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dossiê
Tele-realidades

As origens do "Big Brother"
Por Arlindo Machado

Difícil saber exatamente de onde surgiram esses programas no estilo “Big Brother”, baseados na idéia da submissão de um grupo de pessoas a uma permanente vigilância pelas câmeras da televisão. Já na aurora da televisão, nos anos 1940, Allen Funt fez furor com seu programa “Candid Camera”, em que câmeras escondidas na paisagem flagravam situações cômicas ou vexatórias, sem que os seus protagonistas soubessem que estavam sendo filmados.

Em geral, a produção fazia desencadear acontecimentos, para observar a reação dos protagonistas involuntários. Colocado em situação de voyeurismo explícito, o público americano se divertiu durante várias décadas com o vexame alheio. Essa é também a origem das “pegadinhas” do Sílvio Santos e do Sérgio Malandro. Mas, na verdade, esse “gênero” televisual, se é que o podemos chamar assim, nasceu já na era do rádio, a partir do programa radiofônico “Candid Microphone”, do mesmo Allen Funt. Nada de muito novo, portanto. Tudo já existia antes mesmo que George Orwell concebesse o Big Brother em seu “1984”.

Possivelmente, a primeira experiência explícita de vigilância autoconsentida foi o programa “An American Family”, exibido na televisão norte-americana em 1972, dando nascimento àquilo que Jean Baudrillard chamou de “télévision-vérité”: a vida cotidiana de uma família americana (uma família de verdade; nada de atores, nem de ficção) observada minuciosamente em sua privacidade, por inúmeras câmeras de televisão durante sete meses seguidos.

O polêmico “seriado” produzido pela rede PBS mostrou não exatamente o que é, de um ponto de vista documental, uma típica família americana, mas sim o que acontece quando um grupo de pessoas é submetido sistematicamente, ininterruptamente, até mesmo na sua intimidade mais secreta, ao olhar voyeurista das câmeras que o colocam em conexão com vinte milhões de “peeping toms” espalhados por todo um país. De fato, a família Loud, de Santa Bárbara (Califórnia), foi destroçada pelas câmeras de televisão. O casal Bill e Pat Loud se divorciou durante as filmagens. O personagem mais sacrificado foi o filho Lance Loud, flagrado pelas câmeras numa relação homossexual e transformado em alvo de chacotas em todo o país.

Hoje os programas de vigilância autoconsentida não são tão destrutivos como “An American Family” porque, na verdade, são ficções disfarçadas, interpretadas por atores, depois de meses de ensaios e leituras dos “scripts”. Terminam sempre com um “happy end”, como em qualquer telenovela. São apenas simulacros de “An American Family”. Mas há um outro “gênero” televisual, aparentemente inocente e inofensivo, que retoma, num sentido completamente diferente, a idéia da autovigilância. Aqui no Brasil ele costuma ser chamado de “vídeo-cassetadas” (nome popularizado no programa do Faustão), mas a sua matriz é o “America’s Funniest Home Videos”, série da ABC norte-americana iniciada em 1990 e que segue sendo exibida até hoje.

A idéia desse programa é simples: hoje as câmeras de vídeo estão em todos os lugares e, portanto, qualquer coisa que aconteça, da mais banal à mais insólita, está provavelmente sendo registrada, seja por um profisisonal, seja, mais provavelmente, por um amador. Em outras palavras, tudo o que acontece está potencialmente apto a aparecer numa tela de televisão. No limite, todos nós hoje fazemos parte desse “Big Brother” permanente e universal e a nossa vida privada pode, a qualquer momento, estar sendo revelada em público, através da televisão, sobretudo se contiver algum componente particularmente favorável a uma exploração espetacular.

Nossa sociedade, como já observou Michel Foucault, é menos a dos espetáculos do que a da vigilância. Mas a sua esperteza está em transformar a própria vigilância em espetáculo. A maioria das operadoras de cabo oferecem hoje um serviço extra aos edifícios que subscrevem os seus serviços: elas destinam um ou mais canais de televisão para a visualização das câmeras de vigilância do próprio prédio. Assim, ao lado do “Big Brother” ou da “Casa dos Artistas”, o espectador pode espiar também – e na mesma televisão – os seus filhos brincando no parquinho, as pessoas que entram e saem do prédio, os vizinhos tomando banho na piscina ou o que acontece na garagem, ao vivo e vinte e quatro horas por dia.

A audiência desses canais nunca foi aferida pelo Ibope, mas tudo indica que ela não deve ser muito pequena. Afinal, a televisão conseguiu fazer da vigilância uma forma de atração e de prazer escópico, de modo a generalizar a idéia de Jeremy Bentham a respeito de uma sociedade autovigiada, o Panóptico.

Arlindo Machado
É professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP e do Departamento de Cinema, Televisão e Rádio da ECA-USP. É autor de "Televisão Levada a Sério" e "A Arte do Vídeo, Máquina e Imaginário: O Desafio das Poéticas Tecnológicas", entre outros.

 
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