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ARTE É RISCO

"Limite" e Mario Peixoto: dois mitos no documentário "Onde a Terra Acaba"
Por Alessandro Giannini



Divulgação

Aristocrata, homossexual, escritor e cineasta, Mario Peixoto (1908-1992) dirigiu “Limite” (1931) com apenas 23 anos de idade. Foi seu único filme, um marco da modernidade pelo qual o cinema brasileiro passou batido. Nunca mais concluiu um segundo projeto, embora tenha feito pelo menos duas tentativas. Viveu o resto de seus dias alimentando o mito em torno de si mesmo e sobrevivendo do que se produzia dele.

O homem e o mito são personagens de “Onde a Terra Acaba”, documentário do cineasta baiano Sérgio Machado, 33 anos, que está em cartaz nos cinemas do Rio de Janeiro e São Paulo.

Co-roteirista de “Abril Despedaçado” (2001) e “Madame Satã” (2002), Machado tem apenas dois documentários (“Bagunçaço”, 1994, e “Três Canções Indianas”, 1995) e um curta-metragem (o episódio “Agora é Cinza” do longa “3 Histórias da Bahia”) no currículo.

O título do filme foi emprestado do segundo filme de Mario Peixoto, encomendado pela atriz Carmem Santos logo após “Limite” e jamais concluído. Machado passou dois anos pesquisando nos arquivos de Peixoto. Depositados no quinto andar da produtora VídeoFilmes, sob a vigilância de Saulo Pereira de Mello, contém diários, roteiros, latas de filmes, um acervo vastíssimo. O documentarista teve à disposição tempo e a zelosa companhia de Mello, uma das mais importantes autoridades brasileiras no mítico diretor e em seu único filme, para avaliar o material.

“Onde a Terra Acaba” resultou em um documentário confessional. O paradoxo se explica pela utilização, na narração do ator Matheus Nachtergaele, dos diários e escritos deixados por Peixoto. São usados também longos trechos de entrevistas com o cineasta feitas por Ruy Solberg para o curta-metragem “O Homem do Morcego”. Além, é claro, de imagens não editadas de “Limite”, do único rolo remanescente do filme inconcluso e de cenas caseiras.

Nas próximas semanas, entra em cartaz também uma cópia restaurada de “Limite”. A nova cópia teve a velocidade de projeção e o enquadramento dos planos corrigidos, permitindo uma exibição sem os problemas habituais verificados em películas muito antigas.

Será a primeira vez que será lançado comercialmente, já que a primeira exibição, em maio de 1939, não teve esse caráter. A seguir, Machado explica porque resolveu imprimir este tom ao seu filme e justifica a extrema reverência ao excêntrico diretor e seu emblemático filme.


Por que “Limite”, que é um marco da modernidade, passou batido nos idos de 30?

Sérgio Machado: Tenho a impressão de que “Limite” era avançado demais para a sua época. Imagino que fosse difícil para o público brasileiro de 1930 entender tanto a forma quanto as idéias do filme. Basta ver o quanto era diferente de tudo que estava sendo produzido no Brasil.

Quando e como o filme foi redescoberto e revitalizado?

Machado: Já na primeira sessão, o filme ganhou um grupo de irrestritos admiradores, principalmente entre os membros do Chaplin Clube, um grupo de cinéfilos ilustres, como Plinio Sussekind Rocha e Otávio de Farias, que anos mais tarde passou a promover seções especiais nas universidades. Na década de 50, a cópia de “Limite” entrou em estado de decomposição e o filme foi salvo por Saulo Pereira de Mello. O trabalho de recuperação durou 14 anos, durante os quais o filme deixou de ser exibido.

Fazer um documentário sobre Mario Peixoto era um projeto antigo de Walter Salles. Como foi que você, um colaborador direto dele, conseguiu superá-lo?

Machado: A idéia surgiu durante a produção de “Central do Brasil”. O Waltinho tem o costume de reunir a equipe para ver filmes e debater antes de começar a rodar. Essa conversa surgiu depois que assistimos a “Limite” em uma dessas reuniões. Falei da minha paixão pelo filme, e ele me disse que não só compartilhava dela, como no quinto andar da VideoFilmes mantinha o arquivo do Mario Peixoto, que estava sendo cuidado pelo Saulo Pereira de Mello.

Você começou a trabalhar logo após o término das filmagens de “Central do Brasil”?

Machado: Não foi assim tão rápido. Em 1995, fui para São Paulo fazer mestrado em cinema na Escola de Comunicação e Artes da USP. Minha idéia era fazer uma tese sobre “Onde a Terra Acaba”, o segundo filme de Mario Peixoto, que nunca foi concluído. Mas voltei para o Rio de Janeiro para trabalhar em “O Primeiro Dia”. Os filmes foram se sucedendo, e eu fui ficando. Nem sei em que pé está o mestrado.

Qual é a importância de Mario Peixoto para você? O que o atrai tanto neste personagem tão singular?

Machado: Fiquei fascinado pela personalidade do Mario Peixoto. Os diários dele mostram como era preocupado com as questões do tempo. Por isso, o documentário tem um tom autobiográfico. Tirando as opiniões dos cineastas, todos os textos narrados pelo Matheus Nachtergaele são dele. É uma pena que seja menos conhecido do que deveria. Ele merece um lugar no Olimpo, ao lado de nomes como Eisenstein, Pudovkin e outros.

Como resolveu estruturar o seu filme?

Machado: Elegi quatro momentos da vida do Mario Peixoto para pontuar o filme: a viagem para a Inglaterra, “Limite”, “Onde a Terra Acaba” e o recolhimento ao Sítio do Morcego, na Ilha Grande. O primeiro momento revela o Mario Peixoto adolescente, período em que aparece a obsessão pelas questões relativas ao tempo. O segundo é dedicado ao único filme, parte mais importante de sua vida. No terceiro, focalizamos o segundo filme, cuja não-conclusão foi marcante em sua vida e carreira, e a relação com a Carmen Santos, que fizera a encomenda para ele, são os pontos principais. No Sítio do Morcego, fala-se dos seus últimos dias.

Qual o conceito visual, estético?

Machado: Todo o tempo parado, ficava assistindo a “Limite”, estudando-o plano a plano. Tentei dialogar com a forma como o filme foi feito. E a narração casa bem com isso, já que o texto dele tem a delicadeza de como ele filma.

Todas as informações vieram de uma única fonte?

Machado: Passei dois anos pesquisando nos arquivos Mario Peixoto, na VideoFilmes. Tive as melhores condições de trabalho. Na verdade, “Onde a Terra Acaba” é um caso raro de documentário de compilação em que o material estava todo compilado.

Mas também há coisas de outras fontes, como por exemplo as imagens do documentário de Ruy Solberg, “O Homem do Morcego”.

Machado: O Ruy tinha um material riquíssimo. Ele me passou o bruto do filme dele. Foi muito generoso. No meu filme, tem mais coisas dele do que no curta. Tem até aquela imagem do Mario Peixoto fazendo figuração na cena de um filme de ficção que nunca foi concluído. Estava em uma latinha, que ele nem sabia direito o que tinha e cedeu as imagens graciosamente.

Há um componente reverencial no documentário que chama muito a atenção. Nenhum aspecto contraditório é discutido.

Machado: Na minha opinião, um olhar apaixonado não necessariamente embaraça a visão do espectador sobre alguém. Pode ser mais revelador do que uma visão isenta. É mais legal ler uma crítica do Hitchcock por Truffaut, que era um apaixonado pelo cinema dele do que de qualquer outro crítico. A forma mais honesta de fazer o meu filme era não demonstrar uma isenção. Porque estava apaixonado. Se forçasse a barra para ser imparcial, talvez não teria sido honesto.

Mas, por exemplo, você nem menciona o homossexualismo de Mario Peixoto, que era um traço marcante da personalidade dele. Não é uma lacuna?

Machado: Está claro que a opção sexual é determinante para a gênese dele como personagem. Mas, como eu não sabia como abordar o assunto, resolvi não falar nada. Além disso, o documentário foi narrado em primeira pessoa e, como ele não fazia menção a esses assuntos nos diários, não tinha muito como entrar nele. O Mario Peixoto era um personagem muito rico. E tenho a sensação de que, se 15 pessoas fizessem um filme sobre ele, seriam igualmente ricos e profundamente diferentes entre si.

O que era mais importante, na sua opinião?

Machado: A relação dele com o tempo. É a idéia de que esse cara que vivia em um mundo de arte optou por não viver em um mundo de mediocridade.

O fato de o Mario Peixoto não ter feito o segundo filme foi algo que bloqueou sua capacidade de criar?

Machado: Sou da mesma opinião do Ruy. Na verdade, concordo com o que ele disse na entrevista dele para o filme. “Até que ponto foi uma tragédia ele não ter feito o segundo filme? Não sabemos e nunca saberemos.”

Como tem sido a recepção do filme nos festivais? Machado: O documentário tem tido uma recepção muito boa em todos os festivais pelos quais passou. Atinge muito o público jovem, que curiosamente é quem menos o conhece. No Festival do Recife, por exemplo, quando terminou a sessão, muita gente veio me procurar para dizer que não conhecia “Limite” e estava interessadíssimo em assistir ao filme.

Você tem um trabalho paralelo como roteirista. Como funciona essa parceria com gente como o Walter Salles e o Karim Aïnouz?

Machado: Eles são dois parceiros. Tanto com o Waltinho quanto com o Karim, escrevemos juntos, fazemos leituras, discutimos os projetos. Essa colaboração se dá de forma tão intensa que assinamos tudo juntos. Waltinho e eu trabalhamos há anos. E agora vou cobrar deles a colaboração. Gostaria muito de fazer roteiros por encomenda. Na verdade, até o ano passado, me sentia mais diretor do que roteirista.

Como avalia o atual momento do cinema brasileiro?

Machado: Quase sempre, há um grande interesse do público e da imprensa pelas produções brasileiras, mexicanas e argentinas. Alguns amigos que chegaram agora a pouco de Cannes confirmaram esta minha impressão e parece que um importante jornalista francês escreveu sobre isto. Tenho recebido convites quase que diários de festivais dos mais diversos cantos do mundo. A recepção do “Onde a Terra Acaba” e o interesse pelo Mario Peixoto me impressionaram bastante nas últimas viagens. No último festival que fui, em Paris, notei um interesse grande pelos dois documentários brasileiros que foram exibidos -“Onde a Terra Acaba” e “Janela da Alma”, que foi premiado. Dividi também, com “Janela da Alma”, o prêmio de melhor documentário na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, onde competiam filmes de todo mundo. Por fim, nesta semana recebi um convite de Karlovy Vary (República Tcheca) -que é um dos mais importantes festivais de cinema do mundo- para participar de um debate sobre a produção brasileira de documentários.

No que você está trabalhando agora?

Machado: No roteiro de meu primeiro longa-metragem de ficção. O nome do filme será “Noites de Temporal”. É uma história de ficção, longinquamente inspirada no mito de Tristão e Isolda, que se passa na Bahia da década de 50. Os personagens são pessoas que freqüentam o cais do porto de Salvador: prostitutas, pescadores e contrabandistas. É uma produção da VideoFilmes, e se tudo correr bem pretendo iniciar as filmagens ainda neste ano.

Alessandro Giannini
É jornalista e crítico de cinema.

 
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