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novo mundo
VIDA VIRTUAL

Rede, risco e rastro
Por Giselle Beiguelman



Detalhe de "Plural Maps", de Lucia Leão

Livros exploram diferentes faces da vida on line

Boa notícia! A crítica sobre cultura digital começa a se infiltrar no mercado editorial brasileiro, mostrando a multiplicidade de abordagens que o tema suscita, como fica patente em dois lançamentos: A Estética do Labirinto, da artista Lucia Leão, e Cultura Digital, do filósofo Rogério da Costa.

Ambos são professores, aliás, da mesma universidade, a PUC de São Paulo, exploram as especificidades do espaço virtual da internet e são, também, fortemente marcados pelo pensamento de Deleuze e Guattari.

Contudo, as semelhanças param por aí. E, se “toda unanimidade é burra”, essa é realmente uma excelente notícia, pois, enfim, é possível concluir que há vida inteligente na internet, a despeito do fato de Joana Prado mobilizar mais de 10 mil pessoas em uma hora de bate-papo on line...

O livro de Lucia Leão prima pela erudição e fala de labirintos, mapas e espelhos, em um texto ágil que navega pela história da Antiguidade aos dias de hoje em velocidade de cruzeiro.

Já o de Rogério da Costa esmera-se na capacidade de conquistar o leitor pelo rigor metodológico que associa sofisticação conceitual à informalidade, fazendo com que se consuma o texto quase que numa tragada.

Utilizando diferentes tautologias, os autores nos dão suas lições . Para Lucia, o labirinto é metáfora do ciberespaço e a abordagem é feita a partir de uma incursão sobre o tema na mitologia e na história da arte.

Para Rogério, a web é a ágora planetária e a exposição se faz pela familiarização do leitor com as interfaces que o cercam, como celulares, caixas automáticos e computadores, interceptando dados de pesquisas com textos filosóficos.

Lucia desenvolveu seu trabalho teórico paralelamente a sua pesquisa estética que resultou no “Labyrinths of Mirrors” (2000/01), parte de seu projeto LabWeb, um web site que reúne seus estudos e criações de ambientes virtuais.

É interessante notar, entretanto, que a tese central de A Estética do Labirinto, a identidade entre o labirinto no formato rizomático e o ciberespaço, se realizaram em plenitude, não naquele site que acompanha o livro, mas no seu impactante “Plural Maps”, lançado na 25 ª Bienal de São Paulo.

Se “Labyrinths of Mirrors” ainda nos fazia sentir o peso da angústia do Minotauro, procurando uma saída correta entre caminhos falsos, “Plural Maps” abre-nos a possibilidade de fruir o rizoma, ou seja: perder-se e encontrar-se obedecendo a uma lógica fractal.

Um tipo de deslocamento que não aparece na perspectiva de análise de Rogério da Costa, que, parceiro de Pierre Lévy, vem trabalhando o conceito de inteligência coletiva a partir de experiências diversas com comunidades virtuais e de utilização do programa “árvore do conhecimento”, do qual Lévy foi co-autor.

Rogério chama a atenção em Cultura Digital sobre a interação com ferramentas e mecanismos que não são apenas atalhos e facilitadores, mas programas assistentes que agilizam as pesquisas por serem capazes de receber instruções programadas.

Bons exemplos práticos desses agentes seriam, de acordo com o próprio autor, os filtros utilizados pela Amazon.com, que, a partir da base de dados fornecida pelo leitores, consegue enviar sugestões de obras que podem interessar a um cliente determinado.

Mas esse exemplo é apenas introdutório. Cultura Digital traz dezenas de indicações de sites que pesquisam e desenvolvem “knowbots” (programas que realizam buscas na internet de acordo com os critérios do usuário).

Lucia também indica e comenta vários sites, perseguindo experiências de diversos artistas que, ao nos fazerem conviver com “a vastidão e falta de pontos de referência estáveis” em suas obras labirínticas, são capazes de nos liberar das prisões internas que nos impedem de conviver com as diferenças e o desconhecido.

Seguindo os passos da psicanálise junguiana, conforta-nos: “Vencer o labirinto é vencer a morte, o impulso de morte que enclausura e exclui todo o estranhamento.”

Com isso, mostra a autora, é possível pensar a interação como “insight”, uma forma de instrospecção que se dá por um processo de individuação expandida e caleidoscópica, restaurando o sentido da contemplação como “dinamismo formativo”.

Afinal, diz Lucia, “Narciso não contempla só a si mesmo no lago sobre o qual se debruça. Com Narciso, toda a paisagem contempla a si mesma. O rizoma nos faz ver Narciso liberto”.

Rogério nos tranqüiliza, assumindo outra dobra desse movimento rizomático:

“Seja através da internet, do celular ou da televisão digital, os agentes inteligentes já estão colaborando e vão colaborar ainda mais para que possamos perceber as várias comunidades às quais pertencemos, relacionando perfis por afinidade, nos informando sobre a presença de outras pessoas em rede, nos sugerindo produtos e serviços etc.

A construção dessa percepção de comunidade, que é diferente e no entanto convive com o ato efetivo de participar de uma comunidade virtual, vê sua importância ligada à necessidade crescente que as pessoas têm de se sentirem situadas no dilúvio informacional que tomou conta de nossa sociedade’’.

Nesse caso, portanto, a Rede não é risco, é um punhado de traços sobre os quais podemos imprimir os nossos rastros.

Mas então, enfim, o que é o espaço virtual? Labirinto de espelhos ou território interconectado por agentes inteligentes? Risco ou rastro? Ambos ou nenhum?

Cabe ao leitor decidir. Fica, contudo, uma lição bem dada pelos dois autores: independentemente do modo como se realiza a experiência da virtualização, por imersão, no caso de Lucia, ou expansão, no caso de Rogério, ela só é pensável em relação à concretude dessa nossa vida tão humana e tão real.

Se isso ainda não foi suficiente para convencê-lo, querido leitor, confira, a seguir, alguns links comentados pelos autores em seus livros:

Para se perder:

Dynamic Diagramshttp://www.dynamicdiagrams.com
Consultora visual que produz mapas interativos, em formato de fichas espacializadas, que podem ser lidos em perspectiva.

Natto Viewhttp://www.mos.isc.keio.ac.jp/NattoView
Permite visualização da navegação on line em três dimensões.

Cospacehttp://cospace.research.att.com
Experiência de mapeamento em 3D que possibilita compartilhamento de espaços virtuais pelos usuários.

Mitologieshttp://www.evl.uic.edu/mariar/DOCS/VW98/vw98.html
Projeto de labirintos em realidade virtual do Electronic Visualization Laboratory da Universidade de Illinois (Chigaco, EUA).

Kaleidoscope Painterhttp://www.permadi.com/java/spaint/spaint.html
Permite criar uma imagem caleidoscópica. Os movimentos do mouse determinam os movimentos das linhas dos diagramas.

Baseado em A Estética do Labirinto, de Lucia Leão (Ed. Anhembi Morumbi, 2002)

Para se encontrar:

Triviumhttp://www.trivium.fr
Cria, desenvolve e pesquisa agentes inteligentes.

Search Engine Watch http://www.searchenginewatch.com/
Discute, avalia e comenta programas de busca e traz dicas para otimizar as pesquisas.

Umap http://www.rocketdownload.com
O programa faz busca por proximidade temática na internet, no próprio computador ou intranet dos usuários, mapeando mensagens do Outlook e documentos Word, dentre vários outros tipos de arquivos.

Ifinder - http://www.ifinder.com/
Agente inteligente que seleciona e envia por e-mail links dos artigos de revistas e jornais de interesse dos usuários cadastrados

Community Building on the Web - http://www.naima.com/community/
Traz links para sites que disponibilizam ferramentas para se construir comunidades virtuais, fóruns de discussão e resenhas de livros sobre o assunto.

Baseado em Cultura Digital, de Rogério da Costa (Col. Folha Explica, Publifolha, 2002)

link-se
Lucia Lepo http://www.lucialeao.pro.br
Rogério da Costa - http://www.pucsp.br/~ctmd/prof/rogerio.html

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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