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Augusto de Campos:
Não dá para comparar com eles os Beat, nem os discípulos pós-modernistas como Zukofsky e Oppen (por maior que seja o esforço da crítica recente americana em supervalorizá-los) e muito menos os “language poets”, mais interessantes pela pesquisa do que pela poesia, incongruentes na hierarquização dos valores poéticos e paradoxalmente mais propensos a responderem às novas mídias com idioletos não-referenciais do que com ciberpoéticas competentes.


Na vertigem do corpo morto que cai, entre os descaminhos da selva selvagem e obscura, Dante chama Arnaut Daniel, “il miglior fabbro del parlar materno”.

Alto e baixo por entre as folhas, poema da presença de Provença cantar veio para Augusto: “Eu sou Arnaut, que amasso o ar, amo Laura, caço a lebre com o boi e nado contra a maré”.

Augusto de Campos:
Não é preciso dizer o quanto (e muito mais) se aprende lendo Homero, Dante, os trovadores provençais ou os “metafísicos” ingleses etc. etc. Durante meio século, via tradução, Haroldo, Décio e eu nos devotamos a recriar em língua portuguesa, um “corpus” do que de melhor se fez em poesia, do chinês ao russo, com ênfase na invenção. Por que não visitá-lo?


Sob o olhar telúrico da tertúlia em trio, uma épica sem enredo encapsulada em caleidoscópio desenrola-se de diante de Augusto, Décio e Haroldo.

Após receber de Pound o subsídio para publicar “Ulysses” e espalhar pelos ares os manuscritos de “Finnegans Wake”, Joyce interpela-o: “to beg for a bite in our bark Noisdanger”.

Pound vira a página e a clepsidra do avesso, perfura minas na terra devastada - “dichten = condensare” (poesia = concentração) -e pergunta ao trovador Arnaut: “Mas, Noigandres, eh Noigandres! O que quer dizer isto?”.

Colhendo no ar a tradição mais viva, colorindo “o canto de uma flor cujo fruto seja amor”, o grupo de poetas paulistas encastelado no morro das Perdizes viria a adotar a palavra-enigma como mote de experimentação e nome de pesquisa poética em 1952.

Francis Picabia e Man Ray pegam a revista “Invenção”, sob a foto dos poetas Noigandres, e descortinam a tela (trompe-l’oeil que iludia a falsa paisagem) para o Entreato, enquanto Erik Satie e René Clair preparam a próxima cena.


Cena 3 - Impulsos em Rotação

Marcel Duchamp apanha a “Invenção” , abre seu museu-valise de projetos e ready-mades e tira da caixa preta um tabuleiro de xadrez (na verdade, seu Grande Vidro), onde se lê -as letras nas casas do jogo- seu lema: “Não repetir apesar do bis”.

Após dois dedos de prosa e um lance do acaso em fracasso -desvestido de celibatário mesmo, exclama que seu outro lema é “echecs”, um misto quente (“croque senhor?”) de “xadrez” e “fracassos”-, Duchamp pergunta a Augusto: O que um jovem poeta precisa levar em conta hoje, no ato de escrever? Qual é a escrita de nosso tempo?

Augusto de Campos:
Os caminhos que se abrem são muitos e imprevisíveis. Ler o melhor possível (como o que foi citado anteriormente), atentar para as possibilidades das novas tecnologias (que exigem grande investimento em aprendizado, manuais de programação, softwares etc.). Eleger a sua própria dieta poética e tentar descobrir a própria voz.


Scelsi mostra a Augusto uma relíquia do castelo de Rapallo -um bilhete manuscrito. Conta que quando perguntaram a Pound, já bem velhinho, que conselhos teria para dar aos jovens, ele simplesmente autografou: “curiosity - advice to the young - curiosity”.

Augusto de Campos:
A única coisa que não me parece inteligente é voltar atrás, retornar a padrões ultrapassados de escrita poética, a menos que se tenha tutano para fazer melhor o que fizeram Shakespeare, Camões, Hopkins, Cesário Verde...


Contra a maré da mercancia, Haroldo de Campos encanta Khlébnikov pelo cantar do riso, transluciferino logodédalo, expandido galáxias: “Ride, ridentes! Derride, derridentes!”

Sá-Carneiro sugere a Augusto arrolar uma bíblia irônica, para combater a bílis crônica da juventude transviada (e a própria incontinência que angustiava o poeta lisboeta)... “Grafogramas, grafemas, stelegramas para um jovem poeta... Ou que tal uma ‘Soneterapia’?”

Augusto de Campos:
O que tem acontecido é o contrário. O neoconservadorismo, que reponta aqui e ali, pressurosamente amparado por academias e prêmios inconfiáveis, tem demonstrado à saciedade essa afirmação. Quando o resultado não é insignificante, é desastroso, pela incompetência dos noviços, se comparados aos grandes e até aos pequenos mestres.


Entre tomos do “Tolicionário” (‘dicionário das idéias tolas e feitas’, ‘enciclopédia em farsa da estupidez humana’), que vinha compilando há anos e deixará inacabado (para desespero de Bouvard e Pécuchet), Flaubert espana o pó das páginas e pondera: “Quando é que seremos artistas, nada mais que artistas, mas realmente artistas?”.


Cotidianas digitais

Rimbaud projeta num muro de Paris os rotorelêvos duchampianos de “Anemic Cinema”, que Man Ray ajudara a cinematografar.

Na platéia ao ar livre, Mallarmé dirige-se a Cézanne: “Sem presumir o que sairá daqui -nada ou quase uma arte”.

Prestes a abandonar o ofício em troca do tráfico de mistérios (um escambo de máscara cubista e esfíngica), o projecionista pergunta a Augusto: Qual a importância das novas tecnologias para a poesia? Como lidar com elas?

Augusto de Campos:
As novas tecnologias não surgiram por acaso. Respondem a avanços científicos e são irreversíveis. Tenho para mim, que um dos méritos das vanguardas da primeira e da segunda metades do século 20 foi o de (antenas da raça) acenarem precursoramente para as transformações que haveriam de ocorrer na linguagem e na intercomunicação humana.


Espelhos vorticistas armados por Dziga Vertov projetam “animogramas” (poesia móbile de computador) de Augusto: em “o mesmosom”, Scelsi busca o grau raro do zero-zen; e “Pessoandando” vai no compasso complexo do desassossego.

Augusto de Campos:
A sintaxe da informática é extremamente familiar, congenial mesmo, à idéia do poema como projeção gráfico-espacial, organizado em estruturas rigorosas, a atritarem o verbal e o não-verbal em cor, som e movimento.


Webern e Cage fazem coro a “interpoemas” (poesia para intervenção interativa) de Augusto: no “Ininstante” em que o mouse morde uma sílaba, o verbo faz-se variante; ao abrir as “Portas do Ouver”, o olhouvido pisca em sinestesia.

Augusto de Campos:

É o ambiente ideal para a apresentação “verbivocovisual”, postulada pela poesia concreta, a partir do “Lance de Dados” de Mallarmé, poema que fecha o século 19 e abre o 20 para as aventuras da modernidade, retomadas nos anos 50, e agora já caminhando para o espaço cibernético.


Duas duplas solam em uníssono para os “morfogramas” de Augusto: Webern e João Gilberto em escala contida de “Quarteto para Saxofone op. 22” e “Eu Sambo Mesmo”; Cage e Boulez , em discordia concors de “16 Dances” e “Première Sonate pour Piano”.

Augusto de Campos:
Tão longe foi a antevisão de Mallarmé, que é possível ver nas “subdivisões prismáticas da Idéia” do seu poema um aceno para as práticas hipertextuais, características do universo digital. Pode-se perfeitamente visualizar o poema a partir da frase principal “Un coup de dés jamais n’abolira le hasard”, como a sede de camadas de “links” correspondentes às frases menores em que se ramifica o poema. Mallarmé entendeu o seu tempo e o que viria depois.


Naufragados no hiper-realismo de um monitor de cristal líquido, Mallarmé e Igitur conspiram contra a blasfêmia esparsa de Usher e tramam “uma constelação” de claras enigmagens no palco do teatro de idéias: transe mental.

Noite, demência e pedraria. Sobre o jogo de quadrados de um quadro pintado por Geraldo de Barros, Duchamp, demônio mallarmaico da analogia, brinda “o chocalhar sacrílego dos dados”.

Augusto de Campos:
Não há porque temer, por desumanizadora, a mídia digital. Cabe a nós, poetas, prometeus cibernautas, arrancar o fogo digital dos cibernadores (“controladores-governéticos”, na expressão de Timothy Leary) e humanizá-lo com o “ethos” não contaminado da arte e da invenção.


Solitude, recife, estrela. À beira de uma falésia, Mallarmé mostra a Valéry as provas de seu “Lance de Dados” - abaixo, as ondas do mar do mesmo 1897 insistem em se quebrar num pier-estela a onze fotogramas por segundo.

Cosmo-polis. O prestidigitador de bibelôs de inanição sonora pergunta ao encantador de serpente que pensa renitente: “Você não acha que é um ato de demência?”


Coda - Corte do Cristal para o Risco no Arco Teso

Peirce quixotesco e ideológico, virando o rosto da memória para um Brasil em obras e atacando pelo avesso das errâncias de panteros, Décio Pignatari declama: “apenas o amor e, em sua ausência, o amor / decreta, superposto em ostras de coragem, / o exílio do exílio à margem da margem”.

Com cicatrizes várias, mas viva, Pagu sai do túnel e marcha (Oswald no ouvido): “no fundo de cada Utopia não há somente um sonho, há também um protesto”.

Ao ver Augusto e Lygia numa das janelas que resplandecem no Parque Industrial, ela pergunta ao poeta que cultivava Solange Sohl: Como viver/sobreviver dentro da cultura brasileira?

Augusto de Campos:
A massificação cultural brasileira (fruto da desigualdade social e da ganância dos veículos de comunicação) é um fato inconteste. Numa população de 170 milhões de habitantes, o público que compra um best-disco popular de nível elevado não chega a 0,001%. Livros de poesia têm uma tiragem normal máxima de 2000 exemplares. O que significa 0,00001% da população. Música clássica tem um índice parecido. Música contemporânea, um índice menor ainda.


Empilhando um copo de cerveja sobre uma taça de schnaps e um cálice de conhaque, Lupicínio Rodrigues ergue um brinde ao tótem do pensamento coisa à-toa. Entre trancos e tamancos, sussurra para Augusto: “Chegam até a afirmar que eu tenho uma pedra encerrada no peito, quem há de dizer?”

Augusto de Campos:
O repertório poético da população se restringe, praticamente, ao da música popular. Mas a poesia da música popular é limitada pela comunicação de massa, tendo que aceitar, de saída, uma série de convenções, a partir da própria música, formatada pelo melodismo tonal. Entende-se que assim seja, porque, sem uma linguagem de acesso imediato, inviabilizar-se-ia, a curto prazo, o importante papel social que cumpre essa modalidade de arte: injetar momentos de poesia e música nas práticas de lazer da coletividade.


Ao piano, Eurico de Campos toca seu “samba concreto” para o filho Augusto. Como móbiles de Calder, bóiam na tela-canto o “triângulo vermelho do coração”, o “losango violeta da saudade” e as “linhas paralelas das almas separadas”.

Augusto de Campos:
No entanto, é preciso dizer que 90% do que se chama de “poesia” da música popular (ou mais modestamente de “letra”) -mesmo levando em conta a natureza específica das “letras“, que demandam critérios peculiares de avaliação- é subliteratura, diluição poética.


Frente a um forno a lenha, o perfeito cozinheiro das almas deste mundo anuncia seu “indigesto” prato: “A massa ainda vai comer o biscoito fino que eu fabrico”.

Augusto de Campos:
Houve um momento em que a produção mais sofisticada da área de consumo aparecia como a grande mediadora entre a cultura popular e a erudita, a ponto de Décio Pignatari ter criado o termo “produssumo” para conceituar essa situação excepcional. A poesia das letras e a própria música elevaram-se, chegando a produções-limite como “Araçá Azul” e “Cabeça”.


Abrindo picadas pelos campos de cana-de-açúcar para sempre, Caetano Veloso vai avançando por veredas que se engendram de palavra em palavra até que o araçá mude em pulsar quase mudo, dias dias dias de sonho-segredo.

Do fundo do poço, pátio dos loucos, Walter Franco enxota uma mosca do branco vão da boca, deixa-se mudo, xaxado e perdido, até perguntar (dó de doido): que é que tem nessa cabeça, saiba que ela pode ou não.

Augusto de Campos:
Mas a própria dinâmica do entretenimento, sob a pressão mercadológica, acabou retrojetando os seus produtos mais e mais no mundo do consumo, apartando-os da arte de alto repertório e das práticas experimentais mais agressivas.


Com geléia até o pescoço, Torquato Neto desfolha a bandeira de “medula & osso”. Adeus pra não voltar -let’s play that- zarpa via Navilouca: “eu quero eu posso eu quis eu fiz”.

 
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