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novo mundo
ÁUDIO

A voz da Web
Por Giselle Beiguelman



Detalhe de Space.Navigable Music

Áudio on line linka o som à imagem e ao espaço

Se existe uma área em que a internet mostrou no que e por que é uma nova mídia, foi na das realizações que utilizam áudio.

Ainda está por vir o sujeito que fará uma leitura crítica da bomba-Napster e tudo aquilo que significou a disseminação das práticas de compartilhamento de arquivos baseados em sistemas P2P (peer to peer, ou pessoa a pessoa).

Isso implicou mudanças culturais, estéticas e epistemológicas, mas eu ainda vou esperar essa pessoa dar as caras para emitir alguma opinião mais interessante do já dito por “n” feras do download.

Modestamente, não se trata aqui de música, de indústria fonográfica, formatos ou de composição. Trata-se sim, de som, de ruído, barulho e outras audibilidades.

Algo como “Lumicon” do alemão Holger Lippmann, que faz picadinho dos recursos do shockwave e combina imagens e sons hipnoticamente, aplicando estratégias fotográficas ao som e vice-versa.

O resultado é bem diferente de um videoclipe. É algo mais próximo de uma “fotofonografia” que transforma a luz em condição do áudio e faz qualquer um sonhar com o dia em que entrará de cabeça em seções alucinadas de Webjing...

É possível passar horas olhando-ouvindo o “Lumicon”. Dá para ficar dias visitando outros trabalhos do artista, como o “Popular” e o “Struct”. Difícil dizer qual é o mais interessante, tamanha a variedade de combinações que cada um possibilita.

Bem divertidas, mas não tão ricas esteticamente, são as pirotecnias ameaçadoras da mexicana Bakteria.org, que abriga os trabalhos “infecciosos” de arcangel-constantini nos quais muita gente é viciada...

Mais complexo, do ponto de vista da interface e de objetivos, é o “Space Navigable Music” do laboratório de arquitetura e urbanismo LAB[au], formado por três arquitetos belgas (Manuel Abendroth, Jérôme Decock e Alexandre Plennevaux ), que pesquisam formas de manipulação de linguagens 3D (como o VRML) em tempo real.

Muito criativo, o trio constrói espaços artificiais cuja especificidade reside no fato de transformar o som em ambiente imersivo. Pode-se arrastar os sons para dentro do espaço, navegar pelo áudio, mixar cores e imagens e, ainda, gravar os movimentos de deslocamento e produzir animações baseadas nesse mundo de realidades virtuais.

Com um enfoque completamente distinto, “netsong”, um outro projeto baseado na exploração de áudio on line chama a tenção para os vínculos entre som e espaço.

Concebido por Amy Alenxader, uma das cabeças por trás e à frente da plagiarist.org, e seu irmão, Peter Traub, “netsong” é um programa de busca sui generis, que compõe músicas a partir das palavras, frases ou termos pesquisados.

As composições são realmente para lá de únicas, porque o “netsong”, na verdade, não se preocupa em dar respostas precisas. Ao contrário, ele segue os links da página encontrada, os links dos links apontados e assim por diante, até chegar em um ponto cego, ou seja, sem links, e daí volta ao ponto de partida e começa a vasculhar outros links, incessantemente.

Além de escutar a busca, cantada entre muitos https, barras, barras, dois pontos e infinitos www, é possível também escutar a busca de outra pessoa (caso alguém esteja utilizando o programa simultaneamente) e conferir as “letras”, que são as listas dos inúmeros links percorridos.

Complicado? Bom, é para ouvir e não para ler. Sintonize, aumente o volume e escute os links. Afinal, essa é verdadeira voz da web, não é mesmo?

link-se
Lumicon - http://www.lumicon.de
Popular - http://www.lumicon.de/popular/
Struct - http://www.struct.de/
Bakteria - http://www.bakteria.org/
Space.Navigable Music - http://www.lab-au.com/space/
Netsong - http://www.netsong.org/

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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