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dossiê
LEITURAS DE JULHO

O mito nazista
Por Jean-Luc Nancy e Philippe Lacoue-Labarthe

Dois filósofos franceses desmontam as interpretações sobre o fascismo, em lançamento da Editora Iluminuras

1) O texto que segue foi originalmente uma apresentação relativamente breve, realizada no dia sete de maio de 1980 no Colóquio sobre “Os Mecanismos do Fascismo” organizado pelo Comitê de Informação sobre o Holocausto, em Schiltigheim. No quadro fixado por esse tema, nós não havíamos procurado apresentar outra coisa além de um esquema para análises que exigem outros desenvolvimentos. Se nessa nova apresentação nós modificamos um pouco nosso texto, ele ainda não deixa de ser esquemático.

2) Não somos historiadores -e ainda menos historiadores especializados no estudo do nazismo. Portanto, não esperem de nós uma descrição factual dos mitos ou dos elementos míticos do nazismo; nem uma descrição da exumação e da utilização, por parte do nazismo, de todo um material mitológico antigo, considerado particularmente como especificamente alemão.

Que se espere isso tanto menos na medida em que, descontado o nosso desconhecimento (nós lemos pouco da abundante e monótona literatura da época), estimamos que esse fenômeno é relativamente superficial e secundário: como todo nacionalismo, o nazismo tomou da tradição que ele fez sua, a tradição alemã, um certo número de elementos simbólicos, entre os quais os elementos propriamente mitológicos não são os únicos nem provavelmente os mais importantes. Em outras palavras, como todo nacionalismo, o nazismo exaltou de um modo passadista a tradição histórico-cultural alemã ou mais largamente germânica (ou que se poderia tentar anexar a um germanismo). Mas nessa exaltação -que reanima tanto o folclore e a Volkslied, o imaginário do campo do pós-romantismo e das cidades da Hansa, as “ligas” (Bünde) estudantis antinapoleônicas, as corporações medievais, as ordens cavaleirescas, o Sacro-Império etc.-, uma mitologia (digamos, a de Erda, de Odin e de Wotan) já há muito em desuso, apesar de Wagner e de alguns outros, não poderia contar a não ser para alguns intelectuais e artistas, a rigor, para alguns professores ou educadores. Em suma, esse tipo de exaltação não possui nada de específico (assim como a exaltação de Joana d’Arc pelo Estado francês de Pétain). Ora, o que deve nos interessar aqui é a especificidade do nazismo. E ela deve nos ocupar de tal modo que o questionamento de uma mitologia, dos seus suspeitos prestígios e das suas “brumas”, não sirva, como às vezes ocorre, de expediente fácil e, no fundo, de procedimento dilatório (e um pouco racista, ou, ao menos, vulgarmente antialemão) para se evitar a análise.

Eis por que nós não falaremos aqui dos mitos, no plural, do nazismo. Mas unicamente do mito do nazismo, ou do mito nacional-socialista como tal. Ou seja, da maneira como o nacional-socialismo, usando ou não os mitos, constitui-se na dimensão, na função e na segurança propriamente míticas.

Eis por que nós também evitaremos desvalorizar os mitos do nazismo no sentido que uma análise crítica extremamente fina (a de Roland Barthes) pôde fazê-lo, utilizando ao mesmo tempo os instrumentos da sociologia, do marxismo (brechtiano) e da semiologia, desmontando os mitologemas que estruturavam, há pouco, o inconsciente sociocultural da pequena-burguesia francesa. Diante de um fenômeno de uma amplidão e do peso como no caso do nazismo, uma análise desse gênero não teria, estritamente falando, nenhum interesse -nem mesmo, temos certeza, pertinência. 2) O que nos interessa -e que nos prenderá a atenção no nazismo- é essencialmente a ideologia, no sentido que Hannah Arendt definiu esse termo no seu ensaio sobre o sistema totalitário. Ou seja, a ideologia como a lógica, realizando-se totalmente (e nascendo de uma vontade de realização total), de uma idéia que “permite explicar o movimento da história como um processo único e coerente” . “Supõe-se”, diz ainda Hannah Arendt, “que o movimento da história e o processo lógico dessa noção correspondem ponto por ponto, de tal modo que tudo o que acontece, acontece conforme à lógica de uma idéia”.

O que em outros termos nos interessa e nos prenderá a atenção é a ideologia enquanto, por um lado, ela se propõe sempre como uma explicação política do mundo, ou seja, como uma explicação da história (ou, se preferirmos, da Weltgeschichte, entendida não tanto como “história mundial”, mas antes como “mundo-história”, mundo que é feito apenas de um processo e da sua necessidade autolegitimante) a partir de um conceito único: o conceito de raça, por exemplo, ou o conceito de classe, a saber, o de “humanidade total”; e, por outro lado, na medida em que essa explicação ou essa concepção de mundo (Weltanschauung: visão, intuição, abarcar compreensivo do mundo -termo filosófico que o nacional-socialismo, como veremos mais adiante, usou abundantemente) quer-se uma explicação ou uma concepção total. Essa totalidade significa, no mínimo, que a explicação é indiscutível, sem resto nem falha, contrariamente aos pensamentos da filosofia da qual, entretanto, ela retira sem pudor a maior parte dos seus recursos, mas que caracterizam o estilo arriscado e problemático, a “insegurança”, como diz Hannah Arendt, dos seus questionamentos. (Aliás, daí resulta que a filosofia seja igualmente rejeitada por parte das ideologias que as solicitam e enviada ao campo da incerteza e às hesitações covardes da “intelectualidade”: a história dos filósofos e/ou ideólogos do e no nazismo é bem clara quanto a esse ponto.)

Ter-se-ia de mostrar de modo rigoroso aqui quais relações a ideologia, concebida como Weltanschauung total, possui com o que Hannah Arendt denomina “dominação total”, ou seja, antes de mais nada, com o que Carl Schmidt, permitindo-se ao mesmo tempo um discurso propriamente fascista (o de Mussolini e de Gentile) e um conceito jüngeriano de “mobilização total” (encarregado de dar uma primeira definição da técnica como potência total e mundial), chamou de Estado total.

Ter-se-ia de mostrar ainda de modo rigoroso como o Estado total deve ser considerado de fato Estado-Sujeito (este sujeito -trate-se da nação ou da humanidade, da classe, da raça ou do partido- sendo ou se querendo sujeito absoluto), de tal modo que é, em última instância, na filosofia moderna ou na metafísica acabada do sujeito, que a ideologia encontra, apesar de tudo, a sua verdadeira garantia: ou seja, nesse pensamento do ser (e/ou do devir, da história) como subjetividade presente a si, suporte, fonte e fim da representação, da certeza e da vontade. (Mas ter-se-ia também de recordar com precisão como a filosofia que se torna ideologia implica também -e ao mesmo tempo- esse fim da filosofia do qual Heidegger, Benjamin, Wittgenstein e Bataille deram um testemunho múltiplo mas simultâneo.)

Ter-se-ia de mostrar de modo rigoroso, finalmente, que a lógica da idéia ou do sujeito realizando-se assim é antes de mais nada, como podemos ver em Hegel, a lógica do Terror (que no entanto, nela mesma, não é propriamente fascista, nem totalitária), e é em seguida, no seu último desenvolvimento, o fascismo. A ideologia do sujeito (o que, talvez, não seja senão um pleonasmo), é isso o fascismo, a definição valendo, entenda-se bem, para hoje. Nós evocaremos ainda esse ponto: mas é claro que a demonstração que ele exige ultrapassa os limites deste exposé.

Se nós continuamos, no entanto, a insistir um pouco sobre esse tema, é na verdade para marcar nossa desconfiança e nosso ceticismo, quando se trata do nazismo, com relação à acusação apressada, brutal e na maior parte do tempo cega, de irracionalismo. Pelo contrário, existe uma lógica do fascismo. O que também quer dizer que uma certa lógica é fascista, e que essa lógica não é simplesmente estranha à lógica geral da racionalidade na metafísica do sujeito. Nós não dizemos isso apenas para sublinhar a que ponto uma certa oposição herdada, às vezes dentro da ideologia nazista, às vezes com respeito a ela, entre mythos e logos, oposição aparentemente elementar, é de fato muito complexa (teríamos de ler sobre esse tema, entre outros, vários textos de Heidegger); nós tampouco dizemos isso apenas para recordar que, como todo totalitarismo, o nazismo reivindicava uma ciência, ou seja, mediante a totalização e a politização do Todo, a ciência; mas nós o dizemos antes de mais nada porque se decerto não devemos esquecer que um dos componentes do fascismo é a emoção, da massa, coletiva (e essa emoção não é apenas a emoção política: ela é, ao menos até um certo ponto, na emoção política a emoção revolucionária), não devemos tampouco esquecer que a mencionada emoção conjuga-se sempre a conceitos (e esses conceitos podem muito bem ser, no caso do nazismo, “conceitos reacionários”, não perdendo assim nada do seu caráter de conceito).

Nós simplesmente acabamos de recordar uma definição de Reich da Psicologia de Massas do Fascismo: “Conceitos reacionários juntando-se a uma emoção revolucionária tem como resultado a mentalidade fascista”. O que não significa, nem na literalidade desse texto e nem para nós, que toda emoção revolucionária esteja condenada ao fascismo, nem que os conceitos com reputação de “progressistas” estejam sempre, por eles mesmos, ao abrigo de um contágio fascista. Trata-se sem dúvida, a cada vez, de uma maneira de “fazer mito”, ou de não o fazer.

4) No interior do fenômeno geral das ideologias totalitárias nós nos detemos aqui sobre a diferença específica, ou sobre a natureza própria do nacional-socialismo.

Nesse plano onde nós entendemos nos situar, essa especificidade pode ser visada, de resto, de um modo totalmente clássico, a partir de dois enunciados:

a. o nazismo é um fenômeno especificamente alemão;

b. a ideologia do nazismo é a ideologia racista.

Da conjunção desses dois enunciados não devemos evidentemente deduzir que o racismo é apanágio exclusivo dos alemães. Nós conhecemos o suficiente o lugar ocupado pelos autores franceses e ingleses nas origens da ideologia racista. Também aqui não se espere de nós um questionamento simplificador e cômodo da Alemanha, da alma alemã, da essência do povo alemão, da germanidade etc. Pelo contrário.

É incontestável que existiu e talvez ainda exista um problema alemão. A ideologia nazista foi um tipo de resposta a esse problema, totalmente determinada, politicamente determinada. E não existe dúvida quanto ao fato de que a tradição alemã e em particular a tradição do pensamento alemão não é de modo algum estrangeira a essa ideologia. Mas isso não quer dizer que aquela seja responsável por esta e, portanto, condenável por inteira. Existe um abismo entre uma tradição de pensamento e a ideologia que vem, sempre de modo abusivo, inscrever-se sobre ela. O nazismo não está mais em Kant, em Fichte, em Hölderlin ou em Nietzsche (todos pensadores solicitados pelo nazismo) -ele não está mesmo, no limite, mais no músico Wagner- do que o Gulag está em Hegel ou em Marx. Ou o Terror, com toda simplicidade, em Rousseau. Do mesmo modo, qualquer que tenha sido a sua mediocridade (com a qual deve-se, no entanto, pesar toda a sua ignomínia), o pétainismo não é razão suficiente para invalidar, por exemplo, Barrès ou Claudel. Deve-se condenar apenas o pensamento que se coloca deliberadamente (ou confusamente, emocionalmente) a serviço de uma ideologia e abriga-se atrás dela ou procura aproveitar da sua potência: Heidegger durante os primeiros dez meses do nazismo, Céline sob a Ocupação e um bom número de outros, nessa época ou desde então (e em outros lugares).

Desse modo nós somos levados a acrescentar ainda esse detalhamento: na mesma medida em que nos cabe aqui pôr a nu os traços específicos de uma figura que a história nos passou como “alemã”, do mesmo modo, no entanto, nossa intenção está longe de querer apresentar essa história como objeto de um determinismo, tomando-se esse conceito sob o modelo do destino ou o de uma causalidade mecânica. Uma tal visão das coisas pertenceria antes e precisamente ao “mito” tal como queremos analisá-lo. Nós não propomos aqui uma interpretação da história como tal. Nosso tempo sem dúvida encontra-se ainda carente de meios para poder desenvolver, nesse domínio, interpretações que não estejam mais contaminadas pelo pensamento mítico ou mitificante. É para além deste que a história como tal espera ser pensada novamente.

Portanto, a tarefa aqui é a de compreender antes de mais nada como pôde se formar a ideologia nazista (o que tentaremos descrever como o mito nazista) e, mais precisamente, por que a figura alemã do totalitarismo é o racismo.

Existe uma primeira resposta para essa questão, fundada sobre a noção de eficiência política (e na verdade também técnica) da qual, no fim das contas, Hannah Arendt propõe a fórmula básica, por exemplo, em frases como essas:

1 - Philippe Lacoue-Labarthe apresentou tais desenvolvimentos em La Fiction du Politique, Paris, Bourgois, 1988, e em Musica Ficta (Figures de Wagner), mesma editora, 1991; J.-L. Nancy os propôs em La Communauté Désœuvrée e em La Comparution (com Jean-Christophe Bailly), na mesma editora, em 1986 (2a. ed., 1988) e em 1991. A versão americana deste texto foi publicada em Critical Inquiry, University of Chicago Press, Winter 1990.


2 - Mais ainda: a desmontagem das “mitologias” no sentido de Barthes pôde tornar-se, nos nossos dias, parte integrante de uma cultura ordinária veiculada pelas mesmas “mídias” que produzem essas mitologias. De modo geral, a denúncia dos “mitos”, das “imagens”, das “mídias” e da “aparência” faz parte agora do sistema mitológico das mídias, das suas imagens e das suas aparências. O que equivale a dizer que o mito verdadeiro, se é que ele existe, aquele que gera adesão e identificação, encontra-se mais sutilmente escondido, e agencia a partir daí, talvez, toda a cena (caso necessário, como mito da denúncia dos mitos...). Do mesmo modo, nós veremos que o mito nazista encontra-se escondido atrás das figuras mitológicas determinadas, das mitologias germânicas assim como das demais.


3 - The Origins of Totalitarism, na tradução francesa de J.L. Bourget, R. Davreu, P. Lévy, Paris, Seuil, 1972, pág. 217.


4 - Cf. quanto a essa história, Hans Sluga, “Heidegger, Suite Sans Fin”, Le Messager Européen, Paris, POL, n. 3, 1989.


5 - O Terror não deriva -ao menos de modo completo, evidente, ou... nazismo, onde a imanência da raça- do solo e do sangue -absorve toda transcendência. Resta no Terror o elemento de uma transcendência clássica (da “nação”, da “virtude” e da “república”). Mas essa diferenciação, necessária para uma descrição justa, não conduz nem à reabilitação do Terror nem à reivindicação de uma transcendência contra a imanência: esse gesto, muito difundido hoje, parece-nos igualmente tão mítico ou mitificante quanto o gesto inverso. Na verdade nós temos necessidade de pensar fora da oposição e da dialética desses termos.


6 - Essa referência exigiria dois desenvolvimentos distintos: por um lado, sobre a complexidade do casal mythos/logos tal como Heidegger permite o vislumbrar, mas também, por outro lado, sobre a relação que Heidegger reivindica com uma dimensão mítica do pensamento, relação que evidentemente não era estranha ao seu nazismo (nós aludimos a esse fato mais adiante).

 
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