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dossiê
Tele-realidades

TV sem moralismo
Por Esther Hamburger

A onda recente de “reality shows” ao redor do mundo estimula o debate acirrado sobre temas recorrentes, como o excesso de sensacionalismo, a invasão de privacidade, o voyeurismo, a impropriedade de determinadas cenas na TV, a falta de ética envolvida na realização de experimentos com seres humanos.

Embora alguns desses elementos estejam, de uma forma ou de outra, presentes nos programas, cabe perguntar se justificam o sucesso de público e o alarde, que fazem dos “reality shows” uma espécie de “fenômeno midiático” global e contemporâneo inconteste.

O moralismo que marca o debate dificulta o discernimento. O que há de realmente novo nesses reality shows do início do século 21? Polêmicas em torno da propriedade da exibição de sexo e escatologia na mídia não são novas. O teatro de revista, o cinema desde os primeiros tempos, o circo, as revistas pornográficas e, é claro, a TV, ao longo do tempo ofereceram assunto de sobra à especulação. Estaria nessas violações o diferencial dos reality shows?

Versões mais ou menos escandalosas sugerem que não. Basta notar a disseminação de versões “politicamente corretas” ou de “ação afirmativa” dessas atrações, como os recém estreados programas de formação de calouros.

A tematização do cotidiano de pessoas anônimas, por sua vez, ecoa experiências televisivas passadas, presentes desde os primórdios da história da TV no Brasil, nos Estados Unidos e em outros lugares, como sugere Arlindo Machado em artigo nesse dossiê.

A performance dos calouros no Chacrinha, os encontros amorosos no Sílvio Santos, as histórias escabrosas no Homem do Sapato Branco são apenas alguns exemplos brasileiros.

Embora experiências desse tipo estejam presentes na história, elas não ganharam as dimensões de público, publicidade e crítica que provocam hoje. Essa repercussão inusitada constitui parte da novidade a ser explicada.

Trópico dedica esse dossiê aos “reality shows”. A idéia aqui é contribuir para retirar a discussão do terreno moral em que ela na maior parte das vezes se situa. A história do gênero levantada por Arlindo Machado contribui para ponderar a novidade do fenômeno.

Vale notar que o primeiro “reality show” norte-americano foi exibido pela PBS, rede de televisão pública daquele país, conhecida pela qualidade de sua programação. Era um programa que acompanhava o cotidiano de uma família “normal” de classe média americana.

A iniciativa provou-se polêmica pela repercussão que gerou na época. Longe de simplesmente representar à distância, como se supunha, o programa interferiu na vida dos familiares celebrizados. A morte de um deles, gravada recentemente, anos depois, a pedido do próprio, está programada para ir ao ar no fim do ano.

De lá para cá o formato se diversificou. As versões criadas pela Endemol, produtora holandesa se celebrizaram pela apelação. Referências à exibição de atitudes e ações consideradas inadequadas abundam nas diversas partes do planeta. Distante da origem norte-americana, o formato hoje é dos mais comerciais.

As menções de Bill Nichols e Michael Renov ao “reality show” no seminário que os dois professores norte-americanos especialistas em documentário fizeram para alunos e professores do Departamento de Cinema, TV e Rádio da USP, ao “reality show” da MTV, atual sucesso nos EUA, lembram que vertentes que agradam a classe média alta, persistem.

No Brasil, como apontam Eugênio Bucci e Bia Abramo em suas participações nesse dossiê, o “reality show” ecoa a estrutura seriada e folhetinesca da novela. Aqui, o gênero se apoia em seu parente ficcional para gerar um tipo de torcida semelhante.

É como se as pessoas se inspirassem em convenções narrativas do gênero telenovela para criar personagens e tramas em “Casa dos Artistas” ou “Big Brother”. Bia Abramo se detêm na análise do processo de ficcionalização do “reality”.

Eugênio Bucci discorre sobre as maneiras pelas quais o “reality show” de alguma maneira realiza uma rede, apontando uma pista para desvendar a novidade do gênero. A razão do caráter tão provocativo do gênero pode não estar em nenhum dos excessos convencionais.

Daniel Filho se apresenta com o referencial pragmático do profissional céptico. Para ele, a saída parece ser a de, na ofensiva, assumir um caráter desglamourizado da TV. Roberto Moreira vai na linha oposta, provocando pela negação. Marcelo Tas ressalva a sensibilidade da audiência, sensível que é à formação de redes contemporâneas.

A Rede Globo e o SBT acabam de colocar no ar mais dois “reality shows”. Enquanto as emissoras competem por meio do gênero, a discussão continua.

Em que medida os “reality shows” podem ser considerados como parte de um movimento -o termo não é bom já que sugere algo orgânico- em direção a representações que problematizem sua capacidade de intervenção social? Em que medida, como sugerem Nichols e Renov, a diferença entre o produto da TV comercial e o produto do documentarista hermético, mas também dedicado a registros do cotidiano, está situada no pensamento e na quantidade de elaboração investidos nos dois produtos? Mas será possível afirmar que o produto comercial demanda menos planejamento? Como distinguir entre produtos que apresentam níveis de complexidade tão diferenciados? É um debate que não se esgota.

Esther Hamburger
Esther Hamburger é antropóloga, professora do departamento de cinema, televisão e rádio da Universidade de São Paulo (USP) e editora de "Trópico".

 
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