que ainda lá persistem a envelhecerem sem dar por isso. Mais recentemente foi logo ali no ponderoso Pâbe, sem proteções, porque fica perto do Tivoli, eu ia a sair da Buchholz quase em frente, e ele filou-me desde as seis da tarde até quase às duas com imparáveis whiskies: “novo, em cálice, só uma pedra de gelo”, um daqueles bebedores de convicções exatas que nunca parece tão bêbedo quanto tem de estar, embora pudesse facilmente ser ele próprio servido em copos, era só sacudir e espremer. Mas dessa vez muito angustiado, a querer contar a alguém, e calhou ter sido eu, uma história do fim para o princípio transposta em diálogo como se já fosse literatura. Mais ou menos assim:

“Não sabia que tinhas um filho. // Agora não tenho. // Desculpa, não era isso que eu queria dizer.” E para mim, em intervenção autoral: “Estás a ver, pá, foi chato. Não tem graça nenhuma, a gente ri porque não deve. Confesso que ri. E ela não gostou, é natural: é fácil rir quando não é conosco. Foi o que ela disse. Estás a ver. Levantou-se, vestiu-se, saiu. Sem mais uma palavra.”

“É chato”, disse eu porque era o que tinha de dizer. Copos são copos, desgostos são desgostos, quando se misturam há que ser solidário.

“Deixei recados. Telefone, fax, correio eletrônico. Mas isso ela não tem. Só telefone com máquina gravadora. Fui de táxi a casa dela. Segundo andar. Apesar da perna. Escadas íngremes sem corrimão. Nada. Tu é que disseste bem: é muito chato.”

O piloto automático avisou-me que a opção prudente teria sido pagar e andar. Mas em Lisboa faço sempre o que posso pela identidade nacional, decidi em vez esclarecer uma dúvida e pronto, mais um whisky, mais uma dúvida, outro whisky, e agora estamos nesta, em dúbia parceria literária.

A minha primeira dúvida foi expressa no tom afirmativo de tá-se logo a ver já estou a topar tudo:

“Vocês estavam na cama.”

“Sabes como é, hoje em dia. As mulheres...”

“Sim, claro, nada contra. É só para situar melhor o diálogo. Vocês nuzinhos na cama e presumo que tivessem estado um em cima do outro.”

“Ainda estávamos. As mulheres... Ela é que devia ter ido para a guerra.”

“Hum. E foi nessa posição que ela te disse que o filho tinha morrido.”

“Na véspera: o meu filho morreu ontem.”

“E tu riste.”

“Já te disse, pá, foi chato. Apanhou-me de surpresa.”

“Porque não sabias que ela tinha um filho. Com direito a morrer.”

“Ahn? Ah, sim. Não sabia. Não viviam juntos. Hoje em dia acontece, não é? Gosta de viver sozinha. Santa Catarina. Vista para o rio. Parece que formidável. Nunca ninguém viu, não deixa ir lá ninguém, é a condição que põe logo. Olha, não sei, gosta de hotéis. Fica caríssimo. Mas também seria um suplício, aquelas escadas. Família no Alentejo. Um monte, propriedades. Latifundiária. Mas mulher moderna. Sabes como é. Relações sem compromisso, quando lhe apetece. Estás a ver. Longas ausências. Meses sem a ver. Até anos. Às vezes anda por aí com uns meninos que podiam ser filhos dela. Porra, pá, isto também foi chato, dado o que aconteceu ao filho. Mas tu és amigo, não faças caso. Só queria saber como é que têm dinheiro para os hotéis. Se calhar com eles paga ela! E depois reaparece como se não fosse nada, como se me tivesse visto na véspera. Estás a ver.”

“Sim, já disseste, mulher moderna.”

Olhou a verificar se eu estaria a ser irônico. Decidiu que não.

“Precisamente. Tu vives lá fora, conheces o gênero.” Pausa para avaliar se o whisky mais recente estava de acordo com as instruções. “Mas ouve lá, tu não achas estranho que eu não tivesse dado por nada? Que não tivesse notado pelo corpo dela?”

Pensei que se estivesse a referir ao estado psicológico da rapariga, à morte do filho anunciada naquelas circunstâncias, a culpabilizar-se por não ter sido sensível à perturbação de que ela certamente teria dado sinais, corpo tenso, uma sexualidade de autopunição, lágrimas reprimidas, sei lá, e ele ali às bombadas até que ela não agüentou mais, o meu filho morreu ontem! Procurei ser amável, não o amachucar mais do que já estivesse:

“Não sei, talvez... Coitada...”, num gesto de isso é normal, são coisas que nos acontecem todos os dias, deixa lá, não penses mais nisso.

Até que percebi que afinal não tinha percebido nada, pois é, já se sabe, sou um sentimental, que ele é que não estava a perceber minimamente a razão da minha compungida solicitude. Donde agora foi mesmo pergunta:

“Notado o quê?”

“Ora. Que tinha tido um filho. Que daquele corpinho tinha saído uma criança. Três quilos de gente.”

“Ah.”

“Não, os seios ainda se entende. Pequenos mas perfeitos. Seios de virgem.”

Eu ainda suficientemente sóbrio para querer temperar-lhe a obsessão alcoólica. Quando sem jeito, alinha-se pelo circunstancial:

“Mais ou menos que idade?”

“Feitas as contas, quarentas. Não pode ter menos. Mas as mulheres, hoje em dia... Sempre na mesma. Contemporâneos na Faculdade, da última vez, de quando voltei de Angola. Ao tempo ela era só cavalos e descapotáveis. Depois poker com os rapazes. A ganhar sempre. Comigo, começou a interessar-se pela perna. A querer saber se tinham pensado em amputá-la. Ela é que devia ter ido para a guerra. Teria saciado a curiosidade. Às vezes punha-se a olhar como se a minha perna não estivesse lá. Queria ver a forma da morte, imaginar os pedaços que não houvesse.”

“Foi o que ela disse?”

 
1