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“As Weltanschahuungen e as ideologias do século XIX não são totalitárias nelas mesmas, e, ainda que o racismo e o comunismo tenham se tornado as ideologias decisivas do século XX, elas não eram, no princípio, mais ‘totalitárias’ que as demais; isso ocorreu porque os princípios sobre os quais na sua origem repousava a experiência delas -a luta das raças pela dominação do mundo, a luta das classes para a tomada do poder político nos diferentes países- revelaram-se mais importantes em termos políticos que os das demais ideologias”.

Mas essa primeira resposta não explica por que o racismo é a ideologia do totalitarismo alemão -ao passo que a luta de classes (ou ao menos uma das suas versões) é, ou foi, a do totalitarismo soviético.

Daí a necessidade de darmos uma segunda resposta, dessa vez específica, com relação ao nacional-socialismo, e dentro da qual nós tentaremos fazer intervir do modo mais rigoroso o conceito de mito. Essa resposta, na sua estrutura elementar, pode se articular em duas proposições:

1. é porque o problema alemão é fundamentalmente um problema de identidade que a figura alemã do totalitarismo é o racismo;

2. é porque o mito pode se definir como um aparelho de identificação que a ideologia racista foi confundida com a construção de um mito (e nós entendemos com isso o mito do ariano, na medida em que ele foi elaborado deliberada, voluntária e tecnicamente como tal).

Dito secamente, é isso o que nós gostaríamos de mostrar.


Tradução de Márcio Seligmann-Silva


Jean-Luc Nancy e Philippe Lacoue-Labarthe
São filósofos franceses. Nancy lançou neste ano "La Création du Monde" (Galilée) e "Le 'Il y a' du Rapport Sexuel" (Galilée), e Lacoue-Labarthe publicou "Poétique de l'Histoire" (Galilée).

Livro: O Mito Nazista
Autores: Jean-Luc Nancy e Philippe Lacoue-Labarthe
Tradução: Márcio Seligmann-Silva
Preço: R$ 23,00; 96 págs.
Editora:Estação Liberdade


1 - Op. cit., pág. 218.

 
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