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novo mundo
E-DROITE

lepen.tv
Por Giselle Beiguelman

Estratégia on line do extremista francês mostra incoerências do totalitarismo pós-tudo

Pasme. Le Pen não tem um web site “ponto fr”. É isso aí, caro leitor, o site pessoal daquele que quer uma França francesa em uma Europa européia está bem resguardado pela democracia midiática do império norte-americano. É ponto tv... Anote aí e confira: http://www.lepen.tv.

Isso quer dizer que no cartório virtual que governa esse ciberlatifúndio em que se converteu a internet, Le Pen registrou seu território digital no lugar mais seguro do planeta web: os EUA e, mais precisamente, na VeriSign.

A VeriSign é uma empresa que adquiriu uma potência consolidada, a Networks Solutions, a quem foi concedida, em 1993, o direito de administrar e gerenciar o sistema de domínios da Internet (Domain Name System, DNS), desenvolvido, lembre-se com recursos públicos do governo norte-americano.

Assim que foi liberado o uso comercial da internet, em 1995, obteve permissão para cobrar o registro de domínios (como “.com”, p. ex). Dada a estrutura hierárquica que organiza a distribuição de domínios da internet, baseada em “root servers” (servidores raiz), que armazenam todos os nomes e os repassam aos servidores de domínio, tornou-se, sem exagero, o centro vital da web.

Cresceu muito e foi, em julho de 2000, incorporada pela VeriSign, que é responsável hoje por um banco de dados de 28,8 milhões de endereços on line e pelo registro de 13,6 milhões de domínios ativos entre endereços “.com”, “.net”, “.org” e “.tv”, como o de Le Pen, entre outros.

Esse “ponto tv” não diz respeito diretamente à famosa abreviatura de televisão. Na verdade é um código de país, como br é de Brasil, e é relativo a Tuvalu, antiga colônia britânica no sudoeste do Pacífico...

Independente desde 1978, o território de Tuvalu é formado por nove atóis de coral. Trata-se de um conjunto de oito ilhas (que na língua tuvaluana quer dizer “oito unidos”), situadas no centro da Oceania.

Com 24 km2, é um dos menores países do mundo. Em fevereiro de 2000, pela “bagatela” de 50 milhões de dólares em royalties, concedeu à Network Solutions, o uso de sua extensão na internet (“tv”), aumentando sobremaneira seu PIB, que até então não passava de 9 milhões.

Realmente, a capacidade de atualização do colonialismo em tempos da chamada nova economia é surpreendentemente criativa, mas isso já extrapola os limites deste artigo. Basta dizer que a motivação do investimento é clara e legítima do ponto de vista comercial.

A extensão “tv” remete, óbvio, ao “mais reconhecido símbolo de duas letras do mundo”, conforme anuncia a própria empresa que comercializa esse tipo de domínio (exclusividade da .tv, empresa da VeriSign).

Antes que se argumente que possivelmente o registro foi feito sob essa extensão por motivos de segurança, temendo facilitar possíveis ataques de uma suposta horda de inimigos internos (homossexuais, judeus, argelinos, comunistas etc.) contra quem a Frente Nacional se insurge, é bom desde já adiantar que o conteúdo está baseado em servidores franceses.

Poderia-se, sim, pensar que o “ponto tv” no endereço do candidato da FN denota apelação a uma certa pincelada de modernidade, calibrada por dimensões de mídia planetária, forçando um certo diálogo com as mesmas práticas simbólicas que calçaram as ligações do fascismo italiano com o futurismo.

Mas isso faria com que se perdesse de vista a mais paradoxal das questões: a incoerência e a fragilidade conceitual do pensamento (ou melhor, programa) totalitário pós-tudo.

O projeto de Le Pen para a França está disponível no seu extenso site e o programa completo no site da Frente Nacional. No que se refere à política internacional é claro e diz explicitamente que tem como ponto de partida recusar a “Nova Ordem Mundial imposta pelos EUA”.

Combate-se o cosmopolitismo “corruptor” da Comunidade Européia e a ONU, meio de imposição dessa “Nova Ordem” segundo o programa da FN, mas registra-se o domínio do candidato no ícone mor da presença norte-americana na e-economia...

Nem pense que o registro tenha sido feito porque o lepen.fr já seria posse de um outro correligionário ou antagonista. www.lepen.fr não existe. Tampouco arrisque a hipótese de que um político com convicções tão perigosamente passadistas não teria afinidade com as novas mídias e, enfim, isso seria deslize de quem não está nem aí para essa tal de internet.

Esse sem dúvida é um dos traços de maior afinidade de Le Pen e da Frente Nacional com regimes totalitários, como o nazismo, o fascismo e o estalinismo. Não esqueça que a formação do Ministério da Propaganda e Informação , que deu fama ao nada glorioso Goebbels é de março de 1933, anterior, portanto, à própria criação do Terceiro Reich (em 1934).

A utilização das máquinas midiáticas pelos regimes autoritários e sua capacidade de incorporação de novas tecnologias para fins de doutrinação política se tornou uma constante no século 20 e os exemplos perversos são inúmeros.

Vão das artes gráficas ao cinema, passando pelo rádio e televisão, frutificaram -e como- no Brasil, sendo suficiente lembrar da agilidade do DIP (Departamento de Informação e Propaganda) de Getúlio Vargas e o bombardeio de slogans do tipo “Brasil, Ame-o ou Deixe-o” que assombraram a infância e juventude de muitos.

E a internet é utilizada a todo vapor por Le Pen que conclama os patriotas a militarem na web. Todos os cartazes estão disponíveis em formato PDF, todos os spots de rádio, televisão, fotos de campanha e discursos podem ser ouvidos, vistos e lidos. É um verdadeiro show de coisas para “télécharger”.

Tudo entremeado pela mesma retórica que pontuava o discurso nazifascista: o menosprezo à política, a valorização dos laços entre “sangue e terra”, o enaltecimento do mundo rural e do homem do campo, a supremacia da ação e da emoção sobre a razão, entre outras categorias que reforçam a idéia de um povo, em detrimento de um público.

Daí não ser circunstancial a apresentação do candidato como “homem do povo”, “homem de ação” e “patriota fervoroso”, de origem humilde e bravo conquistador que lutou na Indochina e na Argélia e que hoje impõe como um a priori da recuperação do verdadeiro espírito francês uma reforma educativa que despolitizaria os livros escolares.

Sim, pois segundo Le Pen, a historiografia francesa foi dominada por comunistas que teimam em fabricar mentiras sobre a atuação francesa na Argélia e não são pequenos os esforços para “erradicar” esse mal. Se tiver estômago, consulte o dossiê sobre o tema produzido pela revista “Français d’abord!” (“a revista de Jean-Marie Le Pen”).

Combina de modo ímpar mediocridade informativa e fotos impublicáveis, orgulhosamente apresentadas como “a” verdadeira história da FLN argelina, que demonstram a assustadora a capacidade da extrema direita de substituir a necessidade de conhecimento e reflexão por imagens escabrosas.

Se é coerente com o que há de mais característico com os mecanismos de produção simbólica do totalitarismo, as estratégias on line (ou “en ligne”) de Le Pen, passam longe de uma política semiótica profissional (e não deixa de ser alentador pensar que já não se fazem mais “extremas direitas” como antigamente).

Misturam-se referências visuais de toda ordem. São pastinhas de computador, megafones de clip arts de quinta categoria, símbolos da campanha e fotos do candidato que oscilam entre a imagem de playboy-família, propaganda de aposentadoria privada e sujeito raivoso e sério.

Com e sem óculos, ele assume diversos papéis que não se unificam nunca, mas que estão sempre resguardados pela figura de Joana d’Arc (camponesa que ajudou a conduzir o exército francês à vitória, ao final da Guerra dos Cem Anos com a Inglaterra.)

Considerada depois traidora, morreu queimada, em 1431, como feiticeira, e foi canonizada em 1920. Empunhando a atual bandeira francesa, a santa arremata o exercício de esvaziamento da história pela composição de um passado criado a fim de mistificar o presente, apresentado pela FN como passagem para a retomada de um futuro francocêntrico.

Signicamente confuso, o padrão gráfico do site “ponto tv” desse político apela para o colorido nacional no padrão vermelho branco e azul, mas perde a potência do ícone ao inserir tudo sobre um fundo amarelo, que antes de ser ininteligível nos faz pensar nas flores amarelas e medrosas do “Congresso Internacional do Medo” cantado pelo poeta Drummond...

E falando em medo, é bom saber, para quem ficou curioso e animado a conhecer Tuvalu, que é melhor correr. Como nenhum ponto do país se situa a mais de 5 metros do nível do mar, corre o risco, em função do efeito estufa, de submergir nos próximos anos.

link-se
Le Front National - http://www.front-national.com
Le Pen http://www.lepen.tv
Algérie: La Vérite, Toute la Vérite! http://www.francaisdabord.net/algerie/
VeriSign http://www.verisign.com
.tv http://www.tv
Registro do domfnio lepen.tv - http://www.tv/en-def-70e08fa26a44/cgi-bin/whois.cgi?domainólepen&tldótv
ICANN - The WTO of the Internet - http://reclaimthe.net/icann/wto/

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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