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O que era um filme caseiro, torna-se como que uma história dos anos 30 e 40 e do que aconteceu sob o nazismo, ou sob o comunismo, dependendo do filme. São filmes muito poderosos, e como os de De Antonio, eles demonstram como qualquer imagem pode ser usada para muitos propósitos diferentes.

Pergunta: Em que medida esses filmes baseados em filmes dos 30 e 40, que retrabalham registros domésticos, se assemelham com “reality shows”? Renov: Essa é uma questão interessante, porque estamos falando de um contraste radical. O que diferencia por exemplo o programa da MTV e Forgasch e De Antonio, é precisamente um processo de pensamento -mediação em suma. Não há transparência, não há esforço para que a imagem seja manipulada rapidamente, mas ao contrário, há uma ênfase no processo de pensamento cuidadoso. De Antonio lecionou filosofia durante um certo tempo. Ele era um filósofo muito interessante. Forgasch estudou história, mas é mais um autodidata.

O pensamento e o tempo despendido no trabalho com o material é muito diferente do caso da MTV ou outros exemplos que se baseiam na sensação e na superfície. As diferenças podem ser descritas como diferenças entre superfície e profundidade, pensamento e mediação.

Nichols: Uma outra maneira de colocar seria dizer que a “reality TV” tem mais a ver com espetáculo, enquanto o trabalho desses documentaristas tem mais a ver com historiografia, com escrever história em forma de filme, para oferecer às pessoas uma forma nova e única de entender o que ocorreu no passado.

“Reality TV” creio que é sobre esquecer o passado, fruir o momento. Veja como os Osbourne são malucos, ou veja como a polícia é efetiva. E aí assista um comercial de automóvel. Acho que está tudo na mesma espécie de registro. Então é muito diferente, embora ambos envolvam a manipulação de imagens produzidas por outras pessoas.

Renov: Bill falou em espetáculo. Ainda uma outra maneira de colocar essa questão seria pensar em sensação, significando um tipo de efeito “resposta instantânea” e “resposta corporal”. E eu argumento que essa é uma das coisas que a TV pode fazer melhor, por causa do imediatismo do sistema de emissão e recepção. Mas é irônico, por exemplo no “game show”, em que as pessoas estão dispostas a fazer as coisas mais escabrosas, como comer insetos.

Mas a TV pode servir ao outro lado também, por isso é difícil de entender. De Antonio recicla material de televisão. O trabalho de Forgasch é difundido pela televisão, especialmente pela TV européia, que é paga e costuma exibir seus filmes, que são meditações sobre a história e nos oferecem a possibilidade de entrar em contato com esses momentos do passado.

Pergunta: A estrutura comercial da TV e do cinema americano -o alto custo, a gravação em estúdio- faz com que a realidade apareça de maneira maquiada, diferente da vida cotidiana das pessoas. Será que o cinema brasileiro, até pela falta de estrutura, tem mais de documentário e de realidade?

Renov: Há muitas coisas que se poderia dizer sobre isso. Nos Estados Unidos há uma competição comercial intensa entre a pequena e a grande tela. E, nessa competição, a pequena tela se especializa na realidade, mesmo que não seja a realidade, como acabamos de descrever, ela joga com a realidade. Já a grande tela joga com a hiperrealidade, com os efeitos especiais que a tecnologia digital permite e que se ajustam melhor na tela grande. Eu diria que uma grande parte disso é simplesmente uma jogada de marketing que visa dar continuidade à idéia de que o cinema é simplesmente monumental e não cabe na tela pequena, não dá para ser assistido em casa. Tudo ficaria diminuído na tela pequena. É basicamente uma jogada econômica.

E.H.

 
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