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dossiê
LEITURAS DE JULHO

Guerra dos Bálcãs
Por John Reed

O jornalista americano narra os conflitos que testemunhou nos confins da Europa durante a Primeira Guerra, num lançamento da Editora Conrad

Cedo na manhã seguinte, estávamos a caminho de Kraguijevatz, o quartel-general do exército. Nosso trem estava carregado com munição e farinha norte-americana para as tropas do front, e levávamos cinco vagões cheios de soldados, com peles de carneiro, roupas de camponês e uniforme austríaco apanhados na derrota de dezembro - um homem usava até um elmo alemão. Eles cantavam uma balada interminável num tom mais baixo, sobre como o velho rei Peter foi para as trincheiras durante a batalha do Rio Kolubara:

Kral Peter levantou-se da cama uma manhã
E disse ao seu querido e amado filho, príncipe Alexander,
"Oh, bravo e corajoso príncipe, meu filho
Que conduz tão bem o exército sérvio,
Os swabos passaram por Krupaign -
Suas poderosas hostes, como o apressado Morava,
Passaram por Valievo...
Devo seguir adiante para vencer ou morrer com eles!"
Ele o cingiu com sua espada brilhante...

A estrada de ferro era paralela ao rio Morava. Aqui tudo era verde, e na terra preta dos campos mulheres aravam com bois e enrolavam lã nas rocas enquanto aravam. Casas brancas e baixas com telhas, com sacadas salientes de graciosas arcadas turcas, os cantos pintados com losangos coloridos, ficavam escondidas entre ameixeiras e macieiras floridas. Além delas estendiam-se prados sob a água, onde milhares de sapos se uniam num coro imenso de coaxos, audível apesar do ruído do trem - o Morava estava cheio. Passamos por Teshitza, Bagrdan, Dedrevatz, Lapovo, todas com cheiro de formol e manchadas com o branco sinistro da cal, todas pestilentas.

Em Kraguijevatz, fomos recebidos por um representante da Agência de Notícias, anteriormente professor de literatura comparada da Universidade de Belgrado. Era um homem jovem de feições amplas, distraído com os joelhos gordos cobertos por uma calça de montaria branca. Tinha um chapéu de feltro verde-intenso caído sobre a orelha e um brilho malicioso nos olhos. Em duas horas nós o estávamos chamando de Johnson, que é uma tradução literal de seu nome. Johnson conhecia todo o mundo, e todos o conheciam. Ele fez um longo comentário sobre escândalos envolvendo pessoas por quem passávamos e fazia o táxi parar por longos períodos, quando saía e trocava as últimas fofocas maliciosas com algum amigo. Até que gritávamos: - Pelo amor de Deus, Johnson, ande logo! - Desculpe, senhor - ele respondia solenemente. - Têm de ter paciência. Estes são tempos de guerra!

Quando encontramos o chefe da Agência de Notícias, antigo professor de direito público da Universidade de Belgrado, ele estava concentrado no trabalho, lendo um romance de George Meredith. Johnson explicou que a Agência de Notícias era uma organização muito ativa e importante. - Fazemos aqui muitas piadas sobre pessoas importantes, epigramas e rimas. Por exemplo, um dos conspiradores no assassinato do arquiduque Ferdinand era oficial do exército sérvio durante a retirada. Ele temia ser reconhecido caso fosse preso, e por isso raspou a barba. Na Agência de Notícias fizemos um soneto sobre ele, no qual dizíamos que ele raspara a barba em vão, pois não era possível raspar seu nariz proeminente! Sim, senhor. Na Agência de Notícias fazemos às vezes 200 sonetos num dia. Johnson era um dramaturgo notável. Havia transplantado para o palco sérvio a Comédie Rosse do Teatro Antoine, e foi detestado pela sociedade respeitável. - Porque - -explicou ele- - minha peça era obscena. Mas era uma verdade na vida sérvia, e este é o ideal da arte, vocês não acham?

Johnson estava saturado pela cultura européia, o requinte, o cinismo e o modernismo europeus. No entanto, abaixo da superfície encontrava-se o sérvio, a linhagem forte e viril de uma raça não muito distante do campesinato rústico das montanhas, intensamente patriota e intensamente independente. Mas muitos "intelectuais" sérvios são como a cidade de Belgrado, onde apenas três anos antes os camponeses conduziam seus carros de bois rangendo pelas ruas não pavimentadas, afundando na lama entre as casas, térreas como as de Nish, que agora adquiriu os prédios, a pavimentação, os ares e os vícios de Paris e Viena. Eles têm preferência pela arte moderna, música moderna, o tango e o foxtrote. Eles ridicularizam as músicas e os costumes dos camponeses. Às vezes essa afetação é ridícula. Andamos um dia inteiro a cavalo pelo campo de batalha da montanha Goutchevo com um jovem oficial, também do corpo docente da universidade, que vivera durante três anos como um lutador nômade, uma vida que nenhum inglês, nenhum francês, nenhum alemão teria suportado. Ele tivera a terrível experiência da retirada e o ainda mais terrível ataque daquela campanha de inverno, dormindo ao relento na chuva ou em cabanas cheias de parasitas, ingerindo a comida grosseira dos camponeses ou ficando sem comer, e prosperando assim mesmo. - Eu gosto tanto do campo! --disse ele enquanto cavalgávamos. - É tão pastoral, vocês não acham? Sempre me lembro da Sinfonia Pastoral de Beethoven quando estou no campo. - Ele assobiou alguns compassos distraidamente. - Não, eu errei. Essa é a terceira, não é? Descobrimos mais tarde que seu pai era camponês, e todos os seus antepassados, desde que os sérvios vieram pela primeira vez das planícies da Hungria, tinham sido camponeses e vivido neste "campo" que o fazia recordar apenas Beethoven! E na Sérvia eles ainda se sensibilizam com a comédia Arms and the Man, de G.B. Shaw...

Jantamos no rancho comum do Estado-maior, na rude sala do trono do palácio de Milan Obrenovitch, primeiro rei sérvio. Seu trono de pelúcia vermelha e dourada ainda está lá, e nas paredes estão os retratos de Milosh Obilich e outros heróis da turbulenta história sérvia e dos líderes comitadjis sérvios que morreram nas mãos dos turcos na Macedônia nos anos que antecederam a Guerra dos Bálcãs. - Este palácio é um de nossos monumentos nacionais mais antigos - -disse Johnson. - Foi construído há mais de 50 anos. Impressionante é a juventude do reino da Sérvia. Menos de cem anos se passaram desde que ela emergiu como um estado livre dos cinco séculos de dominação turca - e durante esse tempo que história ela já teve! O sonho secreto de todos os sérvios é a união de todos os povos sérvios num grande império: a Croácia húngara, idêntica na raça e na língua falada, a Dalmácia, lar da literatura sérvia, a Bósnia, fonte mestra da poesia e canção sérvias, e Montenegro, Herzegovina e Eslovênia. Um império de 15 milhões, abrangendo da Bulgária ao Adriático, e de Trieste, leste e norte, à grande distância nas planícies da Hungria, que liberará as energias do povo guerreiro e diligente do reino da Sérvia, encerrado em seus estreitos vales de montanhas, para a exploração do país de ricas planícies e a vida poderosa de navios ao mar. Todo soldado camponês sabe por que está lutando. Quando era um bebê, sua mãe o saudava: "Salve, pequeno vingador de Kossovo!" (Na batalha de Kossovo, no século XIV, a Sérvia foi anexada ao domínio turco.) Quando fazia algo errado, sua mãe o repreendia da seguinte forma: "Desse jeito você não libertará a Macedônia!". A cerimônia de passagem da infância à adolescência era marcada pela narrativa de um poema antigo, "Ja sam Serbin", que começa assim:

Sou sérvio, nascido para ser soldado,
Filho de Iliya, de Milosh, de Vasa, de Marko.

(Heróis nacionais, cujos feitos são detalhados em seguida.)

Meus irmãos são numerosos como as uvas no vinhedo,
Mas têm menos sorte que eu, filho da Sérvia livre!
Portanto devo crescer rápido, aprender a cantar e atirar,
Para que logo possa ajudar aqueles que contam comigo!

Nas escolas sérvias, as crianças aprendem não apenas a geografia da velha Sérvia, mas de todas as terras sérvias, na ordem de sua redenção: primeiro a Macedônia, depois Dalmácia, Bósnia, Herzegovina, Croácia, Banat e Batchka! Agora Kossovo foi vingado e a Macedônia libertada, no tempo de vida desses soldados que ouviram suas mães e jamais esqueceram que seus "irmãos são numerosos como as uvas no vinhedo". Mas mesmo enquanto estávamos na Sérvia, houve ameaças de novas complicações. - E se a Itália tomar a Dalmácia? - -perguntei a um funcionário do governo. - Isso é um sério agravante - -respondeu ele. - Significa que, depois de termos nos recuperado desta guerra, teremos de lutar novamente!

Um oficial mais velho que conhecemos depois disse, com uma espécie de entusiasmo venerável: - Pensávamos que esse sonho da Sérvia livre ia se realizar, mas só depois de muitos anos, muitos anos. E aí está ele, realizado no nosso tempo! Isso é algo pelo qual se deve morrer! E o menino que cantou "Filho da Sérvia Livre" fez de seu país um dos mais democráticos do mundo. Ele é governado pelo Skouptchina, um parlamento unicameral eleito por sufrágio universal e com representação proporcional. O senado, conhecido zombeteiramente como "Museu", foi abolido em 1901. O rei Alexander tentou governar de forma autocrática e foi assassinado. O rei atual é estritamente uma figura decorativa, limitado pela constituição liberal. Não há aristocracia na Sérvia, apenas o irmão do rei e os filhos do rei são príncipes, e ao príncipe herdeiro regente os ultrademocratas e socialistas negam até mesmo o título, referindo-se a ele sempre como o "Signatário Manifesto". A rainha Draga tentou estabelecer uma ordem de nobreza, mas - como disse Johnson, rindo: "nós demolimos ela". Os grandes proprietários de terra da Romênia são desconhecidos na Sérvia. Aqui todo camponês tem direito a 2 hectares de terra, inalienável por dívidas ou impostos. Ele junta terras com seus filhos e filhas, sobrinhos e sobrinhas, até que por toda a Sérvia haja propriedades cooperativas conhecidas como zadrougas, nas quais gerações de famílias com suas ramificações vivem juntas com a posse comum de todas as suas propriedades. E até agora não há população industrial na Sérvia, e poucos ricos.

Naquela noite ouvimos a dramática história da grande vitória sérvia de dezembro. Duas vezes os austríacos invadiram o país, duas vezes foram expulsos, e as ruas de Valievo ficaram sobrecarregadas de feridos caídos na chuva. Mas na segunda vez os inimigos mantiveram Shabatz, Losnitza e as duas províncias ricas de Machva e Podrigna, e os cumes de Goutchevo. Os sérvios não conseguiram desentocá-los de suas posições fortemente entrincheiradas. Depois, no clima inóspito de dezembro, os austríacos começaram a terceira invasão, com 500 mil homens contra 150 mil. Atravessando a fronteira em três pontos bastante separados, romperam as linhas sérvias e empurraram o pequeno exército para trás, entre as suas montanhas. Belgrado estava abandonada ao inimigo. Duas vezes os sérvios resistiram desesperadamente e duas vezes foram forçados a retroceder. Começou a faltar munição: o canhão tinha menos de 20 balas cada um. O inimigo passou por Krupaign e Valievo, e estava a 70 quilômetros de Kraguijevatz, sede geral do Estado-maior da Sérvia.

Em seguida, no último minuto, algo aconteceu. Novos fornecimentos de munição chegaram de Salônica, e os oficiais mais jovens se revoltaram contra os mais velhos e mais cautelosos, gritando que era tão aconselhável morrer atacando quanto ser massacrado dentro das trincheiras. O general Michitch ordenou uma ofensiva. Os sérvios, exaustos, correndo de suas trincheiras, assaltaram as lentas colunas austríacas que vinham pelos estreitos desfiladeiros para atacar. Pegos em marcha, carregados com grandes armas e pesados trens de carga nas estradas quase intransitáveis pela lama, os austríacos resistiram furiosamente, mas foram forçados a retroceder. A linha de combate foi rompida. O centro de comando, destruído por Michitch e o primeiro exército, desfez-se e fugiu para o outro extremo do país, abandonando bagagem, munição e armas e deixando para trás milhares de mortos e feridos, e os hospitais abarrotados de homens delirando com tifo. Foi assim que o tifo, que começou em algum lugar nas planícies húngaras, entrou na Sérvia com o exército austríaco. Durante algum tempo a ala esquerda tentou tomar Belgrado, mas os sérvios, exultantes e esfarrapados, os levaram literalmente para dentro do rio Save e atiraram neles enquanto saíam nadando. Essa grande batalha, que Voyvoda Michitch relatou laconicamente num telegrama orgulhoso -"Não restou nenhum soldado austríaco no solo sérvio, a não ser prisioneiros"- - não recebeu nenhum nome. Uns a chamam de Batalha do Rio Kolubara e outros de Batalha de Valievo. Mas ela foi talvez o feito mais incrível de exércitos em toda a grande Guerra Mundial.

 
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