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Augusto conduz o trovador Bernart de Ventadorn a um desafio entre cantadores nordestinos -a peleja no Piauí entre o Cego Aderaldo e Zé Pretinho- “é um dedo, é um dado, é um dia”, “é um dia, é um dado, é um dedo”.

Augusto de Campos:
As poucas tentativas de reinjetar-lhe invenção e restabelecer aquela tensionante “intermídia” cultural, provindas quase sempre de músicos independentes, têm sido recebidas com indiferença e sufocadas por um meio musical circunscrito aos seus virtuosismos e excelências e aparentemente desinteressado de produções que bloqueiem a comunicação fácil com o público, que aumentou enormemente, enquanto a faixa estrita dos leitores de poesia permaneceu nos mesmos índices insignificantes.


Sabor de burrice made in Brazil. Antídoto Tom Zé: “defeito de fabricação”, “beleza demais contravenção”. Entre moqueca para rabeca e rapadura bricolada, farinha percussiva e carne de corda, multiplicar-se única: cademar?

Pavilhão Transnacional, Exposição Universal. Edgard Varèse orquestra torrentes de sons (ruídos feitos música) e projeções de luzes (poema hiperprismático) para arrasar a rala densidade dos desertos atuais.

Augusto de Campos:
Em suma: a música-poesia popular voltou a ser popular e a poesia e a música contemporâneas voltaram aos compartimentos da alta cultura. Tal situação não é muito diferente no resto do mundo. Basta dizer que, no plano dos produtos auditivos, a maior parte da grande poesia de língua inglesa, de John Donne a Dylan Thomas, é até hoje apresentada com extrema mesquinharia, em modestíssimos cassetes, onde não se oferecem sequer os textos dos poemas, enquanto se multiplicam as mais requintadas edições de CDs e DVDs de vulgaridades poético-musicais.


À mesa de um boteco lisboeta, entre goles de bagaceira, Fernando Pessoa esboça seu ensaio “Erostratus”: “Quanto mais nobre o gênio, menos nobre o destino; um gênio pequeno alcança a fama, um grande gênio alcança o descrédito; um gênio ainda maior alcança o desespero; um deus é crucificado”.

Augusto de Campos:
Já da perspectiva propriamente literária, são raros os interlocutores da poesia de invenção ou experimental (a que não é feita só para “expressar” mas para “mudar”, na fórmula cageana), tanto sob o aspecto da recepção crítica, quanto sob a ótica da produção poética, que, como no caso da música popular, tende atualmente ou à estabilização ou ao retrocesso.
Nessa conjuntura, a única atitude possível ao poeta, ou pelo menos ao poeta-inventor, mais do que nunca encantoado nas catacumbas da comunicação, é a “guerrilha artística”, como Pignatari previa há muitos anos.


Escapando de uma manifestação antiglobalização, Paul Valéry vê grafitado num muro convulsivo de Paris um aforisma seu estropiado em desprovérbio: “Contra o fácil e o fóssil, o físsil e o míssil do difícil”.

Augusto de Campos:
Resistência e recusa. Registrar, ao menos, o trabalho, para as gerações futuras, enquanto não se processe uma verdadeira elevação cultural a partir de políticas adequadas de ensino, as únicas que poderão reverter a situação, ainda que a longo prazo.


Nas calçadas pisadas de sua alma, sob o balido-balada da balalaica, Maiakóvski: “Quero ser compreendido pelo meu país/ mas se não for/ tanto faz/ passarei por vocês/ de viés/ como a chuva/ oblíqua/ passa.”

Sem dar sua alma cativa, abrindo a veia da vida, “irrecuperável, a vida vaza”, “irreprimível, vaza a poesia”, Tzvietáieva: “A resposta é: recuso”.

Augusto de Campos:
Apesar do seu insucesso pessoal (ambos se suicidaram, inviáveis, sob o tacão stalinista), eles estão mais vivos do que nunca. É sob o signo dramático da sua ética estética que se deve colocar, a meu ver, a sobrevivência da poesia, nos tempos de hoje. Sem esse norte, não vale a pena ser poeta.


Carlos Adriano
É cineasta e mestre em cinema pela USP. Rrealizou “Remanescências” (aquisição/coleção The New York Public Library), “A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha” (melhor curta documentário Chicago Film Festival), “O Papa da Pulpi” e “Militância”. O Festival de Locarno exibiu em agosto de 2003 a mostra completa de seus filmes.

 
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