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dossiê
Tele-realidades

"Reality show" em questão
Por Daniel Filho, Marcelo Tas, Eugenio Bucci
e Roberto Moreira

O que o “reality show” traz de novo para a televisão, para o audiovisual e para a sociedade? Por que o formato “reality show” faz sucesso? O gênero coloca em questão, a narrativa ficcional?

Trópico procurou sistematizar o debate, fazendo essas três perguntas a quatro profissionais engajados de maneiras diferentes com o audiovisual.

Daniel Filho e Marcelo Tas trabalham em televisão. Daniel Filho é certamente um dos profissionais mais experientes da televisão brasileira, onde atuou e atua como diretor, ator e produtor, sendo responsável pela realização de alguns dos mais importantes trabalhos de teledramaturgia.

Marcelo Tas tem uma carreira marcada pela experimentação no documentário e mais recentemente na apresentação do “Vitrine” da TV Cultura.

Eugênio Bucci atua na reflexão sobre a televisão e a mídia, é colunista de televisão da “Folha de S. Paulo” e autor de “O Peixe Morre pela Boca” e “Sobre Ética e Imprensa”, entre outros.

Roberto Moreira é realizador e professor de dramaturgia do curso superior do Audiovisual da Universidade de São Paulo. Fez estágio na Fabrica, na Itália. Dirigiu curtas premiados como “Amargo Prazer” e “Princesa Radar” e atualmente se prepara para filmar seu primeiro longa.

O resultado dessas mini-entrevistas individuais, feitas por e-mail, pode ser apreciado abaixo. As opiniões são contundentes. Sintomaticamente, Daniel Filho e Marcelo Tas, dois profissionais de televisão, reconhecem a força do formato, enquanto Eugênio Bucci e Roberto Moreira reagem de maneira mais crítica.
(EH)

O que o “reality show” traz de novo para a televisão, para o audiovisual e para a sociedade?

Daniel Filho: A televisão não é uma arte, é uma retransmissora, exibidora. O Circo Eletrônico. Tudo cabe nela. Mas, sem dúvida, a onda dos “reality shows” muda o comportamento tanto do audiovisual como da sociedade. Mas, do mesmo jeito que os videoclipes mudaram, influenciaram narrativas (algumas, não todas). Depois, tudo é imediatamente absorvido e se mistura neste veículo que tem o estômago maior que a Terra. Mas o cinema já tinha feito isto em inúmeros "chamados" documentários, mas com a possibilidade da montagem -o que de alguma forma os “reality” têm, também.

Roberto Moreira: A fofoca deixa de ser secreta -ainda que praticada por todos- e transforma-se em espetáculo industrial.

Eugênio Bucci: A novidade do “reality show” não é bem uma novidade, mas uma exacerbação de alguns aspectos constitutivos da TV, aspectos que ficam na fronteira da comunicação de massa com o que hoje se chama por aí de redes comunicacionais, o que envolve uma noção de interatividade.

Os “reality shows” aprofundam a idéia de que o público atua como comandante do entretenimento, definindo evoluções e desfechos. Isso já existe nas telenovelas, cujos enredos são baseados muitas vezes nos humores da platéia captados em pesquisas. Isso aparece também na estrutura de alguns programas de auditório ao vivo, que esticam ou encolhem suas atrações, conforme o ibope responda positiva ou negativamente a elas. De outro lado, os “reality shows” levam mais longe essa idéia de que o público, os anônimos do público, além de atuar na definição do entretenimento, também aparecem, viram protagonistas no entretenimento.

O exibicionismo dos anônimos, aí, a sede dos anônimos pelo olhar ganha mais um degrau, sobe mais um degrau. Essa conexão imediatista entre as predileções (ativas ou passivas) do público e os caminhos da indústria do entretenimento ganha um certo inchaço, de mau gosto, com os “reality shows”.

O dado desconcertante é que, dentro da intimidade dos protagonistas ou das predileções do público, não há nada de interessante. Como um lado e outro, público e protagonistas, que se alternam, são espelhos um do outro, a superficialidade de ambos, a previsibilidade, é aterradora.

O que eu diria, então, é que a novidade dos reality shows não é mais que uma hipertrofia de alguns aspectos empobrecidos da cultura de massa em sua aderência com as tais redes comunicacionais. A intimidade que aparece aí é inteiramente adestrada, mesmo para o grotesco, inteiramente codificada pelo espetáculo. Ela já não é lugar de segredos, mas um repertório industrializado do exibicionismo. É enfadonho.

Marcelo Tas: Para a TV, o “reality show” trouxe a revalorização do "real time". O telespectador adorou saborear as coisas no ritmo em que elas acontecem, no ritmo da vida. Exatamente o oposto da fórmula do cinema e da televisão clipada e "moderninha" dos últimos 10 anos. O público também demonstrou que adora brincar de "fazer" TV. Mesmo que de uma forma parcial e limitada como foi a "interatividade" ainda titubeante desses programas.

Por que o formato “reality show” faz sucesso?

Daniel Filho: Voyerismo é bem velho. O mestre Hitchcock estava certo em fazer “Janela Indiscreta”, com certeza do sucesso (porque ele não gostava de fracassar), baseado no fato de que todos nós adoramos olhar escondido o que acontece na janela do vizinho. Isto dava processo. Invasão de privacidade. Quando veio a internet, teve aquela garota que deixou uma câmera aberta na casa dela, e o número de acessos foi surpreendente. Lá mesmo nos States, fizeram a casa de vidro, para testar a convivência. O teste dos ratos, com comportamento foi uma experiência que provocou muito a curiosidade. Um programa explorando isto, permitindo que todos nós fossemos transgressores, cometêssemos este pecado, quebrássemos, escondido em nossos lares, as regras da educação, ora.... Todos gostam do que é proibido.

Roberto Moreira:Porque é inútil, absurdo, burro e imprevisível.

Eugênio Bucci: Porque opera a partir de pulsões primárias, relacionadas ao olhar, mas não só. Opera com a iminência de que um sujeito ali, que poderia ser a gente, será levado ao limite da civilidade, será levado a uma situação extrema, em que todos os véus da etiqueta serão incinerados, o cara vai acabar mostrando o bicho que ele realmente é, seja no sexo, seja na violência.

Acontece que isso aí não é nada além de um roteirinho pré-estabelecido na cultura. O sujeito é sempre um papel. E até isso, que parece frustrante, surge como uma atração mórbida, irresistível. Não é apenas o voyeurismo ilimitado que nos leva ao “reality show”, é também o exibicionismo. E a hierarquia dos valores do nosso tempo, em que a fama justifica toda humilhação.

Humilhante, hoje, é não ser ninguém, não poder consumir ninguém e nem ser consumido por ninguém. O sucesso vem da iminência de transgressão, da possibilidade de queda das barreiras do convencional a qualquer instante. Depois daí, os “reality shows” não têm mais para onde ir. Esgotam-se, como um ciclo mais ou menos curto.

O formato do “reality show” coloca em questão a narrativa ficcional da TV? De que maneira?

Daniel Filho: É bom para diálogos, comportamento, mas não mudará em nada o ficcional. Assim como gostamos de ver a janela do vizinho, que pode ser aquela mulher solitária cozinhando durante horas, arrumando a mesa etc., na espera de algo mais forte, que acontecerá quando ela fechar a janela, iremos imaginar pelas sombras refletidas, até a hora do escuro total... Lembra filme de Andy Warhol? Pois é, 10 horas de um close de um homem dormindo, e lá embaixo a rua, pessoas fora de foco passando. Mas, a nossa preferência maior é pela montanha russa da vida. Não queremos apenas ser espectadores. Masturbadores. Numa boa ficção você consente em entrar numa aventura de emoções, que te fazem chorar, tomar sustos, se angustiar, rir, pensar, "viajar", com a certeza de estar num lugar firme. Que aquilo acaba em duas horas, (atualmente estão esticando um pouco demais) e ao teu lado está a tua companheira. Os atores viveram a aventura por você, e você pegou carona, com hora marcada. Depois um chope. É o que eu prefiro, assim como a maioria.

Roberto Moreira: Qualquer ficção precisa de conflitos e tensões. Frente às narrativas institucionais e higiênicas do horário nobre, o “reality show” é uma ilha de tosco realismo. Cabe a pergunta: que sociedade é essa que não consegue colocar seus problemas no palco da ficção?

Eugênio Bucci: Não. Os reality show são uma narrativa pré-fabricada, uma narrativa da intimidade prêt-à-porter, uma narrativa da intimidade que se encaixa em qualquer um. Melhor dizendo, são uma discursividade, não uma narrativa. O grande limitador desses programas é exatamente a pobreza narrativa. Eles mostram a crueza do que, imaginariamente, supõe-se ser o bicho humano por dentro. Ou seja, mostram uma crueza irreal, fictícia, ilusória. Mas, vá lá, pegam porque passam essa idéia, de que mostram uma crueza. Eles, no entanto, não conseguem elaborar nada a partir do que mostram, não dão sentido às coisas que ali se revelam. O sentido fica fora deles, vem de fora para dentro.

Ora, a narrativa, e sobretudo a narrativa melodramática, funciona porque explica para o telespectador a vida que ele leva sem entender. Isso o “reality show” não consegue fazer de modo satisfatório. Por isso se esgota.

Marcelo Tas: Paradoxalmente, o fato desses programas terem se tornado tão populares prova que o telespectador está faminto por mais criatividade na TV. Aliás, o estrondoso sucesso de "Casa dos Artistas" e o relativo fracasso de "Casa dos Artistas 2" são bastante esclarecedores. Em “Casa Dos Artistas 1”, Sílvio Santos subverteu uma fórmula já testada. Foi anárquico, surpreendente e ousado. O público entendeu e adorou. Em “Casa Dos Artistas 2”, ele fez exatamente o contrário. Quis repetir uma fórmula, jogou na defesa com medo de errar. O programa amarelou e o público não se deixou enganar.

É incrível. Até na hora de escolher entre programas populares de TV, o telespectador brasileiro demonstra sua sabedoria. Ao contrário de muita gente bacana, penso que o telespectador brasileiro está entre os mais inteligentes, ousados e exigentes do mundo.

Daniel Filho, Marcelo Tas, Eugenio Bucci
e Roberto Moreira


 
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