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Constituída de materiais cozidos, de resíduos, de instalações esculturais, performances, recortes de edifícios, de fotografias, filmes, vídeos, desenhos, pilhas de papéis cortados e de textos, a obra de Matta-Clark, como a de Smithson, provoca uma tensão entre a estrutura e sua desintegração, entre a forma e sua decomposição, entre a totalidade e os fragmentos, entre o centro e o limite. Nesse sentido, o filme City Slivers (Lotes Urbanos), de 1976, é exemplar, pois o artista cortou e colou diretamente o negativo e inseriu pedaços de textos na matéria fílmica ­ a rua e a arquitetura de vidro de Manhattan, o homem tomado no seu ambiente urbano.

Dennis Hollier pergunta em seu magnífico livro La Prise de la Concorde (A Tomada da Concórdia, 1974), sobre os textos de Georges Bataille: "Seria então 'prisão' o nome genérico que designa toda a produção arquitetônica? ... É possível conceber uma arquitetura que não inspirasse, como em Bataille, o bom comportamento social, ou não produzisse, como na fábrica disciplinar de Foucault, loucura ou criminalidade nos indivíduos? Os dispositivos arquitetônicos, segundo Foucault, produzem sujeitos; eles individualizam identidades pessoais. Mas por que não funcionariam ao contrário, levando contra o veio a algum espaço anterior à divisão entre loucura e razão; em vez de realizar o sujeito, realizaria a espacialidade: o espaço anterior ao sujeito, anterior ao significado; o espaço a-subjetivo e a-semântico de uma arquitetura não edificante, uma arquitetura que não permitiria espaço pelo tempo necessário para se tornar um sujeito".

Depois escreve a propósito de Bataille: "Para afrouxar a estrutura que é hierárquica e cria simultaneamente hierarquia, Bataille introduzirá o jogo da escrita. A escrita, nesse sentido, seria um gesto profundamente antiarquitetônico, um gesto não-construtivo que, ao contrário, solapa e destrói tudo cuja existência dependa de pretensões edificantes.

Trata-se de reabrir um buraco, demarcar novamente uma cavidade, mais uma vez uma caverna. Os próprios buracos que as obras de arquitetura taparam. Para mostrar ­depois da ereção narcisista da catedral materna­ um buraco em seu topo, no ponto mais elevado do telhado do templo, do pináculo..." Para Bataille, a arquitetura não é somente a imagem da ordem social, mas também o que preserva e até impõe essa ordem.

O gesto de Matta-Clark transgride o corpo arquitetônico e sua ordem; desde 1973, ao recortá-las, ele abalou as fundações dos edifícios para realizar Pier In/Out em Nova York, Infraform em Milão, A W-Hole House: Roof Top Atrium and Datum Cut em Gênova. Mas é com Splitting e Bingo (1974) que o artista iniciou uma nova relação com o filme enquanto documento das arquiteturas que ele "abria" munido de uma serra, a câmera viajando nessas casas estouradas, esburacadas e luminosas. Uma de periferia (Englewood), a outra típica de cidadezinha americana, ambas se encontravam nas zonas destinadas a novos desenvolvimentos urbanos.

É também nessa época que foi fundada a Anarchitecture, uma proposição de trabalho que reuniu diferentes artistas. Diz Matta-Clark a respeito: "A maior parte das coisas que fiz que têm implicações 'arquitetônicas' são realmente acerca de não-arquitetura... Estávamos pensando sobretudo em vazios, brechas, espaços abandonados, lugares metafóricos que não foram desenvolvidos... Metafóricos no sentido de que seu interesse não estava em sua possível utilidade. ... É como brincar com a sintaxe ou desintegrar algum tipo estabelecido de seqüência de partes".

Estudante de arquitetura, Matta-Clark interrompeu momentaneamente seus estudos para passar um ano na Sorbonne em Paris, em 1963, onde estudou poesia. Em suas notas, utilizava diversas desconstruções e montagens de palavras, jogos de sintaxe, e seu trabalho sobre a língua anuncia sua obra plástica. Ele descreve seus primeiras recortes como "extrações".

Retomando as sugestões de Hollier, Marianne Brouwer descreve essa relação: "Matta-Clark não desfaz o edifício, ele desfaz a analogia arquitetônica que está contida nele... As palavras são removidas do edifício da linguagem, em um movimento que percorre o edifício, como se estivesse removendo cuidadosamente sua espinha dorsal semântica. Fundações são perfuradas, fachadas divididas, pedras-chaves removidas. Mas o edifício não desmorona. Sua lógica é meramente invertida em um ato de 'discreta violação' (Matta-Clark) de seu sentido de valor, seu sentido de orientação. A imagem do mundo como estrutura arquitetônica (um edifício) é despojada de suas metáforas mais banais ('pilares da sociedade', 'estruturas coerentes', 'fundações de teorias'). A transgressão engendra a série de metáforas que permitem que a obra de Matta-Clark seja 'lida' como uma antilinguagem, solapando e subvertendo a linguagem da arquitetura".

No contexto de uma sociedade americana traumatizada, vivendo diversos conflitos e questionamentos com a Guerra do Vietnã e as revoltas estudantis, Matta-Clark foi um dos principais atores das atividades experimentais e interdisciplinares que ocorreram no Soho de Nova York no fim dos anos 60 e 70, principalmente com a abertura de espaços alternativos como 98 Greene Street, 112 Greene Street, Food Restaurant etc.

Muitos artistas sentiam a necessidade de ampliar a definição de obra de arte, de alterar as estruturas estabelecidas do "mundo da arte" e de se opor à situação em que a pintura e a escultura haviam sido absorvidas por um mercado de luxo. Explorando novos territórios e desafios além do objeto e da galeria, colocaram o processo de criação no centro de suas preocupações, utilizandotanto técnicas mistas, detritos urbanos, quanto a linguagem.

Esses espaços eram palco de uma explosão de múltiplas expressões, onde as artes visuais, a dança, a performance, o cinema, a poesia e a música estavam estreitamente ligados. Onde, também, o artista estabelecia uma relação outra e alternativa entre a obra e o "espectador". Matta-Clark os utilizou primeiro como laboratórios de criação, ativando suas estruturas em todos os níveis: "Eu queria alterar todo o espaço até suas raízes, o que significava um reconhecimento do sistema total (semiótico) do edifício, não de uma forma idealizada, mas usando os verdadeiros ingredientes de um lugar (...). Assim, por um lado estou alterando as unidades de percepção existentes, normalmente empregadas para distinguir a unidade de uma coisa. Por outro lado, grande parte das energias da minha vida tem a ver simplesmente com ser negado. Há tanta coisa em nossa sociedade que propositalmente visa a negação: negar a entrada, negar a passagem, negar a participação etc."

O belo vídeo Automation House, já citado a propósito de Open House, explora o "espaço in-between", desfazendo a noção de interior e exterior. Propõe, por meio de múltiplos movimentos de pessoas entre portas, vitrines e espelhos, um olhar crítico para a arquitetura de vidro de Manhattan. O que as experimentações de Matta-Clark implicam intuitivamente é precisamente analisado nos textos de Dan Graham, artista que compreendeu muito cedo a complexidade e a radicalidade das propostas dele:

"Formalismo estético e arquitetura funcional são filosoficamente semelhantes. Pelo mesmo viés, a arquitetura funcional e a arte minimalista têm em comum uma crença subjacente na idéia kantiana de forma artística como uma 'coisa em si' perceptível/mental, que supõe que os objetos de arte são a única categoria de objetos 'sem uso', objetos com que o espectador tem prazer sem interesse. A arte minimalista e a arquitetura pós-Bauhaus também se comparam em seu materialismo abstrato e sua metodologia formalmente redutiva. Elas compartilham uma crença na forma 'objetiva' e numa auto-articulação interna da estrutura formal em aparente isolamento de códigos de significado simbólico (e representativo). Tanto a arte minimalista quanto a arquitetura funcional negam significados sociais e conotativos, e o contexto de outra arte ou arquitetura adjacentes (...). A arquitetura modernista já considerou o edifício isolado como 'positivo' e viu o espaço 'negativo' a seu redor como vazio ou solo. A utopia ignora o desperdício, terras desperdiçadas, qualquer coisa ausente, e a 'visão utópica' de cada arquiteto se choca com as visões de outros arquitetos. Não apenas seus edifícios estão em competição entre si, mas surge um choque entre o objeto arquitetônico e a forma da cidade como um todo".

Em 1978, Dan Graham realizou Alteration to a Suburban House (Alteração de Uma Casa Suburbana), obra que faz referência às casas de vidro de Mies van der Rohe e Philip Johnson. Com esse projeto, Graham perverteu a ideologia da transparência encarnada pela parede de vidro. Ao retirar a fachada de uma casa típica de periferia americana, substituindo-a por uma placa de vidro e dividindo a casa com um espelho, ele inverteu a perspectiva da casa de vidro normalmente voltada para o exterior, fazendo-a voltar-se para si mesma. Matta-Clark, em Bingo, seccionou em nove partes iguais a fachada principal da casa, da qual foram retirados oito segmentos, "abrindo" completamente seu interior.

Na obra de Matta-Clark, uma nova relação à verticalidade se inscreve: "O que todos nós compreendemos como o edifício, ou ainda o que consideramos paisagem urbana, não é nada mais que uma espécie de zona intermediária... ­religar as regiões superiores do edifício às regiões inferiores". É a incorporação do subsolo e do céu ao corpo do edifício, ou ainda reunir, graças à luz, os esgotos com o céu na matéria urbana.

E é exatamente a luz que perfura a fachada e abre o ventre da arquitetura nos filmes Splitting, Day's End, Conical Intersect e Office Baroque. Se Bingo e Splitting são originalmente casas familiares tipicamente americanas e Day's End uma relíquia industrial do século 19 (o Píer 52 no rio Hudson), "parecendo uma enorme basílica cristã", Conical Intersect (Intersecção Cônica) foi realizada para a Bienal de Paris de 1975 em duas casas do século 17 no bairro em demolição dos Halles em Paris, onde se construía o futuro Centro Georges Pompidou.

Matta-Clark se inspirou no filme de Anthony McCall, Line Describing a Cone (Luz Descrevendo um Cone), que começa com uma mancha de luz na sala. Yann Beauvais deescreve: "Quando Anthony McCall realiza Line Describing a Cone (1973), faz surgir a dimensão escultural de toda projeção de cinema. Trata-se antes de tudo de modelar e modular um feixe de luz, além de qualquer suporte de recepção. Uma arquitetura de luz frágil, efêmera, cuja experiência se aproxima mais à meditação que ao consumo incessante de imagens".

A atividade artística de Matta-Clark estava "intimamente ligada ao processo de uma forma de teatro em que tanto a atividade de trabalho quanto as mudanças estruturais no prédio são a performance. Também incluo no meu sentido de teatro uma livre interpretação do movimento como gesto, ao mesmo tempo metafórico, escultural e social, com uma platéia apenas incidental ­um ato em andamento para o passante ­, assim como o canteiro de obras fornece um palco para os pedestres atarefados que passam".

A obra é questionada em suas bases tradicionais, como objeto único, acabado, autônomo. Desenvolvem-se então outras modalidades de criação que realizam, de alguma maneira, certos projetos essenciais do teatro experimental dessa época, como a exploração de novas relações com o espectador. Não se trata de consumir um produto acabado, mas de ficar no nível do ato, da teatralização do ato e de, através desta, tornar visível o tempo efêmero.

O trabalho de Matta-Clark propunha uma cena espacial em perpétua metamorfose, um modelo para a ação constante do público sobre o espaço, assim como no espaço que os rodeava. "Gostei de um termo usado em referência a Walter Benjamin, 'hermenêutica marxista'. Essa frase me ajuda a pensar sobre minhas atividades que combinam a esfera interna e distante da hermética e interpretação com a dialética material de um ambiente real. A atividade toma forma de um gesto teatral que fende o espaço estrutural". Mas, como salienta Marianne Brouwer, o trabalho de Matta-Clark sobre a arquitetura se inscreve literalmente na construção, e é na realização desse ato físico que está contida sua transgressão.

1 - Catálogo Gordon Matta-Clark, IVAM. Todas as citações de Gordon Matta-Clark provêm deste catálogo, Centre Julio Gonzalez, Valencia, 1993, e de Matta-Clark, ICC, Antuérpia, 1977.


2 - Dare-d'art, catálogo da 3ª Bienal de Arte Contemporânea de Lyon, 1995.

 
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