1
dossiê
ARTE É RISCO

Deslimite: um filme-entrevista estrelando Augusto de Campos
Por Carlos Adriano

Se a melhor crítica de uma obra de arte parece ser outra obra de arte, como contar - sem cantar poesia - o “pulsar quase mudo”, pós-tudo, o “quanto mais poetamenos dizer” do poeta Augusto de Campos?

Sob o metro de um ensaio interdisciplinar, crivo bem temperado que opere um guisado de prosa porosa, subdivisões prismáticas da idéia e montagem russa, busquemos a síntese de um texto-cinema, que tente desbravar caminhos não balizados e nos aventure a novos territórios, sem bulas e bússolas. Invenção de formas; essências e medulas.

Ou, para citar os títulos de dois artigos antigos do próprio Augusto, algo que conjugue “poesia, estrutura”, “poema, ideograma”. Panaroma, harpdiscórdia, colidouescapo. A proposta de um “Deslimite” estrelando Augusto de Campos. Mais que um roteiro crítico, um "cinema escrito", que articule opinião e invenção, uma espécie de "cinema" vanguardo-crítico-didatizante, que consiga ao mesmo tempo instigar e educar.

Nos últimos meses, Augusto teve lançadas duas antologias de poesia: “Viva Vaia” (terceira edição ampliada), editada no Brasil pela Ateliê (com poemas de 1949 a 1979) e “Anthologie - Despoesia”, editada na França pela Al Dante -poemas de “Viva Vaia” e mais “SOS” (1983) e “Pós-Tudo” (1984), traduzidos por Jacques Donguy.

Essa antologia bilingüe foi lançada no Salão do Livro de Paris em abril e no Salão do Livro de Genebra no início de maio. Nesta última, fez-se acompanhar de uma bela apresentação de “Poesia é Risco”, espetáculo intemídia de poesia, música e imagens, com a participação de Cid Campos e Walter Silveira.

É possível que esta gravação do recital em francês se transforme em cd ou cd-rom, a ser lançado na França ou na Suíça. Mas Augusto de Campos tem mais projetos: poemas novos (“digitais” e em papel) que podem ser coligidos num cd-rom e num livro que pretende editar ainda este ano. E agora talvez seja a hora de rimar as luzes e da tela projetar-se este piano preparado AC / CA.


Abertura

Como uma decupagem técnica. Close em partículas brilhantes vibrando na tela-página. Câmera afasta-se (zoom-out da lente) e revela os cristais líquidos na crista da onda.

A água se espraia, grãos se agitam. Zoom-out continua e revela um mar na tela do computador. A maré marulha. Vemos o reflexo do rosto de Augusto de Campos sobreposto à imagem do mar em plano próximo.

Câmera se afasta mais -plano geral- e faz uma panorâmica circular pelo gabinete de trabalho do poeta (estantes com livros, cds, objetos de arte). A panorâmica desloca-se em para o centro do quadro -a estação digital (computador, scanner, impressora)- e inicia ascensão em travelling perpendicular. Tomada em plongée (câmera alta) escrutina o poeta compondo poemas na tela-mar.


Primeira tomada – DexPoetaMenos

Hoelderlin abre o primeiro livro de poemas de Augusto de Campos e encontra um verso seu como epígrafe de “O Rei Menos O Reino” (1951): “E para que poetas em tempo de pobreza?”

Webern faz uma pausa-paráfrase de Hoelderlin -“viver é defender uma forma”-, antes de perguntar a Augusto: qual o valor da poesia hoje?

Augusto de Campos:
A poesia cumpre o papel que sempre cumpriu. Nas palavras de Pound: “Poets are the antennae of the race”. Só que os alarmes das antenas dos poetas não costumam ser detectados, num primeiro momento (ponha nesse “momento” décadas e às vezes séculos) pelos canais de recepção da imensa maioria, para a qual a poesia é uma espécie de conversa de marcianos.


Mistério-Bufo: ao ouvir o locutor decretar a vitória do garção de costeleta no sistema babilônico, Oswald resvala a pança no rádio à janela (sintoniza a novela “Desatinos do Destino”).

A antena quase cai do alpendre. Apedrejado pelas ruas da província, Sousândrade suspira o risco da poesia: “Ouvi dizer, por duas vezes, que a minha poesia só será entendida daqui a 50 anos. Entristeci. Tristeza de quem nasceu 50 anos antes”.

Augusto de Campos:
Mesmo assim, o poeta deve continuar, ainda que simbolicamente, a exercer a sua missão, fazer o seu trabalho, sem concessões, seguro de que o tempo -o longo tempo- irá resgatar as suas mensagens-em-garrafa atiradas ao espaço da linguagem, o seu “pulsar quase mudo”.


Enquanto escreve uma nova composição na partitura musical, Schoenberg recita: “O artista nunca faz o que os outros acham bonito, faz apenas o que ele acha necessário”.

Enquanto pinta um novo filme no rolo de celulóide, Oskar Fischinger medita: “Há apenas um caminho para o artista criativo -produzir somente pelos mais nobres ideais- o verdadeiro artista não deve se importar se é compreendido ou incompreendido; ele deve ouvir apenas seu espírito criativo e satisfazer seus mais altos ideais, confiando que este será o melhor serviço que ele pode prestar à humanidade”.


Augusto de Campos:
O valor da poesia está no seu desvalor mercadológico. Na ética da sua inutilidade. Não se vende e por isso não tem compromissos senão com ela própria. Não tem utilidade prática. Por isso é útil. Sua anárquica contraproposta existencial tem em vista resgatar a essência melhor do ser humano, sufocada pelos instintos primários da ambição e do lucro, que infelicitam o convívio social.


Sem esperança nem temor, saído do Inferno de Dante, Ezra Pound adentra a ágora e desfralda uma bandeira-farrapo de seda: “A usura é um câncer no azul”.

Saído do Inferno de Wall Street, com sua harpa exquisita e farpa selvagem, Sousândrade prepara-se para desafinar o coro dos contentes de nosso tempo.

Augusto de Campos:
Por isso, o poeta, mesmo desprestigiado pelos meios de comunicação, mesmo “à margem da margem” (Décio Pignatari), mantém a sua identidade e a sua aura de loucura e pureza, num meio que se pretende racional e civilizado, mas em que predominam o egoísmo e o interesse material.


Pária numa praia de ossos, “artista sem arte -ao inverso”, Corbière pinta seu epitáfio na magra paisagem má, bêbado da borra de ser vida, “bem logrado malogrado”.

No centro da praça (a multidão na platéia centrífuga), John Cage senta-se ao piano para apresentar uma das versões de sua “Conferência sobre Nada” -a peça “ 4’33” ”. Imóvel, o músico toca o silêncio.

A luz das palavras: “Mas, luminosos ou filmletras, quem os tivera!”. No vale do Anhangabaú, populares aglomeram-se para ver a multiplicidade de vocábulos -cauda sem fim cidade, city, cité- despejar-se da marquise sobre a cidade.


Plano-Seqüência - Vertigem do Paideuma, Miragem do Cinema

Do horizonte improvável, deslinda-se uma nebulosa, caos cósmico -“i punti luminosi”- de grãos f(ec)undantes -nutrimento de impulso. Rever o olor que livra e lavra -“make it new”. Sob esse anticéu parietal, noosfera que gera e interroga, pergunto ao poeta: Quais são os poetry makers que é preciso ler hoje, pela importância intrínseca e pelo valor das palavras para a nossa época?

Augusto de Campos:
Os fundamentais são os mesmos que anunciamos há 50 anos atrás: Mallarmé, Pound, Joyce, Cummings.


Mallarmé imprime na oficina as páginas de seu lance crucial e diz a Augusto: “Não conheço outra bomba a não ser um livro”.

Augusto de Campos:
Mallarmé é o limiar da poesia da modernidade. Seu poema “Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso” (1897), propagado no enclave de dois séculos críticos, toca em todos os problemas básicos das poéticas dos séculos 20 e 21. Desestrutura e reestrutura o texto, como um mapa visual e como uma partitura. Suas “subdivisões prismáticas” antecipam o cubismo, revalorizam o silêncio e, a longo prazo, sugerem o hipertexto. Poesia tempo-espacial antes do tempo, que tematiza as questões do acaso e do caos e joga os dados para o futuro.


Acu(s)ado isano, por um tempo doente, Pound sai da gorilla cage a que fora confinado e diz a Augusto: “bright brazilians blasting at bastards”.

Augusto de Campos:
Pound colocou a invenção como parâmetro básico do comportamento poético. Criou uma nova modalidade de crítica. A crítica via tradução, com a qual inventou, modelarmente, chineses e provençais para a poesia moderna. Instaurou novos procedimentos poéticos com seu método ideogrâmico, que assimila a montagem e a colagem em módulos conseqüentes mesmo em poemas longos como “Os Cantos”.


Joyce tropeça entre tragos, dribla o desvio de Dublin e a dobra da Bahia, e diz a Augusto: “from Blasil the Brast to our povotogesus portocall”.

Augusto de Campos:
Joyce, com suas células vocabulares cambiantes, caleidoscópicas, abriu novos caminhos para a poesia e para a prosa, criando textos indeterminados, polissêmicos, mas ao mesmo tempo rigorosos em sua construção referencial. Romances para acabar com o romance.


Prova de exigência e fôlego do artesanato furioso, Cummings revisa provas tipográficas e diz a Augusto: “uma folha cai contra a humanimaldade”.

Augusto de Campos:
Cummings revolucionou a própria palavra, atomizou-a, revitalizou a mortografia cotidiana com sua tortografia, provocou novas relações intervocabulares em minipoemas concisos e precisos, que se desconstroem e reconstroem os textos em modelares móbiles verbais de multileituras.
Entre nós, Oswald de Andrade e João Cabral de Melo Neto, e, acima de todos, Sousândrade, cuja linguagem ainda não foi inteiramente assimilada nem decifrada.


Oswald acerta o relógio e o trem da história para a frente; apanha os óculos na latrina e garatuja versos de quatro letras na lousa megalítica: “humor amor”.

Ainda não escalpelado, autografa um caderno do aluno de poesia das indústrias reunidas O. de A. e dedica à firma de Augusto: “A poesia para os poetas -a prova do novo- somos concretistas”.

Augusto de Campos:
Oswald radicalizou o nosso moderado modernismo com a sua antropofagia, metáfora antropológica que constitui a nossa única criação filosófica e com a qual canibalizou a cultura européia e armou os seus poemas-minuto e a prosa inventiva de “Serafim Ponte-Grande”.
João Cabral: o rigor construtivo de sua poesia de pedra, insubornável até nas suas limitações. Arquitetura e antimelodia. Contra uma “tradição de tagarelas”: não-sentimentalismo. Desegotização. Duro e puro. “Não posso me renovar, calo-me”.


João Cabral crava faca só lâmina no açúcar da cana, educa a antiode inconfessável pela pedra, e diz a Augusto: “Lição de poesia a palo seco”.

Augusto de Campos:
Sousândrade: pré-tudo. Pré-colagem e pré-montagem nas estrofes satíricas do “Inferno de Wall Street”, poema que não tem equivalente em outras literaturas no seu tempo. A ousadia da experimentação em todos os sentidos. “Sobre-rum-nadam”, “fossilpetrifique”. Um milagre de invenção até hoje não entendido e talvez não merecido pelo nosso meio.


Sousândrade peregrina pelos escombros malditos de um terremoto clandestino, e diz a Augusto: “Há mundo porvir?”

Augusto de Campos:
Mas se se perceber a diferença que há entre um inventor, um mestre e um diluidor, pode-se ler tudo. A poesia é grande e há grandes poetas como Pessoa, Rilke, Maiakovski, Tzvietáieva, Stramm, Apollinaire, Lorca, Dylan Thomas e tantos outros (para falar só do século 20). De todos é possível extrair encantamentos e ensinamentos preciosos.


Cage colhe cogumelos e ruídos num parque imaginário de Manhattam, e medita: “i am here and i have nothing to say and i am saying it and this is poetry”.

Augusto de Campos:
Eu hoje acrescentaria à lista dos poetas indispensáveis os textos do multiartista John Cage, superiores a tudo o que se chama de poesia americana pós-Pound. A fortíssima geração modernista americana, que inclui ainda figuras de proa como Eliot, Gertrude Stein, Cummings, Wallace Stevens, William Carlos Williams e Hart Crane, deixou as gerações subseqüentes numa espécie de estupefação poética, até hoje não resolvida.


Antes de perguntar “se não há resposta, então qual é a pergunta?” e fazer a rosa ficar mais vermelha no jardim das letras, Gertrude, em seu leito de morte, rasgou as autobiografias de fofoca de todo mundo e daí disse a Augusto: “there was nothing to say because just then saying anything was nothing”.

 
1