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Uma transgressão total, fruto de um esforço corporal, com o auxílio de massas e de serras: escavação de fundações, recorte de tetos, paredes e chãos em situações muitas vezes perigosas. O interior se abria sob seus pés. Brouwer cita o Derrida de La Vérité en Peinture (A Verdade em Pintura, 1978): "É porque ela toca estruturas sólidas, instituições 'materiais', e não somente discursos ou representações significantes, que a desconstrução se distingue sempre de uma análise ou de uma crítica". São esse corpo-a-corpo e essa desconstrução que a câmera do artista registrou.

A preocupação de Matta-Clark pelas condições sociais, as relações da arquitetura com seu ambiente e a propriedade se cristaliza em duas obras-manifestos: Reality Properties: Fake Estates (Propriedades da Realidade: Imóveis Falsos), de 1973, e Window Blow Out (Explosão da Janela, 1976).

Na primeira, o artista comprou em leilões lotes minúsculos nos bairros de Queens e Staten Island, espaços residuais cujos impostos não tinham sido pagos. Comprou-os por US$ 25, cada. "Quando comprei essas propriedades no leilão de Nova York, a descrição delas que sempre mais me entusiasmou foi 'inacessível'. Era um grupo de 15 microterrenos em Queens ­propriedades que sobraram de um desenho de arquiteto. Um ou dois dos melhores eram uma faixa de 30 cm na entrada de carro de alguém e 1 metro quadrado de calçada. E os outros eram sarjeta. O que eu basicamente queria fazer era indicar espaços que não seriam vistos nem certamente ocupados. Comprá-los foi minha própria responsabilidade sobre a estranheza das linhas de demarcação das propriedades existentes. A propriedade é toda onipresente. A noção de propriedade em cada um é determinada pelo fator uso".

Matta-Clark investiu em áreas que estavam abandonadas, como "lembretes desmoralizantes de 'explore-o ou deixe-o'", do mesmo modo que agia contra muitos aspectos da condição social ao desfazer um edifício: "Abrir uma situação de enclausuramento que havia sido precondicionada, não apenas por necessidade física mas pela indústria que distribui caixas urbanas e suburbanas como um contexto para garantir um consumidor passivo e isolado ­virtualmente um público cativo (...)."

Manfredo Tafuri, em suas análises, via a arquitetura como "uma série de declarações individuais socialmente críticas que afinal só funcionam como uma racionalização do capitalismo". É exatamente disso que se trata para Matta-Clark, ao falar desse "vazio central, a brecha que, entre outras coisas, poderia existir entre o "self" e o sistema capitalista americano. Estou me referindo a uma esquizofrenia de massa muito real, cuidadosamente mantida, em que nossas percepções individuais são constantemente subvertidas pela mídia controlada industrialmente, pelos mercados e interesses corporativos. (...) A situação dessa arquitetura reflete a iconografia do Eixo Corporativo Ocidental. É sobretudo o abuso da Bauhaus e dos primeiros ideais puristas que eu questiono. Pois devo esclarecer como a solução monolítica idealista não apenas malogrou na resolução dos problemas, como ainda criou uma condição desumana nos níveis domésticos e institucionais. Assim, é à deformação dos valores (éticos) que estou reagindo, que vem disfarçada de Modernidade, Renovação, Planejamento Urbano, chamem como quiserem."

A cidade, no seu papel de memória acumulada, é um local de história e de reunião em um ponto negado ao destino humano, pois a cidade quase se tornou uma "lucrópolis". Para Window Blow Out, resposta muito radical ao convite de Andrew McNair em 1976 para participar da exposição Idéia como Modelo, organizada pelo Instituto de Arquitetura e Urbanismo de Nova York (cujo diretor era Peter Eisenman), Matta-Clark tomou emprestada a carabina do artista Dennis Oppenheim e, na véspera do vernissage, estourou as janelas do salão de exposição. Sobre as janelas estouradas, colocou então fotografias de prédios do South Bronx, incendiados e com vidros quebrados. Sua intervenção foi considerada inoportuna e "abafado" a tempo para a inauguração.

A arquitetura modernista concebia o edifício isolado como "positivo". O espaço ao redor era "negativo", ou seja vazio ou simples chão. Com os filmes Substrait (Substrato, 1976) e Sous-sols de Paris (Subsolos de Paris, 1977), Matta-Clark retornou aos subsolos, a parte inferior da arquitetura, para explorar os espaços "negativos" da cidade. "Na verdade, a próxima área que me interessa é uma expedição ao subterrâneo: uma busca por espaços esquecidos que ficaram enterrados sob a cidade, seja como reserva histórica ou como lembretes sobreviventes de projetos e fantasias perdidos, como a famosa Ferrovia Fantasma. Essa atividade incluiria mapear, quebrar e escavar dentro dessas fundações perdidas: atuando sobre a sociedade a partir de baixo".


Filmografia de Matta-Clark

1971: Fire Boy; Pig Roast; Tree Dance; Chinatown Voyeur; Fresh Air
1972: Open House; Automation House; Fresh Kill
1973: Sauna View; Clockshower
1974: Splitting; Bingo
1975: Day's End; Conical Intersect; Intersection Conique
1976: City Slivers; Substrait (Underground Dailies)
1977: Jacob's Ladder; Sous-sols de Paris; Office Baroque
(Food, 1971-1973, inacabado; Profiles, 1972 perdido)

Corinne Diserens
É curadora e organizou a retrospectiva itinerante de Gordon Matta-Clark em 1993 (Valencia, Marselha e Londres). Este texto foi apresentado no dia 18 de março último, na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), precedendo a exibição dos filmes do artista. Diserens esteve no Brasil como curadora da presença francesa na 25a. Bienal de São Paulo, para a qual convidou Anri Sala e Jean-Luc Moulène. O projeto desses artistas consiste numa colaboração com o jornal "Valor", que vem publicando semanalmente em seu caderno de cultura um encarte de oito páginas, sob o título de "Vista Cansada", com contribuições de críticos, escritores e artistas internacionais.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves



 
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