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No lado direito do coronel estava sentado um sacerdote com as longas capas pretas da Igreja grega. Ele não era grudento e matreiro como os gregos, mas sim um homem grande e corado que dava altas gargalhadas e bebia o seu vinho com os oficiais. Esses padres sérvios são pessoas extraordinárias. São professores, que transmitem o patriotismo entre os camponeses. São eleitos ao Skouptchina como deputados dos distritos. - Por que não? --ele perguntou em francês. - Na Sérvia não há nenhum partido clerical. Somos todos um só aqui, hein? --ele se voltara para o coronel, que concordou com a cabeça. - Tenho lutado no exército há três anos, não como padre, mas como soldado sérvio. Sim, nós somos a Igreja do Estado, mas o governo também subsidia as igrejas protestante e católica, e até os hadjis, os muçulmanos que fazem a peregrinação a Meca. Realmente é algo extraordinário. O governo paga aos mufti, especialistas na lei religiosa do islamismo, 10 mil dinares por ano, e o arcebispo metropolitano da Igreja sérvia recebe apenas 10 mil! Nosso povo não esquece que Milan Obrenovitch proclamou a revolução contra os turcos numa igreja de aldeia, com um sacerdote ao seu lado. Nós somos sérvios e homens em primeiro lugar, e padres em segundo. - Ele riu. - Vocês já ouviram a história de como o bispo sérvio, Duchitch, deixou o bispo de Londres chocado? Não? Bem, ele jantaram juntos na Inglaterra. "Vocês têm muita sorte", disse o bispo de Londres, "pelo seu povo. Ouvi dizer que são muito devotos". O senhor Duchitch replicou: "Sim, na Sérvia não confiamos tanto em Deus. Rezamos a Deus durante cinco séculos para que nos livrasse dos turcos, e no final pegamos as armas e nós mesmos fizemos isso!".

Era meia-noite quando tomamos o trem para Belgrado, a menos de 100 quilômetros, mas pela manhã ainda estávamos longe da cidade. Fomos muito devagar, esperando horas nos desvios pela passagem dos trens que iam para o norte carregados de soldados e suprimentos e dos trens vazios que iam para o sul. Estávamos dentro dos limites do exército do Danúbio e na principal artéria militar, que atendia 50 mil homens. Era uma região de montanhas altas e onduladas, aqui e ali uma montanha mais elevada era coroada com as ruínas do castelo de algum senhor feudal do tempo dos turcos. Não havia mais nenhuma pretensão de cultivo. A cada encosta regimentos esfarrapados se abrigavam em escavações que formavam cavernas, ou cobertos por cabanas de barro e palha. Trincheiras talhadas nos declives dos prados cobriam em ziguezague aquele solo de combates duros - nos pontos onde a batalha tinha sido particularmente violenta, os tocos pontudos de grandes carvalhos estavam sem galhos e sem folhas, descascados pelas rajadas de bombas e balas de fuzil.

A estação de trem de Belgrado fora destruída no bombardeio e os penetrantes canhões austríacos destroçaram as estações mais próximas uma a uma, então fomos forçados a descer do trem em Rakovitza, a 10 quilômetros da cidade, e completar o percurso de carroça. A estrada dava voltas por um belo vale fértil, com casas de campo e sedes de fazendas brancas cobertas por volumosos castanheiros em flor. Mais perto da cidade entramos na rua sombria de um imenso parque onde, no verão, o mundo elegante de Belgrado vem mostrar suas carruagens mais belas e seus trajes de passeio mais novos. Naquele momento, as ruas estavam cheias de ervas daninhas, os gramados empoeirados e descuidados. Uma ogiva destruíra o pavilhão de veraneio.

Sob as grandes árvores à beira de um bebedouro decorativo, uma tropa da cavalaria estava parada com os animais amarrados em piquetes, e um pouco mais adiante a quadra de tênis fora desentranhada para servir de plataforma a dois canhões franceses. Os marinheiros franceses do grupo das armas, deitados no gramado, gritaram animadamente para nós. Nossa carruagem tinha pego uma estrada à esquerda, indo na direção do Rio Save, quando de repente ouvimos um estrondo distante e profundo. Era um som diferente de tudo, o duplo estrondo de um grande canhão e o vôo estridente das balas. Bem mais perto, à esquerda, outras armas grandes respondiam. Uma carroça de aluguel com dois cavalos, que galopavam, surgiu próximo a uma curva à frente, e um oficial gordo se debruçou para fora ao passar por nós. - Não vão embora! -gritou ele. - Putzaiyu! Estão atirando na estrada! As baterias inglesas estão respondendo! Demos a volta e pegamos um longo desvio que virava para a direita. Durante cerca de 15 minutos os tiros distantes continuaram, até cessarem completamente.

Um zumbido profundo e constante ficava cada vez mais audível por algum tempo, preenchendo todo o ar. Subitamente irrompeu sobre nossas cabeças o intenso e pesado estampido de uma explosão. Olhamos para o alto. Lá estava, a uma altura incomensurável, cintilante como uma pálida libélula ao sol, um avião planando. Suas partes inferiores tinham círculos concêntricos pintados de vermelho e azul. - Francês! -disse Johnson. Ele virava lentamente para leste e sul. Atrás dele, a menos de 100 metros, segundo me pareceu, a fumaça branca dos fragmentos de uma explosão desabrochou aos poucos. Ainda estávamos olhando quando ouvimos outra arma distante, e mais uma, e os explosivos pipocavam atrás do aeroplano, enquanto ele saía de nossa visão, indo para trás das árvores. Subimos uma colina íngreme e descemos do outro lado por uma estrada branca, reta e não pavimentada. Diante de nós, encarapitada num promontório entre o Danúbio e o Save, estava Belgrado, a Beograd dos sérvios, a Cidade Branca que já era antiga quando eles vieram das montanhas húngaras pela primeira vez, e ainda assim é uma das mais jovens cidades do mundo.

Ao pé da montanha, uma longa fila dupla de prisioneiros austríacos, empoeirados devido à longa marcha de Rakovitza, parados pacientemente sob o sol enquanto dois oficiais sérvios lhes faziam perguntas. - Qual é a sua raça? - Sou sérvio da Bósnia, gospodine --respondeu o prisioneiro, sorrindo. - E você? - Kratti,- croata - das montanhas. - Bem, irmãos - -disse o oficial -, é muito correto da parte de vocês lutarem pelos swabos! - Ah! --respondeu o croata. - Pedimos permissão para lutar com vocês, mas não nos deixaram. Todos riram. - E qual é a sua raça? - Italiano de Trieste. - Tcheco. - Eu sou magiar! -grunhiu um homem atarracado, de rosto inchado, com um olhar de ódio. Era húngaro. - E você? - Sou rumaniassi --disse o último deles, orgulhoso de ser romeno.

Alguns metros adiante havia um grande galpão abastecido com todos os tipos de provisões, forragem, feno e grãos para o exército. No sol forte os prisioneiros austríacos suavam em seu trabalho de encher os carros de boi com sacos de farinha, seus uniformes, mãos e rostos empastados do alimento branco. Um sentinela com uma baioneta andava de um lado para o outro diante deles, e enquanto andava, falava em tom monótono: - Deus abençoe meu avô, Vladislav Wenz, que veio se estabelecer na Sérvia há 40 anos. Se ele não tivesse vindo, eu estaria agora carregando farinha com esses prisioneiros!


Tradução de Ludmila Hashimoto Robinson

John Reed
Nasceu em Portland, Oregon (EUA), em 1887, e morreu na Rússia, em 1920. Foi enterrado no Kremlin. Jornalista e escritor, apoiou a Revolução Comunista de 1917, sobre a qual escreveu em "Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo". É considerado um dos criadores do jornalismo moderno.



Livro: Guerra dos Bálcãs
Autor: John Reed
Tradução: Ludmila Hashimoto Robinson
Preço: R$ 35,00; 280 págs.
Editora: Conrad


 
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